O QUE ME RESTA

Mato e morro nas minhas rimas, um suicídio ocasional. Me jogo ao acaso, respiro poesia, derrapo nas curvas de cada letra e me estaciono em cada ponto final, apreciando a paz conquistada ou angústia obtida no processo. Escrevo em qualquer lugar: nas sacolas de padaria, nas bordas de uma folha amassada, nas paredes do meu quarto, na minha própria carne. Escrevo porque é tudo que tenho, porque é tudo que sou. Romantizo o meu sufoco pra tentar algum alívio, tudo que eu quero é respirar. Escrevo cada linha com a intenção de que seja a última, fugindo de cada ideia que nasce no fundo do meu ser. Escrevo sobre guerra porque é necessário, escrevo sobre mim porque sou o que conheço melhor (apesar de não tão bem assim), escrevo sobre os outros porque é o que me fascina, escrevo sobre amor porque transbordo, porque é tudo que há. Porque é o que me resta.

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Escrevo no imperativo para tentar escutar a mim mesma e a subjetividade é pra alimentar o que está faminto dentro do meu corpo. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer, porque sem isso eu morro afogada, porque não sei gritar se não for através do papel. Desabafo minhas fantasias numa folha em branco passiva, violento-me com cenas e cenários, danço com meu alter-ego e mergulho em um universo sem saída. Nunca encontro o caminho de volta, mesmo tentando incansavelmente. Eu lhe pertenço; quando me perco de mim mesma, minha única chance está ali.

A poesia é que me mantém viva quando me falta o ar: a minha e a dos outros. Principalmente a dos outros. Sou viciada em arte alheia e a minha droga está por todos os cantos. Queria conseguir injetá-la em meu sangue, senti-la correr nas minhas veias, tomando meu corpo, sendo parte de mim. Gosto de me misturar a eles, de ser parte deles, de me autodenominar artista. Com um orgulho rasgado e gritado por aí.

Não tenho rumo, se me vêem nas ruas e pensam que sei o que estou fazendo, estão enganados. Eu não faço ideia. Ando em cada esquina tentando me afirmar, me encontrar, perguntando mais que respondendo. Sei pouco do que quero e muito do que não quero, não sei lidar com a maioria das minhas questões e sou prisioneira dos meus velhos hábitos. Eu sou saudade, sou a dúvida, sou o caos; sou minhas rimas estampadas nos muros da cidade. A arte é o que me resta, a arte é o que me salva.

A SAUDADE É PROPRIEDADE PRIVADA

Há três anos, minha vida era completamente diferente do que é agora. Eu convivia com pessoas diferentes das quais convivo hoje, frequentava lugares diferentes, tinha opiniões que chegam a ser completamente contrárias ao que penso atualmente. Acho interessante reparar no quanto somos capazes de mudar em um intervalo de tempo relativamente curto. Somos tão dependentes dessas mudanças quanto somos dependentes de oxigênio. Renovar-se, revirar-se, descobrir-se.

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A gente vai crescendo e caminhando e as coisas inevitavelmente começam a ficar para trás. Às vezes, deixamos que escapem propositalmente: coisas que nos destruíam por dentro, coisas que nos impediam de evoluir. Livramos-nos de preconceitos, de opiniões destrutivas, de maus hábitos. Algumas nós carregamos conosco, abraçando forte para que nenhum vento leve, tomando todo o cuidado para não deixá-las cair quando tropeçamos. Mas nem tudo é garantia e, sem que a gente queira, deixamos pelo caminho o que nem imaginamos viver sem.

A ausência é um soco no estômago.

Saudade é minha palavra favorita da língua portuguesa. O fato de que é exclusiva do nosso idioma, um sentimento, algo que podemos “estar com”, como se fosse uma velha amiga. Algo que podemos carregar. Abraçar. Envolver. Quase posso tocar as letras quando falo em voz alta.

A gente sente falta de tanta coisa. Sentimos falta de pequenos detalhes, de objetos específicos, de ocasiões, de pessoas, de lugares. Sentimos falta de sentir alguma coisa que nunca sentimos antes (cômico se não fosse meio trágico). Eu sinto falta de ver certos sorrisos. De estar dentro de alguns abraços. De sentir respirações e lágrimas no meu ombro enquanto deslizo os dedos fazendo cafuné naquele cabelo que conheço tanto. De escutar vozes específicas. Nas terças às 16, eu sinto falta de sentir.

A saudade mora na gente sem pagar aluguel, se instala e espeta. Geralmente, fica bem quietinha, calada, no escuro do lar que cria em nosso interior. Resolve acordar de repente, sapateando na sala de jantar, fazendo questão de falar alto “eu ainda estou aqui!”. A minha saudade grita nos domingos à noite, no silêncio do meio da semana, na paz das seis da manhã. Às vezes incomoda, outras, nem tanto. Tem saudade que faz bem, que me faz sorrir sozinha, que me traz um frio bom na barriga. Outras saudades bagunçam e me deixam jogada no canto do quarto sem saber o que fazer com a gaveta revirada na minha mente. As piores, no entanto, são as que me esfaqueiam de dentro pra fora e que me causam tanta dor que chego a ficar sem ar, como se eu tivesse acabado de escorregar e bater minha coluna no degrau de alguma escada pra qualquer lugar. As que não têm remédio, as que fazem com que as memórias invadam minha mente, me deixem inquieta, me matem entre arrepios e lágrimas frias.

A ausência é um soco no estômago.

A agonia de pensar que as melhores coisas da vida são apenas memórias e estão no passado, inalcançáveis, me incomoda da mesma maneira que um pedaço de carne entre meus dentes. É irritante saber que nunca viverei certos dias de novo. Queria pausar a vida em alguns momentos para poder ficar olhando ao redor, degustando o sentimento, pra depois soltar a fita, deixar os meses passarem e num domingo à noite revirar minhas lembranças e dar replay, sentir tudo de novo como se fosse a primeira vez.

Meu alívio é pensar que ainda tenho tanto pra viver, tanto pra descobrir, sentir, falar, pensar, mudar. Eu sou um ciclo e traço minha trajetória sem saber o que vem a seguir. Cada um carrega em si as próprias saudades, as próprias ausências, cada um aprende a lidar do jeito que pode. Cada esquina é um recomeço, mas também nos provoca, nos faz olhar pra trás e reparar bem em tudo que estamos deixando.

Sempre odiei despedidas, mas, apesar de tudo, elas representam o começo de algo novo e fresco. E eu adoro novas oportunidades.