QUERIDA EU MESMA

Sofia,

Não sei exatamente por que escolhi este momento específico da vida pra te escrever isso. Acho que é porque estou fazendo 17 anos e tudo parece mais assustador, o futuro tá logo virando a esquina e ando tendo crises existenciais mais frequentes. Enfim, achei que deveríamos ter uma conversa. As pessoas fazem isso de escrever para elas mesmas anos antes ou anos depois, então cá estou eu experimentando isso também e escrevendo para você, minha eu aos 30 anos.

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Imagino que vá ser interessante ler isto de novo quando eu for você.

Tô lendo um livro de romance. Não sou muito disso, mas eu gosto de ler ou assistir coisas com temática realista, sabe, que tratam da vida mesmo, do processo de existir nesse mundo e das relações humanas. Esse livro conta a história de dois amigos de infância que cresceram juntos e fizeram muitos planos para o futuro mas, como é de praxe pra qualquer drama romântico, a vida acontece e traz imprevistos que atrapalham tudo. Esses imprevistos são coisas perfeitamente prováveis de acontecer com qualquer um: uma gravidez que não foi planejada, entrevistas de emprego que dão errado, pessoas que resolvem dar sinal de vida depois de anos e mudam o rumo da coisa toda, casos frustrados, casamentos, divórcios, funerais, enfim.

Esse livro me fez ter outro olhar sobre algumas coisas, pensar muito e me deu um pouco de medo, também, por não saber quais coisas horríveis e quais coisas incríveis vão acontecer comigo ao longo da minha trajetória por esse mundo. A gente nunca sabe e tudo pode mudar completamente de um dia pro outro. Acho que estou escrevendo isso porque preciso organizar meus pensamentos de alguma forma, já que não tenho controle sobre nada, então vou te atolar com todos os meus sonhos e quando eu ler isto de novo, daqui 13 anos, o resultado dessa reflexão e das minhas conquistas até lá pode ser algo gratificante ou muito triste. Acho que só saberei quando o dia chegar.

Não quero te lotar desses clichês de perguntas sobre o futuro, mas você não pode me culpar por estar curiosa. É meio difícil saber o que te escrever porque eu tenho medo de pedir demais. Penso que não quero que você tenha perdido sua sua empolgação em relação às coisas ao seu redor e toda essa vontade de conhecer tudo que há. Essa mania virginiana de ver beleza nos pequenos detalhes, achar tudo muito espantoso e ser admirada pelo simples de estar viva nesse mundo.

Espero que tenha superado alguns dos traumas e medos antigos e que tenha aprendido a gostar mais de si mesma e da própria companhia. Se estiver com alguém, espero que seja uma boa pessoa que te faça crescer e te ensine coisas novas e positivas. Aliás, espero que você esteja aprendendo muito e que esteja cada vez mais perto do seu objetivo de saber do máximo de coisas possíveis (algumas partes práticas da física, química e da matemática não entram nessa categoria de “possíveis”, contente-se apenas com as curiosidades interessantes sobre esses assuntos).

Por favor, não pare de escrever. Nem mesmo aquelas poesias ridículas e cheias de rimas ruins que falam sobre qualquer amor. Eu ficaria muito feliz em saber que você publicou alguns livros e anda escrevendo prosa daquelas que fazem as pessoas perderem o ar, de tão atingidas. Também peço que não seja a mesma pessoa que eu. Evolua, mude de opinião, conheça novos assuntos, seja mais interessante, empática e divertida. Tente ser mais espontânea e menos insegura. Mude sua forma de ver o mundo um milhão de vezes.

Você já fez algo realmente substancial? Até agora, não sei se mudei realmente a vida de alguém e definitivamente não fiz o suficiente para deixar meu nome marcado na história do mundo, mas espero que você esteja nesse caminho. Por enquanto, eu tenho um blog, que por si só não é nada substancial. Talvez nem os textos que publico nele sejam, mas, pelo menos, sei que coloco bastante de mim naquelas palavras, talvez até demais.

Ah, se dê o luxo de não ter a menor ideia do que tá acontecendo. Acho que qualquer pessoa que acredite que tem noção e controle sobre as coisas está totalmente iludida. Não seja essa pessoa que acha que sabe muito. Também não seja uma dessas pessoas que cai no conformismo, é meu pior pesadelo. Espero que você não tenha medo de novas oportunidades.

Faça mais exercícios físicos, beba muita água, não perca o hábito de ler, não sofra por antecedência, continue tentando descobrir quem você é e o que você quer deixar para este mundo depois que morrer (eu ainda nem passei perto de descobrir).

Aliás, espero que você esteja viva.

Será que eu morro antes dos 30?

Você sabe bem que eu poderia falar mais um milhão de coisas, mas prefiro ficar por aqui, senão a leitura fica pesada demais. Espero que você tenha aprendido a ser mais concisa.

Com carinho,
Você mesma aos 17.

P.S.: Estou MORRENDO para saber se você já teve filho(s) ou se já decidiu se quer ou não tê-los, mas eu acho que isso é pedir demais, então vou ficar com o suspense.