REFÉM

Tenho o hábito inconsciente de procurar seu rosto entre todos os que vejo na multidão, sentindo aquela esperança quente que mantém as borboletas em meu estômago bem alimentadas. Em cada ônibus que sento, em cada curva que faço, em cada esquina suburbana e suja eu te procuro quase instintivamente. Até hoje não te matei dentro de mim.

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Não posso evitar, prolongo sua estadia por aqui sem preocupar em cobrar juros. Ainda consigo sentir resquícios do verão que você trouxe consigo quando chegou, exibido e apaixonado pelos pequenos detalhes rotineiros que inspiravam sua prosa cotidiana. O céu escureceu por aqui desde que você entrou naquele trem das sete. O das onze não te trouxe de volta. Tudo igualmente cinza.

Aos domingos, costumo encarar o que ainda há de você aqui dentro. Te olho nos olhos, aproveito o impulso que dura três ou quatro segundos e encosto o cano da arma bem entre suas sobrancelhas, sem desviar o olhar das suas pupilas, sentindo o gatilho implorar para que eu o pressione.

Por mais um segundo, penso a respeito.

Seu olhar escuro é sempre o que me faz desistir.

Te deixo vivo aqui. Vivo e refém.

CRÔNICA DE FIM DE ROMANCE CLICHÊ

Você deve estar em algum bar do outro lado da cidade, trocando olhares com alguém que não dá a mínima. Na verdade, tanto faz, porque você também não dá a mínima. Você mudou tanto, eu também: agora cada um de nós tomou posições em lados opostos do subúrbio.

São três da manhã. Em ponto. Eu odeio horas exatas porque elas me fazem lembrar de você e de como tudo em você era exato: os horários, as manias, os olhares, as opiniões. Era como se você tivesse tudo guardado dentro de si, todo movimento estritamente calculado, pensado, articulado. Coisa mais irritante. Por dois (exatos) anos eu suportei todas as suas pontualidades, reclamando de cada uma delas (no início elas me faziam rir, mas como todas as coisas, acabaram perdendo a graça) e agora eu sinto falta. Ironia do destino, eu acho. Lição aprendida.

É a quarta noite seguida que tento afogar a saudade em vinho barato. Que droga, hein? De todos os finais que imaginei pra nós dois, esse não era nem de longe um deles. O álcool não tem muita graça quando tiro proveito dele sozinha. A ressaca é mais divertida quando as outras pessoas nos lembram o que aconteceu na noite anterior, mas agora não tenho ninguém pra me lembrar os fatos. E mesmo se tivesse, ainda assim faltariam os próprios fatos. Nada acontece, queria que acontecesse; tudo sempre gira em torno de você, pra variar.

Amanhã vou acordar na cama errada de novo. Os lençóis bagunçados apenas por mim mesma. A cada dia que passa, me culpo mais por não ter tomado a atitude de sair desse maldito apartamento eu mesma, em vez de te colocar pra fora. Cada canto desse lugar tem seu cheiro, sua marca, mas não você propriamente, porque o especialista em largar tudo pela metade não falhou no seu último ato.

A cada vez que você entra de novo para buscar mais uma de suas camisas (que antes eram meus pijamas) é como se deixasse um pedaço seu. Esse lugar é nossa alma fundida, seu cheiro e meu gosto. Juntinhos. Ainda não aceitaram a separação. Parece que você faz de propósito: leva suas coisas devagar, uma de cada vez, só para me torturar a cada vez que você pisa aqui dentro mais uma vez. Pisa não só dentro do apartamento, mas dentro de mim também, sufocando meus órgãos e me deixando sem ar. Tomei a atitude de colocar um de seus moletons escondido embaixo de meu colchão. Não para eu ficar sofrendo, não sou desse tipo. Não encosto nele desde que o coloquei ali. É verão, está quente, a brisa que entra pelas janelas me conforta e me abraça. Guardei-o ali para que, no inverno, eu possa ter uma pequena lembrança do modo com que você me aquecia.