QUASE

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Hoje de manhã, quase peguei minha bicicleta e pedalei inconsequentemente até a sua rua e bati o dedo no interfone do terceiro andar e ouvi a sua voz marejada de sono (talvez ressaca) e pedi desesperadamente pra subir te deixando preocupada com a urgência. E aí eu quase subi as escadas correndo – tropecei duas ou três vezes e meu coração quase explodiu no peito não só pelo medo de arrebentar todos os dentes em um degrau mas também pela perspectiva de te ver toda descabelada logo ao acordar – e entrei no seu apartamento com total disposição para derrubar a porta caso ela não estivesse um pouquinho aberta me convidando a entrar. Quase pensei meia vez antes de te roubar um beijo e ouvir seu respirar cansado, sem te dar tempo de dizer nada, e aí quando quase descolei sua boca da minha eu disparei a falar sobre o quanto você é a poesia dos meus dias num tom de drama mexicano que quase te fez rir. Quase me declarei pra você em francês pra te impressionar, quase te escrevi um livro de um milhão de páginas preenchidas com os vários motivos que te fazem ser especial demais pra esse mundo, quase peguei seu violão pra tocar uma música do Rubel e te dizer pra sentar do meu lado, tirar logo a roupa, sem precisar conversar.

Eu juro que quase te matei esmagada num abraço e ri das suas pupilas dilatadas, te deixando sem graça. Quase confessei que fiz uma playlist das músicas que me fazem pensar em você, que, feito adolescente, escrevo poemas de amor na última folha dos meus cadernos que nunca pretendo te mostrar, que tenho inveja dos cigarros que você acende toda vez que se despede de mim porque eu queria, como eles, queimar na sua boca morna até me desfazer em pó. Eu quase te disse que naquele dia que vimos o sol nascer eu mal consegui prestar atenção no céu que tanto me cativa porque você me distraía e eu quase te contei todos os segredos que guardo no peito, inclusive os sobre você.

Quase.