SENHORA INSÔNIA

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São quatro da madrugada e estou no meio de uma daquelas crises chatas onde esqueço quem sou e que deitar no chão frio e permanecer ali pro resto da vida parece ser uma ótima ideia. Estou no meio daquelas crises que a folha em branco parece rir da minha cara dizendo que não sou capaz de escrever um parágrafo sequer de um texto decente. Estou bem no auge de uma daquelas crises onde o sono resolve dar uma volta e não voltar nunca mais, deixando uma perturbadora insônia no lugar e uma série de pensamentos incrivelmente rebeldes que se recusam a me deixar colocá-los no papel, o que eu particularmente acho uma atitude muito egoísta da parte deles. Bom, eu de fato sou uma pessoa egoísta, mas meus pensamentos certamente deveriam saber que isso não é exatamente uma boa coisa e poderiam demonstrar um pouco mais de solidariedade. Afinal, não são eles que passarão o resto da semana com sono por conta dessa maldita insônia que insiste em permanecer.

Essas tais crises estão saindo do controle. Estou pensando em montar uma escala de horários para a próxima vez que elas resolverem aparecer. Teoricamente, sou eu quem deveria controlar minha vida, e não essas malditas dúvidas e incertezas que tanto me atormentam. Quem elas pensam que são para aparecem quando quiserem? A partir de agora, crises apenas nas terças e quintas às quatro da tarde. Quem sabe elas se cansem da rotina e resolvam ir embora de vez. Odeio rotina. Talvez minhas crises odeiem também.

TEMPESTADE

Nosso amor se espreme numa cama pequena enquanto o céu empurra o sol para baixo, entre as montanhas, e a lua ocupa seu espaço por direito. Perco-me na imensidão da noite depois da despedida em tons de vermelho e você me encontra num mar de cores e cheiros, dores e cortes, toques e olhares.

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A saudade que sinto e minha curiosidade seca se escondem sob seus braços quentes e justos. A sua respiração choca-se contra minha testa e se dispersa no espaço junto com os pensamentos que não sou capaz de controlar: não me arrependo de nada que não fiz e convivo bem com os demônios que eu mesma criei dentro de mim. A paz que você me proporciona entra em conflito com o caos que carrego dentro da minha mente e eu não suporto a guerra que surge no tempo-espaço.

Meu amor, a gente está sozinho no meio dessa grandeza sem fim. Não pedi para estar aqui e não há saída de emergência, sou obrigada a assistir o espetáculo até o final. Você me responde com um sorriso de melancolia e não procura me consolar. O silêncio é piedoso, mas a tempestade dentro de mim é alta e a insônia é inevitável apesar do ar quente e aconchegante que nos rodeia.

Tenho vontade de me desculpar por sentir demais, mas sentir demais não é exatamente o que me torna quem sou? E quem eu seria se eu me desculpasse por tudo que me faz ser eu? Sei que eu não devo satisfações pra ninguém, mas sou incapaz de lidar com as cobranças que eu mesma faço num ciclo tortura sem fim. As lágrimas forçam meus olhos e transbordo em minha própria existência dentro do seu abraço, querendo descansar de tudo que carrego no meu peito.

Sou o caos, sou a confusão personificada, falo demais e falo menos do que deveria, nunca sei o momento certo. O céu de outono me deixa mais sentimental do que já sou, digo, justificando o que não consigo verbalizar. Seu olhar me deixa confortável para me jogar na liberdade do choro e do soluço, sem amarras. Permito-me sofrer um pouco, sem a dor não sou ninguém, é ela que me move e alimenta minhas páginas em branco nos dias de inspiração. Meu inferno particular se acumula sem que eu perceba e eu me afogo na minha própria bagunça.

Seu contato com minha pele é o que me mantém na superfície, apesar de tudo, sua voz e sua risada são o complemento para o que falta de mim. Somos três no quarto e por um momento sinto paz: eu, você e toda a energia de tudo aquilo que não consigo falar em voz alta.