O BARCO

-Eu acho que sou um barco.

Já eram duas da madrugada e minha cabeça estava enevoada quando ela soltou a sentença. Me pareceu quase um veredito, uma conclusão bruta e fatal. Não respondi, até porque eu não tinha nada a acrescentar, ela tinha dito em voz alta e agora nada poderia desfazer o que havia sido verbalizado.

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Pensei em coisas mundanas. Pensei em como eu me sentia em longas viagens de carro com o vento batendo no meu rosto, frio. Pensei no jeito que ela organizava o raciocínio quando contava alguma história e em como eu organizaria de uma forma completamente diferente. Pensei no formigamento que ficava nos pés depois que a onda voltava ao mar, sem fugir do próprio ciclo. E pensei em como tudo aquilo é passageiro e irrelevante, dado o tempo que passamos nesse mundo e as tantas coisas sobre as quais não temos o menor controle.

Algumas coisas são mais efêmeras que outras, é fato. E é fato também que é um clichê cansativo falar sobre a mortalidade de tudo e toda aquela história de carpe diem. O que, na minha opinião, é uma ilusão bem grande, porque eu não conheci uma só pessoa que conseguiu atingir o cobiçado nível de desapego material e emocional sobre todas as coisas ao redor. Somos humanos, afinal. Não entendemos muito bem o conceito de liberdade, que ninguém nunca conseguiu realmente conceituar, e talvez sejamos tão apegados a tudo justamente por causa da nossa curiosidade incansável e dessa mania de dar nome ao que existe. Não é esse o motivo de tanto incômodo? O desconhecido que, na realidade, já conhecemos e sentimos mas não sabemos exatamente como denominar? A gente não saberia ser livre nem se pudéssemos.

“A permanência é evitável”. Li numa exposição. Demorei umas semanas pra entender porque no exato momento em que vi a frase, não me preocupei em interpretá-la. Ficou no fundo do meu cérebro, inútil e sem importância, até que passou a fazer sentido, e aí não tem como mais voltar. A permanência é evitável enquanto a partida é certeza e estamos todos fadados a isso. Há quem seja porto, há quem seja barco; presenciamos a despedida de qualquer maneira. Não é necessariamente ruim, mas também não é apenas questão de costume porque não tem como se acostumar com esse tipo de coisa. É uma dessas coisas na vida que sempre vão nos pegar de surpresa, mesmo que passemos meses tentando nos preparar, dessas que causam um vazio e uma falta de ar, quase o mesmo efeito que um chute no estômago.

Olhei pra ela pela primeira vez em horas. Os olhos fechados e o ar pacífico, a calmaria no meio da tempestade, uma feição que eu jamais conseguiria reproduzir ou descrever em qualquer arte. Então ela era um barco. Eu sorri ao contemplar a verdade e pensei de novo em todas as órbitas dos planetas e o rumo que as coisas tomavam sem pedir a opinião de ninguém. Senti lá no fundo alguma coisa paradoxal que ainda não consegui decifrar, alguma coisa sobre o incômodo de perceber que eu não tenho mesmo o controle de nada. Tentei sentir paz e venho tentando porque é isso que todos buscam. Talvez a busca seja o erro, mas ainda não descobri.

É isso que faz tudo funcionar, no fim das contas. A vontade de chegar a algum lugar.