REFÉM

Tenho o hábito inconsciente de procurar seu rosto entre todos os que vejo na multidão, sentindo aquela esperança quente que mantém as borboletas em meu estômago bem alimentadas. Em cada ônibus que sento, em cada curva que faço, em cada esquina suburbana e suja eu te procuro quase instintivamente. Até hoje não te matei dentro de mim.

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Não posso evitar, prolongo sua estadia por aqui sem preocupar em cobrar juros. Ainda consigo sentir resquícios do verão que você trouxe consigo quando chegou, exibido e apaixonado pelos pequenos detalhes rotineiros que inspiravam sua prosa cotidiana. O céu escureceu por aqui desde que você entrou naquele trem das sete. O das onze não te trouxe de volta. Tudo igualmente cinza.

Aos domingos, costumo encarar o que ainda há de você aqui dentro. Te olho nos olhos, aproveito o impulso que dura três ou quatro segundos e encosto o cano da arma bem entre suas sobrancelhas, sem desviar o olhar das suas pupilas, sentindo o gatilho implorar para que eu o pressione.

Por mais um segundo, penso a respeito.

Seu olhar escuro é sempre o que me faz desistir.

Te deixo vivo aqui. Vivo e refém.