BLOQUEIO CRIATIVO

Eu olho para o espelho e tudo que vejo é o vazio. A falta não só do meu rosto e do meu corpo, que deveriam estar ali me encarando de volta, mas de tudo ao redor. Só vejo o cinza, monocromático, sólido, a mistura entre a ausência total e a presença completa, um meio termo agoniante.

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Embora eu não consiga compreender, talvez tenha a ver com o fato de que eu sinto como se, em algum momento dos últimos meses, eu tenha entrado em uma rua sem saída sem conseguir dar meia volta e ir embora. Estou encarando a mesma parede há semanas, em inércia, paralisada pela quantidade de verdade que simplesmente não consigo carregar.

(Não há nada mais doloroso que o autoconhecimento).

A sobriedade parece difícil, quase tão difícil quando encarar o papel vazio e perceber que não há nada para ser colocado ali. Que me falta vida, que me falta gente. O cotidiano me faz falta; as voltas de ônibus pela cidade, o barulho alto do centro, a falta de paz. A falta de paz é o que motiva a arte e o meu problema é que ao meu redor tudo é pacífico demais enquanto um caos incontrolado se instala aqui dentro porque eu percebo que perdi a capacidade de me traduzir. Estou presa em mim mesma, vivendo de novo todas as sensações, os sentimentos, pensando nas mesmas frases e nas mesmas lembranças.

Se a poesia se recusa a vir conscientemente, o que me resta é a esperança de que num futuro próximo o irracional traga alguma cor pra superfície. O cinza já não basta, já não renova, não surpreende. O cinza não tira o fôlego da maneira com que encontrar aquele bilhete o faz, mas eu cansei também de velhas caligrafias. O sangue que corre nas minhas veias é cinza feito cimento e eu só quero me avermelhar.

CONVERSA DE VÓ

-Ah, engole esse medo. Senta um pouco no escuro, menino. Vai pensar na vida, entendeu? Pensar mesmo. No que você quer viver. Nas pessoas que conheceu e no que elas te ensinaram. Teve uma vez no ônibus que a menina do meu lado tava me dizendo como é que se lê poesia. Eu te contei que sempre gostei de ouvir poesia? Acho que é dom, ou você nasce sabendo ou não sabe. Eu nunca soube, não. Mas ela até que tentou me ensinar. Leu uma pra mim, falava sobre flores mortas. Era uma coisa bonita e você me conhece, pra falar que é bonito eu tenho que achar bonito mesmo. Mas é isso, menino. Presta atenção, entendeu? Nas coisas ao redor. Nos caminhos, nas árvores, nas pessoas que te esbarram na rua. Elas carregam muita história. Tenta compartilhar a bagagem, isso enriquece a gente e até faz bem pra memória. Minha memória já tá ficando um pouco ruim, não consigo me lembrar muito bem da aparência das coisas. Isso é triste, não lembrar de como era o lugar de onde a gente veio ou o rosto das pessoas que já fizeram parte da nossa vida. Ah, tira foto. Muita foto, menino, depois revela e guarda numa gaveta. Eu queria saber pintar só pra pintar todas as coisas que eu já vi. Foi muita coisa boa e muita coisa ruim. Dá pra ter muito dos dois lados, acho que um dia você vai saber do que eu tô falando. Mas não agora, tá cedo demais. Mas tá tarde também. Não sei, não, o tempo é tão cruel quanto o mundo, menino.

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-Se eu queria que fosse diferente? Eu não queria nada. Eu acho assim, ó: eu fui do jeito que fui. Você é que tem que ser melhor porque é pra isso que a gente faz filho, faz neto, né? Não concorda com tudo que eu falo e nem escuta muito conselho. Eu falo é muita bobagem. Mas é que é tão pouco tempo e tanta coisa, tanta coisa! Queria eu poder te ensinar todas. Mas a gente é teimoso, só descobre sozinho, não adianta… Você vai descobrir que a tristeza é importante, menino. A solidão também. A gente aprende a se entender, se suportar. Passei a vida fugindo não sei do quê e hoje eu tô aqui sentada dentro de mim mesma. A perna não funciona. Aqui de dentro eu ainda penso em voar, mas imagina…

-Eu amei tanto. Se a gente pudesse voar eu acho que seria a mesma sensação de amar. Já amou, menino? Já sei que vai demorar pra você parar com essa mania besta de fingir que não sente. É a coisa mais linda. Mas já aviso: ama com desapego. As pessoas vão embora, morrem, a gente fica sozinho, aquilo que eu tava falando antes. Eu só aprendi agora, vê se aprende mais cedo que eu, viu? Vai sofrer menos. E larga esse cigarro que não é bonito, que você nem precisa. Vai ser artista sem isso. Um artista daqueles que tiram o fôlego da gente. Lê uma poesia pra mim, vai. Daquelas bonitas.

LANÇA O BARCO CONTRA O MAR

Ouvir Rubel é sempre doloroso demais porque desperta algum sentimento rudimentar aqui dentro. Que arde. E queima. E grita. E a sinapse se completa e tudo volta e tudo vai.

(Sempre foi assim, desde a primeira nota).

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Quero ser capaz de escrever poesia assim, sabe, algum dia. Dessas que fazem doer, que fazem os dentes caírem, que molham travesseiros, que sejam tão poderosas e intensas que as pessoas considerem apelar pra uma fé que elas nem sabiam que tinham mais, assim como eu faço quando a melodia invade o escuro e o silêncio do meu quarto e traz essa paz que dói, mas que não deixa de ser paz.

Eu gosto dessas coisas. Dessas que desvendam a alma da gente antes mesmo de conseguirmos nos desvendar. Que nos deixam perguntando o quê, quando, como, onde… Buscando por motivos, por consequências sem causa, qualquer resposta entre os versos.

Não há, no entanto. Nunca há.

Só há o vazio e a voz, que traz o tudo.

HOMICÍDIO

Se vejo defeito no ato
enfeito o feito e o fato
pra me impedir de morrer, me mato
e vivo quieta
secreta
pequena
me deito,
perfeito
o quero
e espero
surtir o efeito
o crime mal feito
e o quadro vermelho
na sala de estar
indica um suspeito
implícito e seco
mas deixa a desejar
o corpo
só e morto
se recusa a esfriar
recuo aqui dentro
parágrafo lento
paro,
grafo,
tento
curto sufoco
faísca e fogo
volto a respirar

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O QUE ME RESTA

Mato e morro nas minhas rimas, um suicídio ocasional. Me jogo ao acaso, respiro poesia, derrapo nas curvas de cada letra e me estaciono em cada ponto final, apreciando a paz conquistada ou angústia obtida no processo. Escrevo em qualquer lugar: nas sacolas de padaria, nas bordas de uma folha amassada, nas paredes do meu quarto, na minha própria carne. Escrevo porque é tudo que tenho, porque é tudo que sou. Romantizo o meu sufoco pra tentar algum alívio, tudo que eu quero é respirar. Escrevo cada linha com a intenção de que seja a última, fugindo de cada ideia que nasce no fundo do meu ser. Escrevo sobre guerra porque é necessário, escrevo sobre mim porque sou o que conheço melhor (apesar de não tão bem assim), escrevo sobre os outros porque é o que me fascina, escrevo sobre amor porque transbordo, porque é tudo que há. Porque é o que me resta.

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Escrevo no imperativo para tentar escutar a mim mesma e a subjetividade é pra alimentar o que está faminto dentro do meu corpo. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer, porque sem isso eu morro afogada, porque não sei gritar se não for através do papel. Desabafo minhas fantasias numa folha em branco passiva, violento-me com cenas e cenários, danço com meu alter-ego e mergulho em um universo sem saída. Nunca encontro o caminho de volta, mesmo tentando incansavelmente. Eu lhe pertenço; quando me perco de mim mesma, minha única chance está ali.

A poesia é que me mantém viva quando me falta o ar: a minha e a dos outros. Principalmente a dos outros. Sou viciada em arte alheia e a minha droga está por todos os cantos. Queria conseguir injetá-la em meu sangue, senti-la correr nas minhas veias, tomando meu corpo, sendo parte de mim. Gosto de me misturar a eles, de ser parte deles, de me autodenominar artista. Com um orgulho rasgado e gritado por aí.

Não tenho rumo, se me vêem nas ruas e pensam que sei o que estou fazendo, estão enganados. Eu não faço ideia. Ando em cada esquina tentando me afirmar, me encontrar, perguntando mais que respondendo. Sei pouco do que quero e muito do que não quero, não sei lidar com a maioria das minhas questões e sou prisioneira dos meus velhos hábitos. Eu sou saudade, sou a dúvida, sou o caos; sou minhas rimas estampadas nos muros da cidade. A arte é o que me resta, a arte é o que me salva.

CONFISSÃO

Sempre li textos e ouvi pessoas que falavam que o amor não é uma escolha e que a gente não decide por quem a gente se atrai ou por quem vamos nos apaixonar. Cada um nasce de um jeito e é daquele jeito que somos e ponto final, sem discussão: a gente aprende a viver com aquilo, aceitamos nossa própria identidade e caso necessário lutamos por nossos direitos e pelo que somos.

Há alguns anos, comecei a perceber. Eu era diferente, de alguma forma, só não sabia como. Não sabia nem mesmo o que tinha de errado, impossível saber então como solucionar o suposto problema. Deixei pra lá, ignorei por um tempo, mas mais tarde descobri que é impossível fugir do que a gente é.

O que eu sentia retornou como um velho amigo que resolveu deixar claro que ainda existia e que queria manter contato. Dessa vez não teve jeito, eu era vítima de mim mesma e não tive como inventar desculpas para adiar ainda mais. Minha consciência bateu na porta avisando que o que eu achava que era visita e novidade era apenas uma coisa velha, muito minha, que estava aqui dentro desde o momento que me materializei como ser vivo. Sem escolha, percebi que eu finalmente havia vindo à tona como realmente sou.

Aceitei calada, o que mais eu poderia fazer? Se nasci assim, não posso mudar. E não vou. Não pretendo. Me assumi, me rendi e me acostumei com a ideia; fiquei satisfeita e feliz depois de algum tempo digerindo a informação. E foi a partir desse ponto que comecei a me apaixonar.

O sentimento não veio de uma vez só, sem avisar: foi chegando aos poucos, cuidadosamente, quase carinhoso. Era como se aquilo dialogasse comigo e avisasse toda noite que estava chegando perto, que logo ia me preencher por inteiro e aí a guerra estava perdida. Nem hesitei, a sensação era tão boa que deixei entrar, me invadir, me possuir. Me entreguei completamente, sem medo de ser quem sou, assumindo toda a responsabilidade pelo que viria a seguir.

Não quero ser esnobe, mas era uma paixão sensacional. Tão forte que nem demorou muito pra se estabelecer e passar a chamar amor. Amor mesmo, de verdade, com A maiúsculo e tudo: intenso. Confiante. Profundo e insano. Inexplicável, sem tradução. Uma coisa de outro mundo. Minha família demorou um pouco para aceitar por completo, mas hoje em dia incentiva de todas as maneiras. Aceitam que ela já faz parte de mim. Que somos uma pessoa só. Que não há como lutar contra isso, não há mais volta.

Não posso ser clichê e falar que sou a mulher mais feliz do mundo e que temos um relacionamento perfeito. É algo conturbado e barulhento, mas incrivelmente grandioso. Eu a amo por inteiro. Sem exceções. Ela, a mulher da minha vida, a dona da minha alma e do meu coração: a poesia.