AUSÊNCIA DE LUZ

A vida é um suicídio lento.

Somos concretizados como seres que existem entre rotinas, frases não ditas e sonhos que não florescem e se enterram sob o cimento.

Fingimos qualquer satisfação cotidiana entre as filas de banco, os falsos sorrisos e a convivência por obrigação. Sem música pra dançar, sem cor, a luz já meio desbotada e a tarde de domingo que não mais traz a paz, mas sim o vazio.

A vida é lidar com a censura implícita em cada hora e o silenciamento pela falta de coragem de conquistar a pouca liberdade que podemos sonhar em ter: a de ser e nos expressar sem medo algum, a de ser respeitados, a de conseguir cultivar ideias fora da caixa que somos colocados.

A vida é conter-se e ser pouco, viver em potes categorizados e ter como função única o cumprimento de prazos e expectativas, é aceitar perder (tempo, sonhos, pessoas). É engolir o choro e só vomitá-lo no silêncio soberano da madrugada, sem ninguém ver, sem ninguém ouvir.

O tempo nos desbota, nos cala, nos diminui. O tempo nos induz ao conformismo, viver é desgastar-se. A vida é um suicídio lento porque matamos um pouco de nós mesmos todos os dias.

Fortes aqueles que mantêm sua existência sempre cheia de luz e cor, com disposição para gritar e ser. Enfrente, em frente: sonhos não morrem, apenas caem no esquecimento.