LANÇA O BARCO CONTRA O MAR

Ouvir Rubel é sempre doloroso demais porque desperta algum sentimento rudimentar aqui dentro. Que arde. E queima. E grita. E a sinapse se completa e tudo volta e tudo vai.

(Sempre foi assim, desde a primeira nota).

rubel500

Quero ser capaz de escrever poesia assim, sabe, algum dia. Dessas que fazem doer, que fazem os dentes caírem, que molham travesseiros, que sejam tão poderosas e intensas que as pessoas considerem apelar pra uma fé que elas nem sabiam que tinham mais, assim como eu faço quando a melodia invade o escuro e o silêncio do meu quarto e traz essa paz que dói, mas que não deixa de ser paz.

Eu gosto dessas coisas. Dessas que desvendam a alma da gente antes mesmo de conseguirmos nos desvendar. Que nos deixam perguntando o quê, quando, como, onde… Buscando por motivos, por consequências sem causa, qualquer resposta entre os versos.

Não há, no entanto. Nunca há.

Só há o vazio e a voz, que traz o tudo.

DIAS NUBLADOS

Já é o quarto dia seguido que o tempo está nublado. Eu amo dias nublados: fico nostálgica, leve, feliz, me sinto melhor. Sempre foi o meu tipo de dia preferido e duvido que algum dia deixe de ser.

Ontem, pra variar, eu estava escutando algumas músicas que eu costumava escutar há uns três anos. Coloquei uma playlist antiga pra tocar sem medo, deitei olhando para o teto e deixei que a música me invadisse junto com a nostalgia e com todos os sentimentos que aquelas notas musicais específicas traziam. Pensei em como tanta coisa mudou desde o tempo que deixar de escutar aquelas músicas por um dia era quase um pecado. Nas coisas pequenas e nas grandiosas: comecei a gostar de comida japonesa e de açaí, conheci outro país, viajei com amigos, conheci novas bandas, novas pessoas, novos lugares, aprendi conceitos que eu nunca tinha ouvido falar antes, entendi um pouco mais de política, comecei a ler sobre assuntos que antes não me interessavam, me aproximei de pessoas que me fazem bem, me afastei de outras sem querer, observei meus amigos entrarem e saírem de relacionamentos, me apaixonei umas oito vezes (nenhuma delas deu muito certo, mas isso também depende do que é considerado “dar certo”), passei a ter outro ponto de vista sobre certos assuntos, comecei a escrever dois textos por semana, superei alguns medos e criei outros.

Ri sozinha lembrando de algumas coisas, mas essas mesmas lembranças apertaram meu coração e terminei chorando e querendo reviver tudo aquilo. Lembrei dele e de tudo que sentíamos, de como era bonito, de como era tão suave, puro, de como ele me fez crescer. Lembrei de todas as festas, as noites em claro, de todas as novidades, de todos os choros, de todos os casos, as vergonhas, os orgulhos. Não sinto falta, exatamente, das pessoas, mas sim das memórias. Lembrei de como eu me preocupava por tão pouco e pensei se daqui uns anos eu também olharei para trás e lembrarei de como tudo era mais fácil.

A tendência é essa, ficar mais difícil? Até agora, não consegui definir nenhum padrão para a vida. Altos e baixos inconstantes que não seguem regra alguma, mas acho que é assim mesmo, sem lei. A vida não é definida por uma equação matemática. Tenho que aprender a gostar dessa inconsistência que é viver, essa ideia de não ter certeza de nada.

Nos últimos meses me peguei sentindo algumas coisas que eu nunca imaginei que sentiria. Me peguei aprendendo algumas coisas que, se eu tivesse aprendido antes, evitaria muito problema. Às vezes, eu olho pro céu e penso em tudo isso que guardo dentro de mim. Tudo que nunca foi falado, nunca foi escrito… E deveria ser? Estou saindo da minha zona de conforto lentamente e tudo parece tão novo. Esquisito. Em todos os sentidos, em todas as esferas. Queria ter menos medo. De publicar, de me lançar, de falar (gritar, berrar!), de sentir.

Hoje em dia é tudo um mistério, uma névoa, a dúvida que chega a cada manhã, a euforia de cada madrugada, o estômago revirando, toda a carga, o silêncio, o sigilo, a impossibilidade. Quero gritar, mas só grito por dentro; tenho sede por mais, mas o que tenho é o que me alimenta todos os dias. Aceito.

Disso tudo, concluí algumas coisas. Dentre elas: eu adoro estar apaixonada. Apesar de tudo ou por causa de tudo. É a coisa mais bonita do mundo: amar sem esperar nada em troca, só sentir, sentir, sentir, transbordar dentro de si. Sobre Deus eu tenho minhas dúvidas, mas no amor eu acredito. Acima de qualquer coisa.

NUA E CRUA

Gosto muito de ler sobre atualidades, debater política, provocar discussões futebolísticas e questionar religião. Adoro sentar e ter uma longa conversa sobre temas polêmicos e cheios de vertentes e pontos de vista, de aprender com isso e de usar todo o conhecimento para futuros textos e crônicas.

Fonte: http://labellafigura.net/

O que eu gosto mesmo, no entanto, é de escrever sobre sentimento. Escrever sobre o amor desafiando a mim mesma a não usar clichês, metaforizar a saudade, discorrer sobre arrependimento, angústia, melancolia. Amo escrever sobre tudo que me compõe como ser humano, sobre alma, vida e morte. Sou apaixonada pela poesia e a simetria dos versos, a rima, o ritmo.

Eu me sento no chão gelado da varanda do apartamento e observo o céu roxo do pôr-do-sol do outono. Eu amo o anoitecer e amo o outono, sou completamente apaixonada pelas cores, pelo céu, pela energia do momento. Sempre fui louca pelas madrugadas e o amanhecer, também. O silêncio, o ar fresco, o cheiro de uma cidade adormecida, a paz que paira no ar. Gosto de colocar meus fones de ouvido no volume máximo e escutar uma dessas músicas que me deixam sem fôlego, que se conectam com meu DNA de uma forma que mal consigo traduzir em palavras. O instrumental bem trabalhado de Weight Of Love, do The Black Keys, estoura meus tímpanos enquanto eu deslizo a caneta preta por cima da folha pautada sem nenhum capricho, apenas meus rabiscos que só eu consigo traduzir.

Sempre escrevo sob a luz do amanhecer, as cores do anoitecer ou o escuro da madrugada. Escrevo quando sinto que não estou me contentando dentro de mim, quando sinto que minha pele está se tornando uma jaula e que preciso sair de mim mesma. Viajar em algum universo paralelo, me desligar, ir pra qualquer lugar fora daqui. Grito em silêncio.

Gosto de escrever sobre minhas paixões. Eu adoro me apaixonar, mesmo sem reciprocidade. O sentimento de rendição, de entrega, de amor por cada parte do outro, até mesmo as mais sombrias. É algo tão genuíno, tão lindo, tão puro, principalmente quando é mútuo. Não consigo fugir dos meus clichês adolescentes e permito-me escrever dezenas e dezenas de poesias e textos sobre meus amores passageiros, minhas ilusões, meus sonhos impossíveis.

Tudo isso me transmite certa paz. A sincronia dos acordes que tocam nos meus fones com as palavras que escrevo no papel simultaneamente, confessar meus sentimentos, vomitar toda essa bagagem meio inútil e pessoal. É algo terapêutico. Massageia a alma, me relaxa, faz com que eu me sinta mais eu mesma. Mais exposta, nua, limpa, pronta para pegar outro papel e despejar alguns versos sem compromisso, apenas eu e o papel, nos compreendendo como dois velhos amigos.

Tenho minhas manias, meus momentos, meu ritual. Acima de tudo, tenho paixão pelo que faço. E pelo modo como faço. No fim, isso é tudo que importa.