ATÉ DESAPARECER

Que mulher bonita. Aquela ali que desfila sem querer na beira do mar, nua e toda dela mesma, numa paz que só a lua minguante ilustra. Desaparecendo sob o olhar de quem fica querendo mais.

desaparecer

Cícero ecoa nos meus ouvidos confirmando esse pensamento: tudo desbota até desaparecer, inclusive meus desejos salpicados de areia. Ela sabe dançar bem e eu observo de longe, devagar. O olhar que acompanha a cintura marcada de sol. Aquela cintura que parece saber que o mundo gira junto a si, despreocupada, como se a ideia de descontrole não a perturbasse. Pois me descontrola pensar que a gente só tem essa vida, mas nenhuma certeza dentro dela. Não estamos certos nem da morte.

Eu não tenho medo de morrer. Só tenho medo do tempo, que não tem dó de me engolir. Finjo que não o sinto se aproximando devagarinho, como quem canta um samba que me pede pra deixar estar. Por enquanto está tudo certo; a moça ali na frente ainda dança, mal me importo com qualquer destino que já esteja escrito para a minha pobre alma. Pareço viver numa sexta feira eterna, a manhã de sábado que nunca chega e um domingo que parece distante demais, tão longe que mal ameaça a preocupação.

Ela para, eu paro junto e o resto do mundo também. Fico ali, com medo de ter sido descoberta, quando ela se vira e me olha dentro dos olhos. Ah, que poder tem, isso de buscar verdade no fundo das pupilas de alguém. Seguro o olhar em desafio, ela me pede por um toque sem dizer nada, minhas pernas me levam em sua direção.

Seu beijo é um gole de vida que me engana. Morno, mas cru. Como quem diz: sente o gosto dessa tua esperança medíocre, me diz se é real. Não é. Um tom de pouca fé que me faz sentir o peso da realidade, ela é uma manhã de segunda que chegou sem avisar.

Abro os olhos e me pergunto pela centésima vez: por que é tão difícil digerir emocionalmente a veracidade de que as coisas são efêmeras? No mesmo momento uma onda alcança minhas canelas e logo depois volta para o oceano ao qual pertence. É, o mundo consegue se explicar bem sozinho.