LANÇA O BARCO CONTRA O MAR

Ouvir Rubel é sempre doloroso demais porque desperta algum sentimento rudimentar aqui dentro. Que arde. E queima. E grita. E a sinapse se completa e tudo volta e tudo vai.

(Sempre foi assim, desde a primeira nota).

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Quero ser capaz de escrever poesia assim, sabe, algum dia. Dessas que fazem doer, que fazem os dentes caírem, que molham travesseiros, que sejam tão poderosas e intensas que as pessoas considerem apelar pra uma fé que elas nem sabiam que tinham mais, assim como eu faço quando a melodia invade o escuro e o silêncio do meu quarto e traz essa paz que dói, mas que não deixa de ser paz.

Eu gosto dessas coisas. Dessas que desvendam a alma da gente antes mesmo de conseguirmos nos desvendar. Que nos deixam perguntando o quê, quando, como, onde… Buscando por motivos, por consequências sem causa, qualquer resposta entre os versos.

Não há, no entanto. Nunca há.

Só há o vazio e a voz, que traz o tudo.

AUSÊNCIA DE LUZ

A vida é um suicídio lento.

Somos concretizados como seres que existem entre rotinas, frases não ditas e sonhos que não florescem e se enterram sob o cimento.

Fingimos qualquer satisfação cotidiana entre as filas de banco, os falsos sorrisos e a convivência por obrigação. Sem música pra dançar, sem cor, a luz já meio desbotada e a tarde de domingo que não mais traz a paz, mas sim o vazio.

A vida é lidar com a censura implícita em cada hora e o silenciamento pela falta de coragem de conquistar a pouca liberdade que podemos sonhar em ter: a de ser e nos expressar sem medo algum, a de ser respeitados, a de conseguir cultivar ideias fora da caixa que somos colocados.

A vida é conter-se e ser pouco, viver em potes categorizados e ter como função única o cumprimento de prazos e expectativas, é aceitar perder (tempo, sonhos, pessoas). É engolir o choro e só vomitá-lo no silêncio soberano da madrugada, sem ninguém ver, sem ninguém ouvir.

O tempo nos desbota, nos cala, nos diminui. O tempo nos induz ao conformismo, viver é desgastar-se. A vida é um suicídio lento porque matamos um pouco de nós mesmos todos os dias.

Fortes aqueles que mantêm sua existência sempre cheia de luz e cor, com disposição para gritar e ser. Enfrente, em frente: sonhos não morrem, apenas caem no esquecimento.

ENTRE LENÇÓIS E COISAS NÃO DITAS

Eu sinto e vivo e fujo de forma meio implícita e minhas vontades são todas indiretas e calculadas, de uma forma meio preto e branca, toda mistério. Tenho gosto pela penumbra, o implícito, o rosto mostrado pela metade e o corpo desfocado violentamente numa poesia meio distorcida, quase palpável, que atinge meu paladar e minha vontade por tato.

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Eu gosto mesmo é da antecipação que causa aquela ansiedade boa, dos arrepios entre o que foi falado e o que foi traduzido em olhar, dos toques minimalistas do início da noite ou madrugada afora, meio secretos e íntimos por completo. Eu gosto quando o beijo é devagar e a euforia acelera, gosto do sorriso de provocação, do sabor de querer mais, mais, mais. Nunca o suficiente.

Eu gosto é do erótico, não do pornográfico; gosto do sensual no lugar do sexual, gosto das propostas indecentes que me conquistam após a terceira vírgula e da respiração pesada que acompanha a pausa. Eu gosto é do espaço entre as palavras. Eu gosto do silêncio convidativo. Gosto do escuro, do breu, sem possibilidade de qualquer realidade escancarada.

Eu quero mesmo é a verdade toda nua, espalhada entre lençóis, esperando para ser descoberta. Eu gosto quando o sol se esconde atrás do véu e a alma se torna mais ousada e corre riscos: fazer mais, falar mais. Buscar o toque e as sensações num frio noturno atrativo.

Eu gosto do mal contado. Da possibilidade de interpretação livre. Do inacabado que fica ali, disponível para ser finalizado quando, como e onde quisermos.

A sós.