QUERIDO DIÁRIO,

Às vezes eu sinto que preciso apenas de uma caneta e uma folha em branco. Apenas sentir a textura de ambos, a tinta se fixando no papel, meus rabiscos mal desenhados num espaço a ser preenchido por ideias que quase não consigo organizar.

Hoje às sete tudo desabou. De novo. Há algumas semanas tudo que havia era chuva e neblina aqui dentro enquanto o sol castigava lá fora. Eu me afogava no meu clima impiedoso, sem tempo pra respirar e sem vontade de fazer qualquer coisa que exigisse algo da pouca energia que eu mantinha. De tempos em tempos me sinto assim, sem perspectiva, meio nublada e tempestuosa, e com o passar desses anos aprendi a conviver com isso. Aprendi que, quando a tempestade chega, tudo que eu tenho que fazer é continuar de pé até ela passar. Eventualmente, acaba. Tudo acaba. Os dias de sol e os de chuva.

Nesses dias de tempestade, posso transmitir a mensagem de que quero ficar sozinha, mas isso é só uma tentativa de enganar a mim mesma. O que eu quero – e preciso – é que alguém fique por perto, em silêncio, vivendo a própria vida, mas por perto. Mostrando que está ali caso um vento forte ameace me derrubar. Só preciso de algo presencial. Real. Preciso de algo que desminta tudo que as vozes na minha cabeça gritam durante esses dias, de algo que me mostre a diferença entre o que existe e o que eu invento. Algo palpável e concreto.

Dói muito aqui dentro. É uma dor forte, intensa; parece que algo está comprimindo meu peito e minha garganta, quebrando minhas costelas devagar. Sinto tudo e nada ao mesmo tempo e o sufoco é quase insuportável. Por vezes, transbordo, o que de certa forma alivia, mas não o suficiente. Nada nunca é suficiente enquanto a chuva insiste em permanecer.

O mais curioso disso tudo é que, nessas épocas, não necessariamente deixo que isso transpareça. Rio, conto piadas, de vez em quando consigo até mesmo cantar alguma música alegre se estou entre pessoas que me fazem bem. Há dias em que a chuva fica em segundo plano por alguns minutos ou horas. Mas ela nunca me permite esquecer que ainda a tenho dentro de mim. Chovendo. Chovendo.

Sei que isto é uma condição de permanência, um demônio com o qual terei que conviver durante toda a minha vida. Em dias de sol, as vozes em minha mente são quietas. Se falam, apenas sussurram, de modo que até esqueço que elas existem. Mas elas sempre voltam para gritar quando a chuva retorna, e eu tenho que aguentá-las. Com um pouco de sorte, talvez eu consiga mantê-las silenciosas pela maior parte da minha existência.

A caneta e o papel são minha droga, o que anestesia meus cortes temporariamente. O papel me escuta, me acolhe, me entende. Como eu disse, não são suficientes, mas aliviam. Assim como o choro. O abraço. O silêncio presencial.

Hoje às sete tudo desabou de novo, Voltou a chover. Estou em pé, me molhando, esperando passar.

TEMPESTADE

Nosso amor se espreme numa cama pequena enquanto o céu empurra o sol para baixo, entre as montanhas, e a lua ocupa seu espaço por direito. Perco-me na imensidão da noite depois da despedida em tons de vermelho e você me encontra num mar de cores e cheiros, dores e cortes, toques e olhares.

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A saudade que sinto e minha curiosidade seca se escondem sob seus braços quentes e justos. A sua respiração choca-se contra minha testa e se dispersa no espaço junto com os pensamentos que não sou capaz de controlar: não me arrependo de nada que não fiz e convivo bem com os demônios que eu mesma criei dentro de mim. A paz que você me proporciona entra em conflito com o caos que carrego dentro da minha mente e eu não suporto a guerra que surge no tempo-espaço.

Meu amor, a gente está sozinho no meio dessa grandeza sem fim. Não pedi para estar aqui e não há saída de emergência, sou obrigada a assistir o espetáculo até o final. Você me responde com um sorriso de melancolia e não procura me consolar. O silêncio é piedoso, mas a tempestade dentro de mim é alta e a insônia é inevitável apesar do ar quente e aconchegante que nos rodeia.

Tenho vontade de me desculpar por sentir demais, mas sentir demais não é exatamente o que me torna quem sou? E quem eu seria se eu me desculpasse por tudo que me faz ser eu? Sei que eu não devo satisfações pra ninguém, mas sou incapaz de lidar com as cobranças que eu mesma faço num ciclo tortura sem fim. As lágrimas forçam meus olhos e transbordo em minha própria existência dentro do seu abraço, querendo descansar de tudo que carrego no meu peito.

Sou o caos, sou a confusão personificada, falo demais e falo menos do que deveria, nunca sei o momento certo. O céu de outono me deixa mais sentimental do que já sou, digo, justificando o que não consigo verbalizar. Seu olhar me deixa confortável para me jogar na liberdade do choro e do soluço, sem amarras. Permito-me sofrer um pouco, sem a dor não sou ninguém, é ela que me move e alimenta minhas páginas em branco nos dias de inspiração. Meu inferno particular se acumula sem que eu perceba e eu me afogo na minha própria bagunça.

Seu contato com minha pele é o que me mantém na superfície, apesar de tudo, sua voz e sua risada são o complemento para o que falta de mim. Somos três no quarto e por um momento sinto paz: eu, você e toda a energia de tudo aquilo que não consigo falar em voz alta.