POR MAIS ARMÁRIOS VAZIOS

Hoje, não trago um texto muito literário. Venho com algumas considerações:

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Sempre escrevi para mim mesma. Nenhuma das minhas palavras é para agradar ninguém além do meu próprio ser, que precisa transbordar em prosa e verso para que eu não me afogue em minha existência. A não ser, é claro, quando me abstenho dessa necessidade egoísta e resolvo dedicar qualquer rabisco a alguém que eu sinta vontade (nem assim, no entanto, deixo de ser sincera. Não sei mentir pro papel e nem quero aprender).

Sempre gostei de escrever utilizando pronomes femininos. Sou louca pelo “ela”, “dela”, enfim. Gosto dos meus textos escritos dessa forma. Para elas. Por elas. Sobre elas. É um gosto antigo, não sei explicar: é assim desde que abracei meu amor pela escrita.

Por último, sempre gostei de escrever sobre sentimentos, no geral. Adoro inventar qualquer romance, seja de forma totalmente fictícia e inventada ou baseada em qualquer experiência pessoal.

Ter o comprometimento de publicar toda semana exige certa produtividade constante. Mantenho-me escrevendo em todo tempo livre, sobre tudo que me interessa, tudo que me faz sentir. Expor meus textos sempre foi um ato de coragem: como eu disse, eu não minto pro papel. Expor meus textos é sinônimo de expor minhas verdades – ou pelo menos deveria ser.

Há meses, antes de publicar, modifico alguns textos para retirar os pronomes femininos que foram colocados (ou para trocá-los por pronomes masculinos) e faço de tudo para manter qualquer texto romântico dentro de um padrão de relação heterossexual. Faço isso por medo do que terei que escutar por ser uma mulher escrevendo sobre outra, faço isso por medo do que terei que escutar por retratar cotidianamente indivíduos do mesmo sexo que se amam.

Ando sendo incoerente comigo mesma. Se nunca escrevi dentro das exigências de ninguém, se o papel em branco sempre foi meu confessionário, por que devo, então, me autocensurar quanto a algo que tanto defendo?

Hoje, eu trouxe um aviso. Não mudarei pronomes, não me impedirei de escrever sobre o amor em geral porque ele existe, sim, em outras formas além do modelo tradicional. A censura, o silenciamento e o medo são formas de diminuir não apenas as coisas em que acredito, mas também quem sou. Representatividade literária é importante e, mesmo que em pequenas doses, posso contribuir com isso – e o farei.

Dia 17 de maio foi o dia internacional da luta contra a LGBTfobia e me fez pensar um pouco sobre tudo isso. Voltemos à sinceridade habitual: eles com elas, eles com eles, elas com elas. Com quem houver sentimento e reciprocidade.