NATUREZA SELVAGEM

Aqui em mim nasce uma coragem que rasga. Uma coragem que morde, rosna e quer matar. Que grita: estou pronta. Eu a deixo crescer, mas não a alimento. Ela que se alimenta de mim. Arranca meus órgãos e queima como quem diz que vive e vai chegar onde quer. Nem meus pensamentos atordoados ou meus medos irracionais conseguem impedir uma ação tão espontânea.

Desconfio: estou em combustão.

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As minhas certezas se transfiguram em outras que contrariam as de origem, os meus sonhos tomam forma e honestidade, peço que me abram uma avenida antes de conseguir impedir minha língua de desenhar a frase no céu da boca. Já não estou no comando de mim mesma. O meu coração é insubordinado e minh’alma não sabe de obedecer.

Hoje, a guerra é minha. Porque há dentro de mim um animal selvagem que ronda meu subconsciente tornando-o igualmente indominável.

Passiva, observo de dentro enquanto o externo de mim grita pro mundo: estou aqui e vou lutar.

TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO

Sou pequena.

Sou de uma família de baixinhos, então meu tamanho não é surpresa pra mim nem pra ninguém. Sou pequena. Sou escrita em letras minúsculas: tudo em meu corpo é menor: meus pés, meus dentes, a largura dos meus dedos e do meu pulso, meus olhos que somem quando sorrio.

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Sempre tive espelhos em casa, é claro, então sempre tive também consciência da minha pequenez. Não que isso impeça as pessoas de me lembrarem dela em qualquer oportunidade que tenham. É frustrante em algumas vezes, como quando preciso de um banquinho pra conseguir pegar o biscoito que está na última prateleira ou quando alguém não me leva a sério porque tenho 1,58 de altura e o respeito de opinião é um pouco mais difícil de se conquistar pr’aqueles que têm menos de 1,60.

Por fora, sou pequena mesmo. Mas não se enganem: sou enorme aqui dentro. Tenho um universo inteiro entre meus órgãos, galáxias e sistemas solares de sonhos e ideias que transbordam pelos meus poros. Tenho uma poesia imensa que grita, chora e se descabela para ser escrita no papel. Tenho consciência do quão grande sou por dentro, não porque posso ver isso refletido no espelho, mas porque sinto.

Para compensar o pouco espaço físico que ocupo nesse mundo, faço dos meus versos mal escritos uma extensão do meu ser: nas minhas rimas, concretizo a imensidão do meu sentir.

AUSÊNCIA DE LUZ

A vida é um suicídio lento.

Somos concretizados como seres que existem entre rotinas, frases não ditas e sonhos que não florescem e se enterram sob o cimento.

Fingimos qualquer satisfação cotidiana entre as filas de banco, os falsos sorrisos e a convivência por obrigação. Sem música pra dançar, sem cor, a luz já meio desbotada e a tarde de domingo que não mais traz a paz, mas sim o vazio.

A vida é lidar com a censura implícita em cada hora e o silenciamento pela falta de coragem de conquistar a pouca liberdade que podemos sonhar em ter: a de ser e nos expressar sem medo algum, a de ser respeitados, a de conseguir cultivar ideias fora da caixa que somos colocados.

A vida é conter-se e ser pouco, viver em potes categorizados e ter como função única o cumprimento de prazos e expectativas, é aceitar perder (tempo, sonhos, pessoas). É engolir o choro e só vomitá-lo no silêncio soberano da madrugada, sem ninguém ver, sem ninguém ouvir.

O tempo nos desbota, nos cala, nos diminui. O tempo nos induz ao conformismo, viver é desgastar-se. A vida é um suicídio lento porque matamos um pouco de nós mesmos todos os dias.

Fortes aqueles que mantêm sua existência sempre cheia de luz e cor, com disposição para gritar e ser. Enfrente, em frente: sonhos não morrem, apenas caem no esquecimento.