EM ALGUMA OUTRA GALÁXIA DISTANTE

Se estivéssemos em alguma outra galáxia distante, eu te convidaria, entre um jantar e outro, para ser protagonista dos meus contos de romance que eu traço e rabisco nas noites de terça. Você certamente riria e eu ficaria sem graça, mas, estando em uma galáxia distante, você me diria que poderia pensar no caso.
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Em um tom místico, eu contaria alguma história sobre os meus ex-amores e você desviaria o olhar, lentamente. Diria para irmos para casa mesmo sabendo que lar não é um conceito concreto e eu, em silêncio, ponderaria suas intenções. A ideia de te ver dançando pelo quarto pareceria inalcançável, em contrapartida, lá estaria você, sorrindo em perversão. Nesse mundo, quando falo sobre mulheres, tudo começa em um dia nublado na grama de uma praça e tudo termina em cheiros e memórias impregnados em meus lençóis. Penso que, em qualquer outra galáxia, as coisas talvez comecem em restaurantes.

Eu sentiria seus olhos queimando os meus, um ardor capaz de transformar o subjuntivo em indicativo. Nessa minha galáxia distante, a gramática seria uma certeza ainda menos estática, insuficiente. Eu deixaria com que ardêssemos por algum tempo e numa fração de segundo todas as frases e toques e beijos e efeitos sonoros e frios no estômago e silêncios aconteceriam ao mesmo tempo.

No final, eu nos apagaria num sopro de realidade. Por aqui, as coisas não podem e nem devem começar em restaurantes e nenhum dos diálogos idealizados tem permissão para se concretizar. Nossa reciprocidade é insuficiente quando tenta contra-argumentar o fato de termos cromossomos iguais. Tudo permanece no não dito, no pensado, porque apenas em alguma outra galáxia distante nos é permitido amar.

Tudo acaba escrito nas folhas em branco de qualquer diário.

QUERIDA EU MESMA

Sofia,

Não sei exatamente por que escolhi este momento específico da vida pra te escrever isso. Acho que é porque estou fazendo 17 anos e tudo parece mais assustador, o futuro tá logo virando a esquina e ando tendo crises existenciais mais frequentes. Enfim, achei que deveríamos ter uma conversa. As pessoas fazem isso de escrever para elas mesmas anos antes ou anos depois, então cá estou eu experimentando isso também e escrevendo para você, minha eu aos 30 anos.

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Imagino que vá ser interessante ler isto de novo quando eu for você.

Tô lendo um livro de romance. Não sou muito disso, mas eu gosto de ler ou assistir coisas com temática realista, sabe, que tratam da vida mesmo, do processo de existir nesse mundo e das relações humanas. Esse livro conta a história de dois amigos de infância que cresceram juntos e fizeram muitos planos para o futuro mas, como é de praxe pra qualquer drama romântico, a vida acontece e traz imprevistos que atrapalham tudo. Esses imprevistos são coisas perfeitamente prováveis de acontecer com qualquer um: uma gravidez que não foi planejada, entrevistas de emprego que dão errado, pessoas que resolvem dar sinal de vida depois de anos e mudam o rumo da coisa toda, casos frustrados, casamentos, divórcios, funerais, enfim.

Esse livro me fez ter outro olhar sobre algumas coisas, pensar muito e me deu um pouco de medo, também, por não saber quais coisas horríveis e quais coisas incríveis vão acontecer comigo ao longo da minha trajetória por esse mundo. A gente nunca sabe e tudo pode mudar completamente de um dia pro outro. Acho que estou escrevendo isso porque preciso organizar meus pensamentos de alguma forma, já que não tenho controle sobre nada, então vou te atolar com todos os meus sonhos e quando eu ler isto de novo, daqui 13 anos, o resultado dessa reflexão e das minhas conquistas até lá pode ser algo gratificante ou muito triste. Acho que só saberei quando o dia chegar.

Não quero te lotar desses clichês de perguntas sobre o futuro, mas você não pode me culpar por estar curiosa. É meio difícil saber o que te escrever porque eu tenho medo de pedir demais. Penso que não quero que você tenha perdido sua sua empolgação em relação às coisas ao seu redor e toda essa vontade de conhecer tudo que há. Essa mania virginiana de ver beleza nos pequenos detalhes, achar tudo muito espantoso e ser admirada pelo simples de estar viva nesse mundo.

Espero que tenha superado alguns dos traumas e medos antigos e que tenha aprendido a gostar mais de si mesma e da própria companhia. Se estiver com alguém, espero que seja uma boa pessoa que te faça crescer e te ensine coisas novas e positivas. Aliás, espero que você esteja aprendendo muito e que esteja cada vez mais perto do seu objetivo de saber do máximo de coisas possíveis (algumas partes práticas da física, química e da matemática não entram nessa categoria de “possíveis”, contente-se apenas com as curiosidades interessantes sobre esses assuntos).

Por favor, não pare de escrever. Nem mesmo aquelas poesias ridículas e cheias de rimas ruins que falam sobre qualquer amor. Eu ficaria muito feliz em saber que você publicou alguns livros e anda escrevendo prosa daquelas que fazem as pessoas perderem o ar, de tão atingidas. Também peço que não seja a mesma pessoa que eu. Evolua, mude de opinião, conheça novos assuntos, seja mais interessante, empática e divertida. Tente ser mais espontânea e menos insegura. Mude sua forma de ver o mundo um milhão de vezes.

Você já fez algo realmente substancial? Até agora, não sei se mudei realmente a vida de alguém e definitivamente não fiz o suficiente para deixar meu nome marcado na história do mundo, mas espero que você esteja nesse caminho. Por enquanto, eu tenho um blog, que por si só não é nada substancial. Talvez nem os textos que publico nele sejam, mas, pelo menos, sei que coloco bastante de mim naquelas palavras, talvez até demais.

Ah, se dê o luxo de não ter a menor ideia do que tá acontecendo. Acho que qualquer pessoa que acredite que tem noção e controle sobre as coisas está totalmente iludida. Não seja essa pessoa que acha que sabe muito. Também não seja uma dessas pessoas que cai no conformismo, é meu pior pesadelo. Espero que você não tenha medo de novas oportunidades.

Faça mais exercícios físicos, beba muita água, não perca o hábito de ler, não sofra por antecedência, continue tentando descobrir quem você é e o que você quer deixar para este mundo depois que morrer (eu ainda nem passei perto de descobrir).

Aliás, espero que você esteja viva.

Será que eu morro antes dos 30?

Você sabe bem que eu poderia falar mais um milhão de coisas, mas prefiro ficar por aqui, senão a leitura fica pesada demais. Espero que você tenha aprendido a ser mais concisa.

Com carinho,
Você mesma aos 17.

P.S.: Estou MORRENDO para saber se você já teve filho(s) ou se já decidiu se quer ou não tê-los, mas eu acho que isso é pedir demais, então vou ficar com o suspense.

MAIS UM DE ROMANCE

Estamos sentados lado a lado e a distância entre nós me incomoda tanto quanto um erro gramatical grave. Para mim, é isso que este espaço representa: um erro, preenchido por ar e algo mais, que paira misterioso e vivo, mas não sabemos dizer o que é.

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Todos na sala são e estão indiferentes, sem poder perceber a guerra que ocorre dentro do meu corpo, que tenta incansavelmente decifrar os sinais do seu. Quando seu joelho resvala em minha perna, sem querer, paro de escutar tudo ao meu redor e toda a minha atenção se concentra no calor momentâneo de sua perna contra a minha. Durante os segundos que passamos assim, flashes do que nunca aconteceu surgem na minha mente: suas mãos, seus lábios, seus cabelos desarrumados.

A atração que sinto por você chega a ser paranóica, obsessiva; te dou todos os motivos para fugir de mim. Luto contra os meus próprios pensamentos tentando te expulsar dali; declaro guerra a mim mesma, mas o lado inimigo permanece resistindo cada vez mais. Antes, nos comunicávamos por olhares, mas agora conversamos através de toques que não ocorrem e da pressão existente entre nossos corpos. Chega a ser insuportável todo esse clima de coisas não-ditas, não-feitas, não-sentidas.

Tento perceber se você esconde alguma coisa entre as palavras que trocamos, mas não tenho um manual e você é tão complexo quanto um cálculo matemático. Entre todos esses nossos conflitos individuais, criamos mil e um idiomas próprios, compostos por gestos, sorrisos e esbarrões acidentais. Quem sabe, caso nosso pequeno dicionário um dia seja publicado, eu consiga te traduzir.

CRÔNICA DE FIM DE ROMANCE CLICHÊ

Você deve estar em algum bar do outro lado da cidade, trocando olhares com alguém que não dá a mínima. Na verdade, tanto faz, porque você também não dá a mínima. Você mudou tanto, eu também: agora cada um de nós tomou posições em lados opostos do subúrbio.

São três da manhã. Em ponto. Eu odeio horas exatas porque elas me fazem lembrar de você e de como tudo em você era exato: os horários, as manias, os olhares, as opiniões. Era como se você tivesse tudo guardado dentro de si, todo movimento estritamente calculado, pensado, articulado. Coisa mais irritante. Por dois (exatos) anos eu suportei todas as suas pontualidades, reclamando de cada uma delas (no início elas me faziam rir, mas como todas as coisas, acabaram perdendo a graça) e agora eu sinto falta. Ironia do destino, eu acho. Lição aprendida.

É a quarta noite seguida que tento afogar a saudade em vinho barato. Que droga, hein? De todos os finais que imaginei pra nós dois, esse não era nem de longe um deles. O álcool não tem muita graça quando tiro proveito dele sozinha. A ressaca é mais divertida quando as outras pessoas nos lembram o que aconteceu na noite anterior, mas agora não tenho ninguém pra me lembrar os fatos. E mesmo se tivesse, ainda assim faltariam os próprios fatos. Nada acontece, queria que acontecesse; tudo sempre gira em torno de você, pra variar.

Amanhã vou acordar na cama errada de novo. Os lençóis bagunçados apenas por mim mesma. A cada dia que passa, me culpo mais por não ter tomado a atitude de sair desse maldito apartamento eu mesma, em vez de te colocar pra fora. Cada canto desse lugar tem seu cheiro, sua marca, mas não você propriamente, porque o especialista em largar tudo pela metade não falhou no seu último ato.

A cada vez que você entra de novo para buscar mais uma de suas camisas (que antes eram meus pijamas) é como se deixasse um pedaço seu. Esse lugar é nossa alma fundida, seu cheiro e meu gosto. Juntinhos. Ainda não aceitaram a separação. Parece que você faz de propósito: leva suas coisas devagar, uma de cada vez, só para me torturar a cada vez que você pisa aqui dentro mais uma vez. Pisa não só dentro do apartamento, mas dentro de mim também, sufocando meus órgãos e me deixando sem ar. Tomei a atitude de colocar um de seus moletons escondido embaixo de meu colchão. Não para eu ficar sofrendo, não sou desse tipo. Não encosto nele desde que o coloquei ali. É verão, está quente, a brisa que entra pelas janelas me conforta e me abraça. Guardei-o ali para que, no inverno, eu possa ter uma pequena lembrança do modo com que você me aquecia.