SE VOCÊ QUISER

As pessoas falam demais, nunca dizem o suficiente, choram de menos e engolem suas mágoas. As pessoas se fecham e partem e somem e não agem como o esperado, as pessoas são corrompidas pela atração ao superficial porque o superficial é fácil e alcançável; as pessoas aproveitam confortavelmente suas respectivas zonas de conforto culpando tudo que não vivem pelo platonismo idealizado e ah, tão distante; é tão mais possível sobreviver ao amor não correspondido do que aquele em que há reciprocidade.

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A coragem de amar o real é sincera demais pra ser frequente, é transparente demais pra ser sentida, exige esforço demais para deixarmos de lado o cotidiano de fingir que não nos importamos. O ato de se lançar no sentir sem saber se quem está ao lado e mal te enxerga vai pular também, a espera e a angústia de não saber, o gosto da dúvida que é bem melhor que a verdade porque a verdade é concreta e a dúvida abre espaço para o “e se” todo cheio de ilusão.

Às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente para nos fazer sofrer, às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente pra causar qualquer coisa, o que seja, aqui dentro, caos ou paz, dor ou cura. Faz falta, no meio de tanta covardia em amar o irreal platônico, algo que seja palpável. Que faça arder e descongele a rotina.

Ah, eu gosto é do estrago, de boba que sou. Gosto é do que rasga, do que grita e faz gritar. Gosto do que faz bagunçar a gaveta, a cama, o quarto, que vira tudo do avesso numa madrugada e faz questão de mudar de lugar minhas certezas. O que me cativa não é só a paz que traz, mas toda antecipação de tudo, todo o descaso feito em cima de qualquer proposta, eu gosto do que é desnudo e sincero na minha frente sem se importar em apagar a luz pra disfarçar as cicatrizes.

Entra pela porta da frente, aceita um café? Sinta-se em casa, tira o sapato, espalha o seu corpo, seu cheiro, sua bagagem por aí. Vem e se perde em mim, tira meu rumo, molha minhas roupas com suas lágrimas que dizem mais que qualquer verbo. Não vem com pressa, não. Mas vem com intensidade, mergulha em vez de molhar os pés, olha pra trás algumas vezes, ninguém tem certeza de primeira.

Quando o real se mostra e não tem mais dessa de inventar hipóteses e interpretar reações, quando deixa de ser platônico e passa a ser cru, tenho vontade de fugir. Correr e me esconder. Eu sempre fico, eu sempre me deixo pra morrer afogada. Eu sempre me rendo e quebro as paredes sabendo que não vou sair sendo a mesma.

É só questão de rendição pro que se mostra como opção, mas na verdade já invadiu e decretou-se como fato.

ENTRE LENÇÓIS E COISAS NÃO DITAS

Eu sinto e vivo e fujo de forma meio implícita e minhas vontades são todas indiretas e calculadas, de uma forma meio preto e branca, toda mistério. Tenho gosto pela penumbra, o implícito, o rosto mostrado pela metade e o corpo desfocado violentamente numa poesia meio distorcida, quase palpável, que atinge meu paladar e minha vontade por tato.

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Eu gosto mesmo é da antecipação que causa aquela ansiedade boa, dos arrepios entre o que foi falado e o que foi traduzido em olhar, dos toques minimalistas do início da noite ou madrugada afora, meio secretos e íntimos por completo. Eu gosto quando o beijo é devagar e a euforia acelera, gosto do sorriso de provocação, do sabor de querer mais, mais, mais. Nunca o suficiente.

Eu gosto é do erótico, não do pornográfico; gosto do sensual no lugar do sexual, gosto das propostas indecentes que me conquistam após a terceira vírgula e da respiração pesada que acompanha a pausa. Eu gosto é do espaço entre as palavras. Eu gosto do silêncio convidativo. Gosto do escuro, do breu, sem possibilidade de qualquer realidade escancarada.

Eu quero mesmo é a verdade toda nua, espalhada entre lençóis, esperando para ser descoberta. Eu gosto quando o sol se esconde atrás do véu e a alma se torna mais ousada e corre riscos: fazer mais, falar mais. Buscar o toque e as sensações num frio noturno atrativo.

Eu gosto do mal contado. Da possibilidade de interpretação livre. Do inacabado que fica ali, disponível para ser finalizado quando, como e onde quisermos.

A sós.