TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO

Sou pequena.

Sou de uma família de baixinhos, então meu tamanho não é surpresa pra mim nem pra ninguém. Sou pequena. Sou escrita em letras minúsculas: tudo em meu corpo é menor: meus pés, meus dentes, a largura dos meus dedos e do meu pulso, meus olhos que somem quando sorrio.

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Sempre tive espelhos em casa, é claro, então sempre tive também consciência da minha pequenez. Não que isso impeça as pessoas de me lembrarem dela em qualquer oportunidade que tenham. É frustrante em algumas vezes, como quando preciso de um banquinho pra conseguir pegar o biscoito que está na última prateleira ou quando alguém não me leva a sério porque tenho 1,58 de altura e o respeito de opinião é um pouco mais difícil de se conquistar pr’aqueles que têm menos de 1,60.

Por fora, sou pequena mesmo. Mas não se enganem: sou enorme aqui dentro. Tenho um universo inteiro entre meus órgãos, galáxias e sistemas solares de sonhos e ideias que transbordam pelos meus poros. Tenho uma poesia imensa que grita, chora e se descabela para ser escrita no papel. Tenho consciência do quão grande sou por dentro, não porque posso ver isso refletido no espelho, mas porque sinto.

Para compensar o pouco espaço físico que ocupo nesse mundo, faço dos meus versos mal escritos uma extensão do meu ser: nas minhas rimas, concretizo a imensidão do meu sentir.

DAS TANTAS COISAS QUE TENHO PRA TE DIZER

Eu tô te gostando muito.

Tô gostando muito de todos os segredos contados em tom casual e de todas as tardes de segunda que a gente passa olhando o céu azul e ignorando a rotina. Desses domingos de fim de mundo quando um abraço seu coloca tudo de volta no lugar; não o meu lugar, nem o seu, apenas algum outro lugar diferente de onde tudo estava antes. Engraçado esse teu senso de direção tão certo no meio dos meus hábitos tão sem norte, você ri das minhas frases perdidas e das bobagens com as quais me preocupo e de repente eu tô rindo de mim mesma também.

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Em noites como esta, fico pensando em como tudo se fazia antes de você chegar e gosto da sequência de acontecimentos que fez com que nossas vidas se encontrassem naquela praça e em todos os outros lugares que nos deixamos estar. No verão eu era chuva, eu era a falta, eu era o medo. É inverno e eu continuo sendo dúvida, mas veio o outono e com ele veio você e com você veio a calmaria, a perspectiva leve, a vontade de fazer planos a longo prazo, a gentileza. Veio isso tudo e você sabe bem que demorei uns meses pra perceber e a percepção foi bruta e imediata, marcou minhas roupas junto com tuas lágrimas naquela sexta, foi nesse dia que o mundo caiu. Ou se ergueu.

Você me ensinou de novo tanta coisa e eu sinto que poderia te escrever um livro; pena você não gostar de ler. Deixo um pouco de mim em cada bilhete que te entrego, desses mesmo que parecem não significar nada demais, mas eu e você sabemos que transborda significado, igual aquela manhã em que andamos o bairro inteiro e falamos sobre nada de importante mas todos aqueles minutos importaram tanto.

Acho que nunca conseguirei te falar tudo que quero, tudo que eu acho que você deva saber, todas as confissões e os segredos de tudo que você me causou e de como sou grata por essas causas e consequências. E por mais que eu sinta urgência em sentir, ando tentando controlar essa ansiedade e pressa tanta, deixar vir o tempo e me preocupar apenas com o agora, com todos esses momentos exatos. O momento exato em que você me conta sobre algum prato preferido e eu, imediatamente, decido que vou aprender a cozinhar, ou o momento exato em que você cai no sono vendo algum filme e segurando a minha mão, ou o momento exato em que você me olha nos olhos logo depois de me dar um beijo e eu sinto todo esse amor imenso e te observo transformar-se em poesia bem na minha frente.

É durante esses momentos exatos que eu desejo em segredo que o agora ainda dure tanto, que seja como o oceano e se estenda até onde a vista não alcança, e talvez nessas esperanças de tentar te eternizar em natureza é quando eu decido te confessar em prosa que te amo sem te dizer isso explicitamente, como se ainda fosse possível disfarçar.

SENTIMENTAL

Eu sinto muito.
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Sou assim mesmo, meio infinita. Tenho mania de carregar um mundo dentro de mim, talvez por necessidade, talvez por estupidez, mas levo um monte comigo e, inevitavelmente, transbordo: em dança, em choro, em rima. Dependendo, transbordo beijos. Sou meio que uma explosão contida: fico tentando ser menos pra evitar assustar aqueles que convivem comigo e que não vivem de sentimento, assim como eu. Fico sendo metade, vivendo em frações. Gosto da poesia porque é nela que me permito ser por inteiro, gritando por dentro e rimando por fora. Gosto de liberar a arte que me compõe: o papel é quem me conhece por completo, sem censura.

Sentir demais é uma benção e um fardo. A maioria das pessoas tem um medo irracional de gente que não tem vergonha de expor a alma colorida. Acham que, por sermos sentimento, não somos suficientemente racionais. Não entendem que essas duas coisas não estão relacionadas realmente. Também sou razão, mas não reprimo o meu sentir. A minha parte mais bonita. O que me humaniza e me aproxima de quem sou.

Difícil é achar quem aguente tamanha carga sentimental. Sem filtros. Crua. Nua.

Sinto muito por sentir tanto.

NO PRECIPÍCIO DO SENTIR

Você já se apaixonou? Mas se apaixonou mesmo, de verdade, sem dúvida alguma? Foi recíproco? Seu coração já foi partido por alguém? Você já despedaçou corações alheios sem querer? E intencionalmente? Você já se apaixonou por um melhor amigo, por alguém inevitavelmente muito próximo? E por alguém inacessível, algum professor ou aluno, alguém mais velho, alguém proibido…?

Estar apaixonado é um sentimento cruel. É algo que chega sem aviso, um visitante mal educado, silencioso. Nunca lembramos o exato momento em que nos apaixonamos por alguém. Apenas começamos a gostar cada vez menos de despedidas, a sentir o estômago revirar a cada toque, cada olhar, a odiar de uma maneira inexplicável os momentos de ausência e distância.

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Você já esteve tão apaixonado a ponto de o sentimento causar dor física?  A ponto de tornar o ato de respirar algo extremamente complicado uma vez que apenas a lembrança é capaz de fazer o ar escapar de seus pulmões, fazer com que você se sinta rasgado de dentro pra fora, estômago, veias, carne e sangue, deitado a céu aberto com o mundo virado de cabeça para baixo, caótico e sujo, dentro de sua mente?

É curioso como as pessoas são capazes de se interessar e se envolver tão profundamente entre si. Como, aos poucos, apenas um pequeno sorriso, uma mania, um movimento que, dentre tantos outros, acaba transformando-se em um detalhe tão particular, lembrado a cada minuto por algum amante, uma marca registrada. Você já se apaixonou pelas pequenas coisas de alguém? Aquele jeito específico de afastar o cabelo do rosto, ou de fechar os olhos enquanto dá risada, desviar o olhar quando fala baixinho… Você já se apaixonou pelo som da voz de alguém? Ou por um jeito de suspirar?

Relações humanas são interessantes de apreciar e analisar. Como podemos desenvolver algo tão intenso por alguém que há meses era apenas mais um estranho andando pela rua? Como um sentimento que antes era tão puro, inocente, unicamente visto como amizade pode desenrolar-se e transformar-se em algo diferente?  Por que isso acontece? Em qual momento nós, inconscientemente, passamos a ser tão dependentes da presença e do cheiro de outra pessoa?

Como somos capazes de amar alguém que não chega nem perto de sentir a mesma coisa por nós? A que ponto podemos chegar, quais limites podemos forçar, até onde podemos ir em nome do amor? É impossível explicar porque algumas pessoas continuam apaixonadas e outras não. O sentimento esgota-se? Evapora? Desgasta-se? Por que é que algumas pessoas conseguem perdoar erros gigantescos e outras são radicais até mesmo com os pequenos deslizes? Se acabou, não foi amor? Ou era amor até deixar de ser?

Eu tenho tantas dúvidas sobre sentir e pensar, amar e perdoar, o próprio ato de estabelecer relações. É tão complicado; somos dependentes daqueles que amamos de uma forma que chega a ser doentia. Algumas pessoas passam a ser sinônimo de oxigênio: são essenciais para a existência de vida. A ausência dói tanto quanto 80 facadas nos pulmões, as brigas tiram nossa paz, a falta de abraços incomoda mais que a fome. Chegamos a nos rebaixar, a mudar quem somos, a fazer coisas que jamais imaginamos que faríamos movidos apenas por um sentimento que chega e se instala, transformando nossos conceitos e bagunçando teorias que defendíamos de qualquer maneira. E se não existir reciprocidade, fazemos o que? Temos que nos acostumar? Aprender a lidar? Como podemos fazer com que nós mesmos paremos de sentir algo que foge do nosso controle?  Ter a oportunidade de protagonizar qualquer tipo de relacionamento onde o sentimento é recíproco é uma sorte inacreditável num mundo com tantas pessoas, tantos pensamentos, tantos obstáculos.

Sentir é um abismo. Estamos em queda livre, sem ter muito o que fazer a respeito. Caímos sem rumo, sem noção de tempo ou espaço, sem saber se estamos próximos do impacto. Tantas perguntas sem resposta, tantas opiniões que se dizem verdades absolutas, tantas maneiras, categorias, vertentes. Entre tantas complicações e interrogações inexplicáveis, continuamos caindo, caindo, caindo. Não temos muita escolha; apenas aceitamos a condição.