NO PRECIPÍCIO DO SENTIR

Você já se apaixonou? Mas se apaixonou mesmo, de verdade, sem dúvida alguma? Foi recíproco? Seu coração já foi partido por alguém? Você já despedaçou corações alheios sem querer? E intencionalmente? Você já se apaixonou por um melhor amigo, por alguém inevitavelmente muito próximo? E por alguém inacessível, algum professor ou aluno, alguém mais velho, alguém proibido…?

Estar apaixonado é um sentimento cruel. É algo que chega sem aviso, um visitante mal educado, silencioso. Nunca lembramos o exato momento em que nos apaixonamos por alguém. Apenas começamos a gostar cada vez menos de despedidas, a sentir o estômago revirar a cada toque, cada olhar, a odiar de uma maneira inexplicável os momentos de ausência e distância.

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Você já esteve tão apaixonado a ponto de o sentimento causar dor física?  A ponto de tornar o ato de respirar algo extremamente complicado uma vez que apenas a lembrança é capaz de fazer o ar escapar de seus pulmões, fazer com que você se sinta rasgado de dentro pra fora, estômago, veias, carne e sangue, deitado a céu aberto com o mundo virado de cabeça para baixo, caótico e sujo, dentro de sua mente?

É curioso como as pessoas são capazes de se interessar e se envolver tão profundamente entre si. Como, aos poucos, apenas um pequeno sorriso, uma mania, um movimento que, dentre tantos outros, acaba transformando-se em um detalhe tão particular, lembrado a cada minuto por algum amante, uma marca registrada. Você já se apaixonou pelas pequenas coisas de alguém? Aquele jeito específico de afastar o cabelo do rosto, ou de fechar os olhos enquanto dá risada, desviar o olhar quando fala baixinho… Você já se apaixonou pelo som da voz de alguém? Ou por um jeito de suspirar?

Relações humanas são interessantes de apreciar e analisar. Como podemos desenvolver algo tão intenso por alguém que há meses era apenas mais um estranho andando pela rua? Como um sentimento que antes era tão puro, inocente, unicamente visto como amizade pode desenrolar-se e transformar-se em algo diferente?  Por que isso acontece? Em qual momento nós, inconscientemente, passamos a ser tão dependentes da presença e do cheiro de outra pessoa?

Como somos capazes de amar alguém que não chega nem perto de sentir a mesma coisa por nós? A que ponto podemos chegar, quais limites podemos forçar, até onde podemos ir em nome do amor? É impossível explicar porque algumas pessoas continuam apaixonadas e outras não. O sentimento esgota-se? Evapora? Desgasta-se? Por que é que algumas pessoas conseguem perdoar erros gigantescos e outras são radicais até mesmo com os pequenos deslizes? Se acabou, não foi amor? Ou era amor até deixar de ser?

Eu tenho tantas dúvidas sobre sentir e pensar, amar e perdoar, o próprio ato de estabelecer relações. É tão complicado; somos dependentes daqueles que amamos de uma forma que chega a ser doentia. Algumas pessoas passam a ser sinônimo de oxigênio: são essenciais para a existência de vida. A ausência dói tanto quanto 80 facadas nos pulmões, as brigas tiram nossa paz, a falta de abraços incomoda mais que a fome. Chegamos a nos rebaixar, a mudar quem somos, a fazer coisas que jamais imaginamos que faríamos movidos apenas por um sentimento que chega e se instala, transformando nossos conceitos e bagunçando teorias que defendíamos de qualquer maneira. E se não existir reciprocidade, fazemos o que? Temos que nos acostumar? Aprender a lidar? Como podemos fazer com que nós mesmos paremos de sentir algo que foge do nosso controle?  Ter a oportunidade de protagonizar qualquer tipo de relacionamento onde o sentimento é recíproco é uma sorte inacreditável num mundo com tantas pessoas, tantos pensamentos, tantos obstáculos.

Sentir é um abismo. Estamos em queda livre, sem ter muito o que fazer a respeito. Caímos sem rumo, sem noção de tempo ou espaço, sem saber se estamos próximos do impacto. Tantas perguntas sem resposta, tantas opiniões que se dizem verdades absolutas, tantas maneiras, categorias, vertentes. Entre tantas complicações e interrogações inexplicáveis, continuamos caindo, caindo, caindo. Não temos muita escolha; apenas aceitamos a condição.

QUERIDO DIÁRIO,

Às vezes eu sinto que preciso apenas de uma caneta e uma folha em branco. Apenas sentir a textura de ambos, a tinta se fixando no papel, meus rabiscos mal desenhados num espaço a ser preenchido por ideias que quase não consigo organizar.

Hoje às sete tudo desabou. De novo. Há algumas semanas tudo que havia era chuva e neblina aqui dentro enquanto o sol castigava lá fora. Eu me afogava no meu clima impiedoso, sem tempo pra respirar e sem vontade de fazer qualquer coisa que exigisse algo da pouca energia que eu mantinha. De tempos em tempos me sinto assim, sem perspectiva, meio nublada e tempestuosa, e com o passar desses anos aprendi a conviver com isso. Aprendi que, quando a tempestade chega, tudo que eu tenho que fazer é continuar de pé até ela passar. Eventualmente, acaba. Tudo acaba. Os dias de sol e os de chuva.

Nesses dias de tempestade, posso transmitir a mensagem de que quero ficar sozinha, mas isso é só uma tentativa de enganar a mim mesma. O que eu quero – e preciso – é que alguém fique por perto, em silêncio, vivendo a própria vida, mas por perto. Mostrando que está ali caso um vento forte ameace me derrubar. Só preciso de algo presencial. Real. Preciso de algo que desminta tudo que as vozes na minha cabeça gritam durante esses dias, de algo que me mostre a diferença entre o que existe e o que eu invento. Algo palpável e concreto.

Dói muito aqui dentro. É uma dor forte, intensa; parece que algo está comprimindo meu peito e minha garganta, quebrando minhas costelas devagar. Sinto tudo e nada ao mesmo tempo e o sufoco é quase insuportável. Por vezes, transbordo, o que de certa forma alivia, mas não o suficiente. Nada nunca é suficiente enquanto a chuva insiste em permanecer.

O mais curioso disso tudo é que, nessas épocas, não necessariamente deixo que isso transpareça. Rio, conto piadas, de vez em quando consigo até mesmo cantar alguma música alegre se estou entre pessoas que me fazem bem. Há dias em que a chuva fica em segundo plano por alguns minutos ou horas. Mas ela nunca me permite esquecer que ainda a tenho dentro de mim. Chovendo. Chovendo.

Sei que isto é uma condição de permanência, um demônio com o qual terei que conviver durante toda a minha vida. Em dias de sol, as vozes em minha mente são quietas. Se falam, apenas sussurram, de modo que até esqueço que elas existem. Mas elas sempre voltam para gritar quando a chuva retorna, e eu tenho que aguentá-las. Com um pouco de sorte, talvez eu consiga mantê-las silenciosas pela maior parte da minha existência.

A caneta e o papel são minha droga, o que anestesia meus cortes temporariamente. O papel me escuta, me acolhe, me entende. Como eu disse, não são suficientes, mas aliviam. Assim como o choro. O abraço. O silêncio presencial.

Hoje às sete tudo desabou de novo, Voltou a chover. Estou em pé, me molhando, esperando passar.

CONTRADIÇÃO

Ele é uma explosão contida dentro de seus jeans rasgados e suas camisetas com frases irônicas. Ele é uma folha de papel limpa, linda, rabiscada com certezas e ideias ilimitadas e criativas. Ele tem seu próprio universo dentro de si, cada galáxia bem montada entre seus órgãos, suas estrelas e buracos negros correndo em suas veias em uma guerra eterna entre o bem e o mal presentes em cada átomo de seu ser.

Ele é voz, ele é grito, ele mantém uma revolução preparada em sua mente e espera pela hora certa de libertá-la por aí. Ele está dez anos adiante de sua geração; pensa grande e atua por meio de pequenas ações. Ele não tem regras (nem limites), apesar de sempre parecer estar jogando uma complicada partida de xadrez contra ele mesmo.

Ele é o James Dean dessa geração, vivendo rápido e de modo intenso. Ele não tem medo de morrer, mas fica assustado com o que pode vir depois: tem medo da incerteza, do improvável, do desconhecido, porque tudo nele contraria a imprecisão.

Seu corpo e mente são pura álgebra, matematicamente intercalados, cúmplices de uma trama bem elaborada. Seus cálculos são equações complicadas e tudo em si exala um certo tipo de simetria surrealista. Ele parece ter sido cuidadosamente projetado por algum arquiteto de alto nível, cada um de seus ângulos parecem se comunicar numa harmonia suave.

Sua alma, no entanto, é a contradição de todo o resto. É a poesia esparramada entre todos seus números, a literatura em confronto com sua matemática, a arte se infiltrando dentro de sua natureza exata. Sua alma é um texto bem escrito com uma pontuação elegante, um poema articulado com versos realistas, a melodia presente entre o ré e o mi.

Eu sou um inverno complicado e jovial, sou tempestades de relâmpagos e raios luminosos, sou o indecifrável céu roxo de outono, uma aurora boreal irreal e bela. Ele, pelo contrário, é verão; confortável e quente. Ele é uma garoa fina, leve, daquelas que trazem uma nostalgia boa.

Entre as idas e vindas de nossas estações tentamos nos intercalar de forma constante, mas nada parece se encaixar do modo desejado. Eu sou lua e ele é o sol, a contradição desenhada em linhas tortas: somos opostos que não se atraem.