PRIMÁRIO

Dia desses decidi passar na praia, em plena terça-feira, seis da tarde, o mundo gritando e eu só querendo silêncio. Sentei na areia e afundei meus dedos entre aquelas pedras minúsculas, sentindo as ondas indo e vindo, molhando meus pés e logo os deixando em paz. Daí pensei em você. Não como penso cotidianamente, nas pequenas coisas, de um jeito que já se tornou rotina. Pensei em você.

Looking_west_to_Heart_Mountain_while_in_a_field_of_Sunflowers._Powell,_Wyoming
Ficar ao seu lado é como observar o oceano. Essa calma toda de ouvir e enxergar o vem e vai. Ficar te olhando dá o mesmo sentimento de maresia e eu me distraio, me perco nas suas linhas. O gosto da sua pele salgada também me lembra praia. E esse teu cheiro litoral… Dá vontade de me afogar no espaço em branco entre seu ombro e seu pescoço. 

Estar com você é uma viagem em alto-mar. O silêncio misturado ao nosso som, o azul ao redor. Monocromático e ondulatório. Pacífico. No entanto, é paradoxal. Enquanto eu te observo, tudo é paz, calma e cuidado, mas no minuto que seu olhar encontra o meu, soma-se a isso o redemoinho que se instala no meu estômago e os arrepios que me percorrem por inteiro. É aí que entra o vermelho, que o fogo encontra a água sem ser anulado, coexistindo em alguma realidade que você cria quando está por perto, onde o impossível ocorre com certa frequência e normalidade.

Toda essa intensidade cuidadosa é como eu estava dizendo antes, sobre viajar em alto-mar. É como olhar para toda aquela imensidão azul e saber do que é capaz de fazer. Está ali, em quietude, mas carrega tanta fúria e força, tanto poder em repouso. E é isso que me faz querer fugir, e é isso que me faz querer ficar…

Aqui, sentada, olhando a imensidão que se estende diante de mim, lembrei de outra vez que pensei em você com tamanha intensidade que consegui sentir sua presença ao meu lado. Ao contrário de agora, naquele dia, eu não poderia estar mais continental. Numa estrada que parecia um desenho infantil, tudo plano ao redor, o céu muito azul e campos e campos de girassóis que tocavam a linha do horizonte. Tudo que eu via era amarelo. Minha mente foi tomada por você de imediato. E, agora, acaba de me ocorrer que você marcou a ferro ardente todas as cores primárias com um pedaço teu.

Esse amor todo que eu sinto, toda a explosão multicor que se faz presente em meu peito, é só resultado de cada pequena pincelada que aos poucos você foi deixando por aqui…

GOTA D’ÁGUA

O corpo é vela. Vela de barco, que guia e sente o sopro, deixa-se curvar. E curva, puxa pra cima, desafia a gravidade enquanto sussurra meu nome e eu sorrio de boca cheia. Num fogo que ecoa, vela de cera, derretendo-se em mim com as luzes apagadas enquanto o mundo se acende lá fora da janela. Perco a noção do tempo quando as ondas batem e voltam, batem e voltam, não sei se a imitam ou se são imitadas por ela, comportamento previsível em sua instabilidade total.

O corpo é bússola e eu me deixo nortear indo em direção ao sul, feito marinheira de primeira viagem que gosta até da tempestade. E eu gostei. Gostei tanto que virei minha cabeça para o céu e abri a boca sentindo o gosto de cada gota que eu consegui captar, deixando-me sentir os calafrios que transpassavam meus ombros e iam em direção aos dedos do meu pé. Ah, a sensação viciante de perder o controle por alguns segundos apenas para retomá-lo depois; eu tenho mania de dominação. Quero tudo que está ao alcance do meu pensamento.

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E o pensamento é o que me doma e me escraviza. O corpo é escravo de vontades e eu as induzia como quem brinca com o que é fatal (e foi, eventualmente). Quem liga para os limites mortais da pele quando o paraíso está logo ali, sem roupas ou rótulos, pedindo pra ser provado? Quanta ganância a minha. Querer ser amada. Querer ser humana sem os sacrifícios todos. Querer toda a fantasia de ter tudo o mais real e palpável possível. A inocência cega o rumo e eu fechei os olhos por conta própria, fingindo uma coisa que eu jamais acreditaria de coração.

A gente se engana mesmo, pra tentar deixar tudo menos dolorido. É claro que não funciona. Mas eu me lembro toda madrugada que o corpo é vendaval, rodopiando entre os sentidos, menos visão e mais tato, mais olfato, mais audição. Engraçado o paradoxo de tentar esquecer enquanto relembro os detalhes da calmaria seguida de caos. Ou o contrário? O mundo não é preto e branco, binário. Nem o corpo, que grita em silêncio, especialista em demonstrar sinceridade da mais pura.

A gente não se engana, não. Só fingimos. Forçamos o esquecimento e mudamos móveis de lugar para a fraude parecer mais convincente. É o seguinte: o choro é pra ser derramado. A vida deve ser experienciada banhada por lágrimas, dessas que caem dentro do ônibus enquanto os olhos correm por palavras de um livro de poesia suja. E todo o mundo para aqui dentro e lá fora continua girando, e sendo, e passando. Mas a gente para. E só descongela quando chora.

É difícil duvidar do universo quando a poesia se mostra atemporal e nos mostra que a solidão não é absoluta. Eu me lembro do corpo e me lembro também das cicatrizes e da forma com que ele deixou de ser paradoxal para ser apenas silêncio. Descongelei naquele dia, no meio da praça, lendo versos de um desconhecido que pareciam descrever toda a minha odisseia em cinco estrofes. Arte alheia que parece nos decifrar até os ossos. Senti a grama molhada e pensei do gosto da chuva, que afinal, está ali pra ser provado.

O mundo precipitou de novo e eu me deixei girar junto a ele.

ESPER(ANDO)

Eu te enxergo, eu te vejo. Toda essa sua confusão, essa personalidade de fogo efêmero que se rende ao vento para reacender logo depois. Eu percebo a tua cabeça revirada, todas as suas marés influenciadas por uma lua de mil fases. Você tem umas cem camadas e todas elas possuem cores diferentes.

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Daqui de fora, consigo ver a sua bagunça, suas dúvidas sobre esse e outros mundos. Você toma decisões baseadas no que seu pensamento desordenado ordena em nome da dupla que somos sem me perguntar o que acho sobre: também tenho voz, mereço ser escutada, não? Não pense que me protege ao se afastar ou bloquear tudo que é, se permaneço é porque escolho estar aqui. Que mania estúpida de achar que sabe o que é melhor pra mim, que tem o direito de decidir o que me machuca e o que deixa de machucar. Te quero livre, vê se me liberta também. Até mesmo pra tomar as decisões que você, no fundo do seu instinto, desaprova.

Estou disposta a ir fundo, a conhecer seus demônios e seus medos, a ver a sua nudez crua sem me assustar com os efeitos colaterais. A minha vontade existe, mas a sua parte é necessária para que a gente saia da orla da praia e entre em alto mar. Tô te pedindo, meu bem, me deixa entrar. Me deixa ver a sua alma e suas dimensões, me deixa dançar nas suas incertezas, me deixa fazer parte da sua gaveta bagunçada. Tô na porta, tô te esperando. Vai me receber ou só falar pelo interfone?