EM UMA CASCA DE NOZ

A arte é incapaz de imitar a vida
porque a linguagem é falha
e nem a música nem a matemática conseguem explicar o que eu sinto
ao enxergar aquele rosto no meio da multidão,
ao sustentar aquele olhar durante o café da manhã,
ou ao pisar em um lugar completamente desconhecido e me sentir em casa.
Há alguma coisa entre o instintivo e o calculado
entre a fé e a ciência
que ninguém sabe ainda como traduzir,
embora os poetas passem madrugadas tentando
e os profetas os observem, calados.
Mesmo que os físicos já tenham descoberto o caminho para a lua
ainda não se sabe muito sobre os buracos negros
e dentro de mim circulam as mesmas partículas que circulam por lá
há anos luz de distância.
Eu sei que sou feita dos mesmos átomos que galáxias desconhecidas
e a pessoa que senta ao meu lado no ônibus
é feita dos mesmos átomos que eu,
então como podemos nos sentir tão
inevitavelmente sozinhos e pequenos?
Entre todos os mundos
entre todos os tempos
e entre todos os universos paralelos
nos encontramos neste.
Agora.
E embora a minha arte seja incapaz de dizer
sobre toda a verdade que há em mim nesse momento
de alguma forma inexplicável,
consigo sentir meu coração sincronizado com os de quem me escuta
e peço que me escutem
peço que escutem meus batimentos cardíacos
e toda a gratidão contida neles.
Porque mesmo não sendo nada,
hoje
sinto como se carregasse o universo inteiro
dentro de mim.

fireeee

O SER E O NADA

A vida é uma espera. Pela morte, por amores inacabados, por palavras que não virão. Uma pausa entre duas eternidades de inexistência, a concretização de um corpo num período breve que logo transformará o mesmo corpo em partículas que voltarão ao imenso universo ao qual pertence realmente.

ser e nada

E vagamos fingindo rumos que não passam de uma forma de ocupar o tempo enquanto aguardamos o final inevitável do capítulo (a história inteira é mais ampla que esse breve intervalo terreno). Porque a morte é um porto e nós somos barcos obedientes, atando e desatando nós por nossas várias cordas no percurso longo, trombando uns com os outros, calculando encontros e desencontros. Nós somos Colombo indo em direção ao precipício do desconhecido.

A passagem desse pensamento dá uma agonia invencível e fazemos papel de ignorantes, como se não soubéssemos de nada disso, nos preenchendo com objetivos curtos, médios, longos. Idealizando tudo. A arte de planejar nos é natural porque sem ela morreríamos por vivenciar demais a verdade; o tédio é a pior parte do ócio porque nos permite entender o que nos espera.

Sou dessas pessoas que passa as horas antes de dormir pensando no que vou deixar no mundo quando meu corpo já estiver se desfazendo e minha mente deixar de funcionar. De todos os inventores e pensadores, de todos os inventos e pensamentos, de todas as revoluções e literaturas, que há de novo para se pensar, criar ou escrever? Que há de ser marcante o suficiente para ser conhecido e estudado por dois, três, quatro séculos?

No fundo, há uma voz que me diz: nada. Porque se somos barcos e a morte é um porto, a vida é o mar. Nunca o mesmo. E, embora as ondas mais grandiosas consigam, por vezes, cobrir a costa e nos deixar incrédulos com tamanho poder, elas desabam e desaparecem numa imensidão homogênea e azul.

Até mesmo os vestígios de quadros feitos um dia desbotam.

NADA

 

Esse mundo é grande, mas continua sendo pequeno demais. Talvez não deveria ser assim, mas as pessoas o tornam um lugar limitado, despreparado, cheio de regras e pontos finais. Esse mundo é cruel demais, cheio de desigualdade e miséria e fome e gente nas ruas, gente sem lar, gente perdendo a mente pelo caminho e gente fechando os olhos para o que tem e focando no que deixa de ter (tão pouco). Esse mundo é rápido demais, nossa existência é um sopro, efêmeros, e tudo aqui é construído pra desabar; quem consegue deixa uma marca mais permanente, uma cicatriz mais profunda, mas nunca eterna. Esse mundo é cheio de maldade e egoísmo, cheio de incompreensão e preconceito, esse mundo carece amor, empatia e entendimento. Respeito. Esse mundo é pequeno demais pra imensidão de algumas pessoas que transbordam e não nasceram pra estar aqui. Esse mundo é morno e não suporta a existência ardente de quem nasceu pra bater de frente, pra falar verdades que as pessoas não pedem pra escutar, mas que precisam ser faladas. O final disso tudo é mais complexo que paraíso e inferno e as pessoas brincam com a morte com descaso, não há diálogo, não há escapatória para o sofrimento que nos é imposto, ninguém pediu pra nascer. Afinal, isso tudo não é apenas uma piada cósmica? Sou uma partícula indiferente num universo de possibilidades. Sou nada num mundo em que todos acham que são tudo.