QUASE

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Hoje de manhã, quase peguei minha bicicleta e pedalei inconsequentemente até a sua rua e bati o dedo no interfone do terceiro andar e ouvi a sua voz marejada de sono (talvez ressaca) e pedi desesperadamente pra subir te deixando preocupada com a urgência. E aí eu quase subi as escadas correndo – tropecei duas ou três vezes e meu coração quase explodiu no peito não só pelo medo de arrebentar todos os dentes em um degrau mas também pela perspectiva de te ver toda descabelada logo ao acordar – e entrei no seu apartamento com total disposição para derrubar a porta caso ela não estivesse um pouquinho aberta me convidando a entrar. Quase pensei meia vez antes de te roubar um beijo e ouvir seu respirar cansado, sem te dar tempo de dizer nada, e aí quando quase descolei sua boca da minha eu disparei a falar sobre o quanto você é a poesia dos meus dias num tom de drama mexicano que quase te fez rir. Quase me declarei pra você em francês pra te impressionar, quase te escrevi um livro de um milhão de páginas preenchidas com os vários motivos que te fazem ser especial demais pra esse mundo, quase peguei seu violão pra tocar uma música do Rubel e te dizer pra sentar do meu lado, tirar logo a roupa, sem precisar conversar.

Eu juro que quase te matei esmagada num abraço e ri das suas pupilas dilatadas, te deixando sem graça. Quase confessei que fiz uma playlist das músicas que me fazem pensar em você, que, feito adolescente, escrevo poemas de amor na última folha dos meus cadernos que nunca pretendo te mostrar, que tenho inveja dos cigarros que você acende toda vez que se despede de mim porque eu queria, como eles, queimar na sua boca morna até me desfazer em pó. Eu quase te disse que naquele dia que vimos o sol nascer eu mal consegui prestar atenção no céu que tanto me cativa porque você me distraía e eu quase te contei todos os segredos que guardo no peito, inclusive os sobre você.

Quase.

QUERIDO DIÁRIO,

Às vezes eu sinto que preciso apenas de uma caneta e uma folha em branco. Apenas sentir a textura de ambos, a tinta se fixando no papel, meus rabiscos mal desenhados num espaço a ser preenchido por ideias que quase não consigo organizar.

Hoje às sete tudo desabou. De novo. Há algumas semanas tudo que havia era chuva e neblina aqui dentro enquanto o sol castigava lá fora. Eu me afogava no meu clima impiedoso, sem tempo pra respirar e sem vontade de fazer qualquer coisa que exigisse algo da pouca energia que eu mantinha. De tempos em tempos me sinto assim, sem perspectiva, meio nublada e tempestuosa, e com o passar desses anos aprendi a conviver com isso. Aprendi que, quando a tempestade chega, tudo que eu tenho que fazer é continuar de pé até ela passar. Eventualmente, acaba. Tudo acaba. Os dias de sol e os de chuva.

Nesses dias de tempestade, posso transmitir a mensagem de que quero ficar sozinha, mas isso é só uma tentativa de enganar a mim mesma. O que eu quero – e preciso – é que alguém fique por perto, em silêncio, vivendo a própria vida, mas por perto. Mostrando que está ali caso um vento forte ameace me derrubar. Só preciso de algo presencial. Real. Preciso de algo que desminta tudo que as vozes na minha cabeça gritam durante esses dias, de algo que me mostre a diferença entre o que existe e o que eu invento. Algo palpável e concreto.

Dói muito aqui dentro. É uma dor forte, intensa; parece que algo está comprimindo meu peito e minha garganta, quebrando minhas costelas devagar. Sinto tudo e nada ao mesmo tempo e o sufoco é quase insuportável. Por vezes, transbordo, o que de certa forma alivia, mas não o suficiente. Nada nunca é suficiente enquanto a chuva insiste em permanecer.

O mais curioso disso tudo é que, nessas épocas, não necessariamente deixo que isso transpareça. Rio, conto piadas, de vez em quando consigo até mesmo cantar alguma música alegre se estou entre pessoas que me fazem bem. Há dias em que a chuva fica em segundo plano por alguns minutos ou horas. Mas ela nunca me permite esquecer que ainda a tenho dentro de mim. Chovendo. Chovendo.

Sei que isto é uma condição de permanência, um demônio com o qual terei que conviver durante toda a minha vida. Em dias de sol, as vozes em minha mente são quietas. Se falam, apenas sussurram, de modo que até esqueço que elas existem. Mas elas sempre voltam para gritar quando a chuva retorna, e eu tenho que aguentá-las. Com um pouco de sorte, talvez eu consiga mantê-las silenciosas pela maior parte da minha existência.

A caneta e o papel são minha droga, o que anestesia meus cortes temporariamente. O papel me escuta, me acolhe, me entende. Como eu disse, não são suficientes, mas aliviam. Assim como o choro. O abraço. O silêncio presencial.

Hoje às sete tudo desabou de novo, Voltou a chover. Estou em pé, me molhando, esperando passar.

NUA E CRUA

Gosto muito de ler sobre atualidades, debater política, provocar discussões futebolísticas e questionar religião. Adoro sentar e ter uma longa conversa sobre temas polêmicos e cheios de vertentes e pontos de vista, de aprender com isso e de usar todo o conhecimento para futuros textos e crônicas.

Fonte: http://labellafigura.net/

O que eu gosto mesmo, no entanto, é de escrever sobre sentimento. Escrever sobre o amor desafiando a mim mesma a não usar clichês, metaforizar a saudade, discorrer sobre arrependimento, angústia, melancolia. Amo escrever sobre tudo que me compõe como ser humano, sobre alma, vida e morte. Sou apaixonada pela poesia e a simetria dos versos, a rima, o ritmo.

Eu me sento no chão gelado da varanda do apartamento e observo o céu roxo do pôr-do-sol do outono. Eu amo o anoitecer e amo o outono, sou completamente apaixonada pelas cores, pelo céu, pela energia do momento. Sempre fui louca pelas madrugadas e o amanhecer, também. O silêncio, o ar fresco, o cheiro de uma cidade adormecida, a paz que paira no ar. Gosto de colocar meus fones de ouvido no volume máximo e escutar uma dessas músicas que me deixam sem fôlego, que se conectam com meu DNA de uma forma que mal consigo traduzir em palavras. O instrumental bem trabalhado de Weight Of Love, do The Black Keys, estoura meus tímpanos enquanto eu deslizo a caneta preta por cima da folha pautada sem nenhum capricho, apenas meus rabiscos que só eu consigo traduzir.

Sempre escrevo sob a luz do amanhecer, as cores do anoitecer ou o escuro da madrugada. Escrevo quando sinto que não estou me contentando dentro de mim, quando sinto que minha pele está se tornando uma jaula e que preciso sair de mim mesma. Viajar em algum universo paralelo, me desligar, ir pra qualquer lugar fora daqui. Grito em silêncio.

Gosto de escrever sobre minhas paixões. Eu adoro me apaixonar, mesmo sem reciprocidade. O sentimento de rendição, de entrega, de amor por cada parte do outro, até mesmo as mais sombrias. É algo tão genuíno, tão lindo, tão puro, principalmente quando é mútuo. Não consigo fugir dos meus clichês adolescentes e permito-me escrever dezenas e dezenas de poesias e textos sobre meus amores passageiros, minhas ilusões, meus sonhos impossíveis.

Tudo isso me transmite certa paz. A sincronia dos acordes que tocam nos meus fones com as palavras que escrevo no papel simultaneamente, confessar meus sentimentos, vomitar toda essa bagagem meio inútil e pessoal. É algo terapêutico. Massageia a alma, me relaxa, faz com que eu me sinta mais eu mesma. Mais exposta, nua, limpa, pronta para pegar outro papel e despejar alguns versos sem compromisso, apenas eu e o papel, nos compreendendo como dois velhos amigos.

Tenho minhas manias, meus momentos, meu ritual. Acima de tudo, tenho paixão pelo que faço. E pelo modo como faço. No fim, isso é tudo que importa.