O QUE ME RESTA

Mato e morro nas minhas rimas, um suicídio ocasional. Me jogo ao acaso, respiro poesia, derrapo nas curvas de cada letra e me estaciono em cada ponto final, apreciando a paz conquistada ou angústia obtida no processo. Escrevo em qualquer lugar: nas sacolas de padaria, nas bordas de uma folha amassada, nas paredes do meu quarto, na minha própria carne. Escrevo porque é tudo que tenho, porque é tudo que sou. Romantizo o meu sufoco pra tentar algum alívio, tudo que eu quero é respirar. Escrevo cada linha com a intenção de que seja a última, fugindo de cada ideia que nasce no fundo do meu ser. Escrevo sobre guerra porque é necessário, escrevo sobre mim porque sou o que conheço melhor (apesar de não tão bem assim), escrevo sobre os outros porque é o que me fascina, escrevo sobre amor porque transbordo, porque é tudo que há. Porque é o que me resta.

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Escrevo no imperativo para tentar escutar a mim mesma e a subjetividade é pra alimentar o que está faminto dentro do meu corpo. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer, porque sem isso eu morro afogada, porque não sei gritar se não for através do papel. Desabafo minhas fantasias numa folha em branco passiva, violento-me com cenas e cenários, danço com meu alter-ego e mergulho em um universo sem saída. Nunca encontro o caminho de volta, mesmo tentando incansavelmente. Eu lhe pertenço; quando me perco de mim mesma, minha única chance está ali.

A poesia é que me mantém viva quando me falta o ar: a minha e a dos outros. Principalmente a dos outros. Sou viciada em arte alheia e a minha droga está por todos os cantos. Queria conseguir injetá-la em meu sangue, senti-la correr nas minhas veias, tomando meu corpo, sendo parte de mim. Gosto de me misturar a eles, de ser parte deles, de me autodenominar artista. Com um orgulho rasgado e gritado por aí.

Não tenho rumo, se me vêem nas ruas e pensam que sei o que estou fazendo, estão enganados. Eu não faço ideia. Ando em cada esquina tentando me afirmar, me encontrar, perguntando mais que respondendo. Sei pouco do que quero e muito do que não quero, não sei lidar com a maioria das minhas questões e sou prisioneira dos meus velhos hábitos. Eu sou saudade, sou a dúvida, sou o caos; sou minhas rimas estampadas nos muros da cidade. A arte é o que me resta, a arte é o que me salva.