EM ALGUMA OUTRA GALÁXIA DISTANTE

Se estivéssemos em alguma outra galáxia distante, eu te convidaria, entre um jantar e outro, para ser protagonista dos meus contos de romance que eu traço e rabisco nas noites de terça. Você certamente riria e eu ficaria sem graça, mas, estando em uma galáxia distante, você me diria que poderia pensar no caso.
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Em um tom místico, eu contaria alguma história sobre os meus ex-amores e você desviaria o olhar, lentamente. Diria para irmos para casa mesmo sabendo que lar não é um conceito concreto e eu, em silêncio, ponderaria suas intenções. A ideia de te ver dançando pelo quarto pareceria inalcançável, em contrapartida, lá estaria você, sorrindo em perversão. Nesse mundo, quando falo sobre mulheres, tudo começa em um dia nublado na grama de uma praça e tudo termina em cheiros e memórias impregnados em meus lençóis. Penso que, em qualquer outra galáxia, as coisas talvez comecem em restaurantes.

Eu sentiria seus olhos queimando os meus, um ardor capaz de transformar o subjuntivo em indicativo. Nessa minha galáxia distante, a gramática seria uma certeza ainda menos estática, insuficiente. Eu deixaria com que ardêssemos por algum tempo e numa fração de segundo todas as frases e toques e beijos e efeitos sonoros e frios no estômago e silêncios aconteceriam ao mesmo tempo.

No final, eu nos apagaria num sopro de realidade. Por aqui, as coisas não podem e nem devem começar em restaurantes e nenhum dos diálogos idealizados tem permissão para se concretizar. Nossa reciprocidade é insuficiente quando tenta contra-argumentar o fato de termos cromossomos iguais. Tudo permanece no não dito, no pensado, porque apenas em alguma outra galáxia distante nos é permitido amar.

Tudo acaba escrito nas folhas em branco de qualquer diário.

MAIS UM DE ROMANCE

Estamos sentados lado a lado e a distância entre nós me incomoda tanto quanto um erro gramatical grave. Para mim, é isso que este espaço representa: um erro, preenchido por ar e algo mais, que paira misterioso e vivo, mas não sabemos dizer o que é.

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Todos na sala são e estão indiferentes, sem poder perceber a guerra que ocorre dentro do meu corpo, que tenta incansavelmente decifrar os sinais do seu. Quando seu joelho resvala em minha perna, sem querer, paro de escutar tudo ao meu redor e toda a minha atenção se concentra no calor momentâneo de sua perna contra a minha. Durante os segundos que passamos assim, flashes do que nunca aconteceu surgem na minha mente: suas mãos, seus lábios, seus cabelos desarrumados.

A atração que sinto por você chega a ser paranóica, obsessiva; te dou todos os motivos para fugir de mim. Luto contra os meus próprios pensamentos tentando te expulsar dali; declaro guerra a mim mesma, mas o lado inimigo permanece resistindo cada vez mais. Antes, nos comunicávamos por olhares, mas agora conversamos através de toques que não ocorrem e da pressão existente entre nossos corpos. Chega a ser insuportável todo esse clima de coisas não-ditas, não-feitas, não-sentidas.

Tento perceber se você esconde alguma coisa entre as palavras que trocamos, mas não tenho um manual e você é tão complexo quanto um cálculo matemático. Entre todos esses nossos conflitos individuais, criamos mil e um idiomas próprios, compostos por gestos, sorrisos e esbarrões acidentais. Quem sabe, caso nosso pequeno dicionário um dia seja publicado, eu consiga te traduzir.