MAIS UM DE ROMANCE

Estamos sentados lado a lado e a distância entre nós me incomoda tanto quanto um erro gramatical grave. Para mim, é isso que este espaço representa: um erro, preenchido por ar e algo mais, que paira misterioso e vivo, mas não sabemos dizer o que é.

separados

Todos na sala são e estão indiferentes, sem poder perceber a guerra que ocorre dentro do meu corpo, que tenta incansavelmente decifrar os sinais do seu. Quando seu joelho resvala em minha perna, sem querer, paro de escutar tudo ao meu redor e toda a minha atenção se concentra no calor momentâneo de sua perna contra a minha. Durante os segundos que passamos assim, flashes do que nunca aconteceu surgem na minha mente: suas mãos, seus lábios, seus cabelos desarrumados.

A atração que sinto por você chega a ser paranóica, obsessiva; te dou todos os motivos para fugir de mim. Luto contra os meus próprios pensamentos tentando te expulsar dali; declaro guerra a mim mesma, mas o lado inimigo permanece resistindo cada vez mais. Antes, nos comunicávamos por olhares, mas agora conversamos através de toques que não ocorrem e da pressão existente entre nossos corpos. Chega a ser insuportável todo esse clima de coisas não-ditas, não-feitas, não-sentidas.

Tento perceber se você esconde alguma coisa entre as palavras que trocamos, mas não tenho um manual e você é tão complexo quanto um cálculo matemático. Entre todos esses nossos conflitos individuais, criamos mil e um idiomas próprios, compostos por gestos, sorrisos e esbarrões acidentais. Quem sabe, caso nosso pequeno dicionário um dia seja publicado, eu consiga te traduzir.