#LEIAMULHERES: UM ENCONTRO SOBRE LUTA

Há uma força poderosa e invisível, suprema, que paira sobre o ambiente quando mulheres conscientes do poder que possuem se reúnem em um só local. Mulheres que tem consciência do que são e do que podem chegar a ser. Dizem que mulheres que leem são um perigo; eu lhes pergunto: e as mulheres que leem e escrevem, então? E as mulheres que leem, escrevem e se organizam para publicar mais trabalhos de outras autoras?

Senti uma energia revigorante sentada naquela sala fresca e cercada de pessoas que lutam cotidianamente, buscando coragem para continuar expondo seus pensamentos e palavras, buscando entender melhor o lugar que ocupam em uma sociedade que não nos quer em lugar algum. Uma energia daquelas que só se sente quando há a percepção de que você não está sozinha. De que está entre semelhantes e de que pertence a uma luta, a uma causa, a uma busca.

O Leia Mulheres é um clube de leitura de Belo Horizonte que discute e incentiva a leitura de livros escritos por mulheres. O projeto busca dar mais visibilidade às escritoras dentro do mercado editorial e para que elas tenham mais voz dentro de um espaço que, como todo os outros, é tão machista e elitista. Me vi dentro de um dos debates proporcionados pelo grupo por acaso, por ter aceitado um convite em cima da hora e por pura coincidência de estar a três quarteirões de distância do local marcado para o encontro. Agora, algumas horas e várias reflexões depois, estou plenamente grata pelo acaso.

Foi, e sempre é, uma experiência engrandecedora ouvir tantas mulheres com diferentes experiências falarem sobre política, feminismo e literatura de uma forma tão única e carregada de bagagem. É tão revigorante participar de uma discussão que envolve tanto, desde o desabafo do que é conseguir falar sobre si e sobre as próprias vivências como mulher até o entendimento de como funciona a indústria da literatura dentro do patriarcado. O mercado editorial é demasiadamente protagonizado por homens, algo refletido não só nos livros que temos em nossa estante ou que somos obrigados a ler nas escolas, mas também na própria forma com que os livros são colocados e posicionados nas livrarias. Reparem, da próxima vez que visitarem uma, no destaque que recebem os livros escritos por homens, e compare com o lugar que as autoras ocupam em contraste. Reparem na quantidade de livros a venda e qual a proporção entre os escritos por homens e os escritos por mulheres. Identifiquem e problematizem as correntes invisíveis que existem ao redor de tudo.

Mas não só os números e os grandes espaços significam aspectos de militância. É bonito ver uma jovem de vinte e poucos anos escutar conselhos de uma mulher de sessenta sobre a escrita erótica e a liberdade que as autoras devem permitir-se ter de escrever de forma explícita e realista, sem regras impostas. É um alívio poder falar sobre como nos sentimos tão presas na hora de nos colocarmos no papel, seja pela família ou pelos moldes sociais, e sobre como é importante, justamente por isso, ter a coragem de levantar a voz e escrever sobre o que bem entendermos e como bem entendermos, para servir de exemplos para outras novas autoras que se deixam calar pelo medo. Precisamos gritar para mostrar que não estamos sozinhas, nunca estivemos e nunca estaremos.

Escrever é um ato de urgência, publicar, sendo uma mulher por trás de todas as palavras, é um ato político. É ocupar um espaço que também é nosso. E que lembremos da pluralidade que somos: continuando a enaltecer e divulgar nossos trabalhos, reconhecendo todas as diferenças e necessidades existentes dentro do próprio movimento em busca de visibilidade e protagonismo.

Publiquem-se, mulheres, e mostrem a voz que têm.

Mais sobre o Leia Mulheres: http://leiamulheres.com.br/

POR MAIS ARMÁRIOS VAZIOS

Hoje, não trago um texto muito literário. Venho com algumas considerações:

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Sempre escrevi para mim mesma. Nenhuma das minhas palavras é para agradar ninguém além do meu próprio ser, que precisa transbordar em prosa e verso para que eu não me afogue em minha existência. A não ser, é claro, quando me abstenho dessa necessidade egoísta e resolvo dedicar qualquer rabisco a alguém que eu sinta vontade (nem assim, no entanto, deixo de ser sincera. Não sei mentir pro papel e nem quero aprender).

Sempre gostei de escrever utilizando pronomes femininos. Sou louca pelo “ela”, “dela”, enfim. Gosto dos meus textos escritos dessa forma. Para elas. Por elas. Sobre elas. É um gosto antigo, não sei explicar: é assim desde que abracei meu amor pela escrita.

Por último, sempre gostei de escrever sobre sentimentos, no geral. Adoro inventar qualquer romance, seja de forma totalmente fictícia e inventada ou baseada em qualquer experiência pessoal.

Ter o comprometimento de publicar toda semana exige certa produtividade constante. Mantenho-me escrevendo em todo tempo livre, sobre tudo que me interessa, tudo que me faz sentir. Expor meus textos sempre foi um ato de coragem: como eu disse, eu não minto pro papel. Expor meus textos é sinônimo de expor minhas verdades – ou pelo menos deveria ser.

Há meses, antes de publicar, modifico alguns textos para retirar os pronomes femininos que foram colocados (ou para trocá-los por pronomes masculinos) e faço de tudo para manter qualquer texto romântico dentro de um padrão de relação heterossexual. Faço isso por medo do que terei que escutar por ser uma mulher escrevendo sobre outra, faço isso por medo do que terei que escutar por retratar cotidianamente indivíduos do mesmo sexo que se amam.

Ando sendo incoerente comigo mesma. Se nunca escrevi dentro das exigências de ninguém, se o papel em branco sempre foi meu confessionário, por que devo, então, me autocensurar quanto a algo que tanto defendo?

Hoje, eu trouxe um aviso. Não mudarei pronomes, não me impedirei de escrever sobre o amor em geral porque ele existe, sim, em outras formas além do modelo tradicional. A censura, o silenciamento e o medo são formas de diminuir não apenas as coisas em que acredito, mas também quem sou. Representatividade literária é importante e, mesmo que em pequenas doses, posso contribuir com isso – e o farei.

Dia 17 de maio foi o dia internacional da luta contra a LGBTfobia e me fez pensar um pouco sobre tudo isso. Voltemos à sinceridade habitual: eles com elas, eles com eles, elas com elas. Com quem houver sentimento e reciprocidade.