LEMBRETE

Não é espantoso estar vivo?

Não é espantoso saber de todas as cores e sentir todas as luzes?

Às vezes eu tenho vontade de te pedir pra ficar parado, imóvel, pra que eu consiga te fotografar com os olhos, só porque sei que nunca mais teremos a mesma luz bonita, no mesmo lugar, nem seus cabelos desarrumados pelo vento da mesma maneira.

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Não é espantoso respirar?

Às vezes eu gosto de entrar no mar como quem abraça um velho amigo e deitar sobre as ondas, até o ponto de deixar de boiar e perder o ar só pra sentir de novo como é recuperá-lo. É muito tempo gasto na superfície, muito tempo gasto tomando o costume de tudo. Tem coisa pior que estar acostumado? Acomodado antes dos trinta? (Até depois, eu diria. Alguma coisa sempre tem que fazer com que haja adrenalina em nós às nove da manhã).

Você não tem que ser essa fortaleza toda sempre, construindo um milhão de muros reforçados em torno dos seus medos e defeitos, sabe. Porque é nos seus olhos que te olham quando te perguntam dos seus segredos e sua boca estremece num sorriso bem montado. As suas fronteiras não serão sempre as mesmas e seria agradável aceitar que há certa beleza no fato de que tudo morre, inclusive as paredes que você construiu com tijolos vivos que criam vontades próprias. Eles também se cansam e caem.

Há rachaduras em tudo que você declara absoluto; a vida depende disso pra vazar em arte. Você depende disso pra ser capaz de enxergar-se em outrem.

Eu sou um edifício de paredes finas que se agarra desesperadamente ao espanto de perceber a água que vaza dos canos e percorre cada centímetro alimentando toda a estrutura como sangue. O que seria de mim e dos meus versos sem toda a inutilidade (espantosa) que acontece do lado de fora das janelas rachadas?

Sem minhas memórias e minhas linhas tortas e todas as fotografias que tirei com o olhar de pessoas dentro de luzes e lugares bonitos, eu não seria nada além de restos em pó. Desabada após o vento forte das seis.