CARTA SOBRE, POR, PARA

Meu bem, você me fez questionar muito, mas nem tudo. Não se iluda: todos os meus últimos amores me fazem questionar se os anteriores se tratavam realmente de amor. Você não foi minha primeira pessoa nem vai ser minha última, mas, na sua condição de uma delas, permanece sendo parte. Uma grande parte, talvez, maior do que eu gostaria de admitir.

guardanapo

Eu tô vivendo no presente, mas só fico no passado, minha mente lá em você e todas as minhas suposições para um futuro próximo me perturbando nas noites de insônia. E se tudo que eu falo é sobre você, pra você ou por você, nada mais justo que você ter consciência disso. Acorda: eu tenho autoestima o suficiente pra dizer que eu valho a pena, que eu me entrego, que eu me dedico, que eu me rendo. E que eu posso te proporcionar um milhão de experiências, de inspiração e de histórias pra contar. E por agora eu me permito, eu me disponho, mas se eu já sou corajosa a ponto de admitir cada sentimento, você deveria ter coragem o suficiente para fazer algo sobre.

Eu tô cansada de ser refém: sua e de mim mesma. Daqui a pouco libero as algemas, a chance passa (a vida também) e tudo isso vai se concretizar, finalmente, apenas na forma de “e se”. Inacabado. E eu morro de agonia de coisas que nunca terminei, você sabe. É uma angústia que se instala no fundo da garganta e demora um tempo pra passar, mas eventualmente passa. Ô se passa. O mundo gira e tudo sempre passa (tento focar nisso pra não desabar).

Aproveita, meu amor, enquanto eu tô aqui por sua conta, pronta pra tentar, pra ter um pouco de diversão no meio dessa rotina pesada. O mundo é imenso e eu tô só te esperando pra vir comigo porque eu sei que a companhia não poderia ser melhor. Eu sei, cê sabe que eu sempre volto, mas talvez da próxima vez talvez eu não volte sendo a mesma pessoa. Tô te esperando.

ESPER(ANDO)

Eu te enxergo, eu te vejo. Toda essa sua confusão, essa personalidade de fogo efêmero que se rende ao vento para reacender logo depois. Eu percebo a tua cabeça revirada, todas as suas marés influenciadas por uma lua de mil fases. Você tem umas cem camadas e todas elas possuem cores diferentes.

maos-estendidas

Daqui de fora, consigo ver a sua bagunça, suas dúvidas sobre esse e outros mundos. Você toma decisões baseadas no que seu pensamento desordenado ordena em nome da dupla que somos sem me perguntar o que acho sobre: também tenho voz, mereço ser escutada, não? Não pense que me protege ao se afastar ou bloquear tudo que é, se permaneço é porque escolho estar aqui. Que mania estúpida de achar que sabe o que é melhor pra mim, que tem o direito de decidir o que me machuca e o que deixa de machucar. Te quero livre, vê se me liberta também. Até mesmo pra tomar as decisões que você, no fundo do seu instinto, desaprova.

Estou disposta a ir fundo, a conhecer seus demônios e seus medos, a ver a sua nudez crua sem me assustar com os efeitos colaterais. A minha vontade existe, mas a sua parte é necessária para que a gente saia da orla da praia e entre em alto mar. Tô te pedindo, meu bem, me deixa entrar. Me deixa ver a sua alma e suas dimensões, me deixa dançar nas suas incertezas, me deixa fazer parte da sua gaveta bagunçada. Tô na porta, tô te esperando. Vai me receber ou só falar pelo interfone?