VERMELHO

Esse vermelho teu é o que me mata. É o que sobe nas minhas veias e me faz sofrer como se minha carne estivesse sendo rasgada de dentro pra fora. Esse teu vermelho é o tom do meu prazer e o que colore a data marcada do meu sacrifício.

Fundo-Vermelho
Leio seu nome e meu estômago revira, falo em voz alta e minha garganta queima; você é um anjo caído que ri ao lembrar-se da queda do paraíso. As vontades que você desperta em mim são impensáveis, viscerais e primitivas. Vê se pode, chega assim de repente e já se apropria, sendo motivo das minhas insônias e dos meus textos do meio da madrugada. Pouco meus e tão seus, te pertencem, são resultado do que você trouxe consigo quando se instalou por aqui sem pedir permissão, seus lábios vermelhos assim como seu sangue, assim como seu beijo, seu toque e sua alma.

Esse teu sabor é o que me enlouquece só de estar presente na lembrança. Seu jeito tão terreno e territorial, essa poesia suja e urbana que sai da sua boca toda vez que você resolve compartilhar com o resto do mundo teus pensamentos caóticos. Você é arte, ausência de luz, de cor, mas arte por si só, só por ser.

Quando você me olha assim, rindo enquanto Esteban grita meu nome, meio distante, a música baixa comparada ao seu tom absurdamente dominante em todo o ambiente, eu perco o controle, perco todos os motivos que eu tinha para me afastar e que agora não me parecem coerentes. Nada me parece coerente quando você me olha e de fato me enxerga, o mundo se contorce ao redor, a vida fica desfocada.

Já tentei de tudo e você sempre se mostra inevitável, quase programada para se acidentar em mim de novo. Tão passado e novamente, presente. Me confundo em seus tempos verbais.

Ah, o teu vermelho é o que me dói. É o que me dói por me lembrar que a efemeridade é parte do que você é, do que somos. Somos? Não; nem poderemos ser.

Quando deito na cama de solteiro que ainda guarda teu cheiro vermelho da última vez que você foi presente e encaro as paredes ao meu redor que possuem a mesma cor, a primeira coisa de que lembro são teus olhos. Não vermelhos; castanhos, quase negros de tão escuros. Eles me matam também, mas só porque transmitem a vermelhidão do teu calor e do teu jeito de me olhar, intensa.

DIAS NUBLADOS

Já é o quarto dia seguido que o tempo está nublado. Eu amo dias nublados: fico nostálgica, leve, feliz, me sinto melhor. Sempre foi o meu tipo de dia preferido e duvido que algum dia deixe de ser.

Ontem, pra variar, eu estava escutando algumas músicas que eu costumava escutar há uns três anos. Coloquei uma playlist antiga pra tocar sem medo, deitei olhando para o teto e deixei que a música me invadisse junto com a nostalgia e com todos os sentimentos que aquelas notas musicais específicas traziam. Pensei em como tanta coisa mudou desde o tempo que deixar de escutar aquelas músicas por um dia era quase um pecado. Nas coisas pequenas e nas grandiosas: comecei a gostar de comida japonesa e de açaí, conheci outro país, viajei com amigos, conheci novas bandas, novas pessoas, novos lugares, aprendi conceitos que eu nunca tinha ouvido falar antes, entendi um pouco mais de política, comecei a ler sobre assuntos que antes não me interessavam, me aproximei de pessoas que me fazem bem, me afastei de outras sem querer, observei meus amigos entrarem e saírem de relacionamentos, me apaixonei umas oito vezes (nenhuma delas deu muito certo, mas isso também depende do que é considerado “dar certo”), passei a ter outro ponto de vista sobre certos assuntos, comecei a escrever dois textos por semana, superei alguns medos e criei outros.

Ri sozinha lembrando de algumas coisas, mas essas mesmas lembranças apertaram meu coração e terminei chorando e querendo reviver tudo aquilo. Lembrei dele e de tudo que sentíamos, de como era bonito, de como era tão suave, puro, de como ele me fez crescer. Lembrei de todas as festas, as noites em claro, de todas as novidades, de todos os choros, de todos os casos, as vergonhas, os orgulhos. Não sinto falta, exatamente, das pessoas, mas sim das memórias. Lembrei de como eu me preocupava por tão pouco e pensei se daqui uns anos eu também olharei para trás e lembrarei de como tudo era mais fácil.

A tendência é essa, ficar mais difícil? Até agora, não consegui definir nenhum padrão para a vida. Altos e baixos inconstantes que não seguem regra alguma, mas acho que é assim mesmo, sem lei. A vida não é definida por uma equação matemática. Tenho que aprender a gostar dessa inconsistência que é viver, essa ideia de não ter certeza de nada.

Nos últimos meses me peguei sentindo algumas coisas que eu nunca imaginei que sentiria. Me peguei aprendendo algumas coisas que, se eu tivesse aprendido antes, evitaria muito problema. Às vezes, eu olho pro céu e penso em tudo isso que guardo dentro de mim. Tudo que nunca foi falado, nunca foi escrito… E deveria ser? Estou saindo da minha zona de conforto lentamente e tudo parece tão novo. Esquisito. Em todos os sentidos, em todas as esferas. Queria ter menos medo. De publicar, de me lançar, de falar (gritar, berrar!), de sentir.

Hoje em dia é tudo um mistério, uma névoa, a dúvida que chega a cada manhã, a euforia de cada madrugada, o estômago revirando, toda a carga, o silêncio, o sigilo, a impossibilidade. Quero gritar, mas só grito por dentro; tenho sede por mais, mas o que tenho é o que me alimenta todos os dias. Aceito.

Disso tudo, concluí algumas coisas. Dentre elas: eu adoro estar apaixonada. Apesar de tudo ou por causa de tudo. É a coisa mais bonita do mundo: amar sem esperar nada em troca, só sentir, sentir, sentir, transbordar dentro de si. Sobre Deus eu tenho minhas dúvidas, mas no amor eu acredito. Acima de qualquer coisa.

A SAUDADE É PROPRIEDADE PRIVADA

Há três anos, minha vida era completamente diferente do que é agora. Eu convivia com pessoas diferentes das quais convivo hoje, frequentava lugares diferentes, tinha opiniões que chegam a ser completamente contrárias ao que penso atualmente. Acho interessante reparar no quanto somos capazes de mudar em um intervalo de tempo relativamente curto. Somos tão dependentes dessas mudanças quanto somos dependentes de oxigênio. Renovar-se, revirar-se, descobrir-se.

saudade

A gente vai crescendo e caminhando e as coisas inevitavelmente começam a ficar para trás. Às vezes, deixamos que escapem propositalmente: coisas que nos destruíam por dentro, coisas que nos impediam de evoluir. Livramos-nos de preconceitos, de opiniões destrutivas, de maus hábitos. Algumas nós carregamos conosco, abraçando forte para que nenhum vento leve, tomando todo o cuidado para não deixá-las cair quando tropeçamos. Mas nem tudo é garantia e, sem que a gente queira, deixamos pelo caminho o que nem imaginamos viver sem.

A ausência é um soco no estômago.

Saudade é minha palavra favorita da língua portuguesa. O fato de que é exclusiva do nosso idioma, um sentimento, algo que podemos “estar com”, como se fosse uma velha amiga. Algo que podemos carregar. Abraçar. Envolver. Quase posso tocar as letras quando falo em voz alta.

A gente sente falta de tanta coisa. Sentimos falta de pequenos detalhes, de objetos específicos, de ocasiões, de pessoas, de lugares. Sentimos falta de sentir alguma coisa que nunca sentimos antes (cômico se não fosse meio trágico). Eu sinto falta de ver certos sorrisos. De estar dentro de alguns abraços. De sentir respirações e lágrimas no meu ombro enquanto deslizo os dedos fazendo cafuné naquele cabelo que conheço tanto. De escutar vozes específicas. Nas terças às 16, eu sinto falta de sentir.

A saudade mora na gente sem pagar aluguel, se instala e espeta. Geralmente, fica bem quietinha, calada, no escuro do lar que cria em nosso interior. Resolve acordar de repente, sapateando na sala de jantar, fazendo questão de falar alto “eu ainda estou aqui!”. A minha saudade grita nos domingos à noite, no silêncio do meio da semana, na paz das seis da manhã. Às vezes incomoda, outras, nem tanto. Tem saudade que faz bem, que me faz sorrir sozinha, que me traz um frio bom na barriga. Outras saudades bagunçam e me deixam jogada no canto do quarto sem saber o que fazer com a gaveta revirada na minha mente. As piores, no entanto, são as que me esfaqueiam de dentro pra fora e que me causam tanta dor que chego a ficar sem ar, como se eu tivesse acabado de escorregar e bater minha coluna no degrau de alguma escada pra qualquer lugar. As que não têm remédio, as que fazem com que as memórias invadam minha mente, me deixem inquieta, me matem entre arrepios e lágrimas frias.

A ausência é um soco no estômago.

A agonia de pensar que as melhores coisas da vida são apenas memórias e estão no passado, inalcançáveis, me incomoda da mesma maneira que um pedaço de carne entre meus dentes. É irritante saber que nunca viverei certos dias de novo. Queria pausar a vida em alguns momentos para poder ficar olhando ao redor, degustando o sentimento, pra depois soltar a fita, deixar os meses passarem e num domingo à noite revirar minhas lembranças e dar replay, sentir tudo de novo como se fosse a primeira vez.

Meu alívio é pensar que ainda tenho tanto pra viver, tanto pra descobrir, sentir, falar, pensar, mudar. Eu sou um ciclo e traço minha trajetória sem saber o que vem a seguir. Cada um carrega em si as próprias saudades, as próprias ausências, cada um aprende a lidar do jeito que pode. Cada esquina é um recomeço, mas também nos provoca, nos faz olhar pra trás e reparar bem em tudo que estamos deixando.

Sempre odiei despedidas, mas, apesar de tudo, elas representam o começo de algo novo e fresco. E eu adoro novas oportunidades.