O SER E O NADA

A vida é uma espera. Pela morte, por amores inacabados, por palavras que não virão. Uma pausa entre duas eternidades de inexistência, a concretização de um corpo num período breve que logo transformará o mesmo corpo em partículas que voltarão ao imenso universo ao qual pertence realmente.

ser e nada

E vagamos fingindo rumos que não passam de uma forma de ocupar o tempo enquanto aguardamos o final inevitável do capítulo (a história inteira é mais ampla que esse breve intervalo terreno). Porque a morte é um porto e nós somos barcos obedientes, atando e desatando nós por nossas várias cordas no percurso longo, trombando uns com os outros, calculando encontros e desencontros. Nós somos Colombo indo em direção ao precipício do desconhecido.

A passagem desse pensamento dá uma agonia invencível e fazemos papel de ignorantes, como se não soubéssemos de nada disso, nos preenchendo com objetivos curtos, médios, longos. Idealizando tudo. A arte de planejar nos é natural porque sem ela morreríamos por vivenciar demais a verdade; o tédio é a pior parte do ócio porque nos permite entender o que nos espera.

Sou dessas pessoas que passa as horas antes de dormir pensando no que vou deixar no mundo quando meu corpo já estiver se desfazendo e minha mente deixar de funcionar. De todos os inventores e pensadores, de todos os inventos e pensamentos, de todas as revoluções e literaturas, que há de novo para se pensar, criar ou escrever? Que há de ser marcante o suficiente para ser conhecido e estudado por dois, três, quatro séculos?

No fundo, há uma voz que me diz: nada. Porque se somos barcos e a morte é um porto, a vida é o mar. Nunca o mesmo. E, embora as ondas mais grandiosas consigam, por vezes, cobrir a costa e nos deixar incrédulos com tamanho poder, elas desabam e desaparecem numa imensidão homogênea e azul.

Até mesmo os vestígios de quadros feitos um dia desbotam.

DAS TANTAS COISAS QUE TENHO PRA TE DIZER

Eu tô te gostando muito.

Tô gostando muito de todos os segredos contados em tom casual e de todas as tardes de segunda que a gente passa olhando o céu azul e ignorando a rotina. Desses domingos de fim de mundo quando um abraço seu coloca tudo de volta no lugar; não o meu lugar, nem o seu, apenas algum outro lugar diferente de onde tudo estava antes. Engraçado esse teu senso de direção tão certo no meio dos meus hábitos tão sem norte, você ri das minhas frases perdidas e das bobagens com as quais me preocupo e de repente eu tô rindo de mim mesma também.

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Em noites como esta, fico pensando em como tudo se fazia antes de você chegar e gosto da sequência de acontecimentos que fez com que nossas vidas se encontrassem naquela praça e em todos os outros lugares que nos deixamos estar. No verão eu era chuva, eu era a falta, eu era o medo. É inverno e eu continuo sendo dúvida, mas veio o outono e com ele veio você e com você veio a calmaria, a perspectiva leve, a vontade de fazer planos a longo prazo, a gentileza. Veio isso tudo e você sabe bem que demorei uns meses pra perceber e a percepção foi bruta e imediata, marcou minhas roupas junto com tuas lágrimas naquela sexta, foi nesse dia que o mundo caiu. Ou se ergueu.

Você me ensinou de novo tanta coisa e eu sinto que poderia te escrever um livro; pena você não gostar de ler. Deixo um pouco de mim em cada bilhete que te entrego, desses mesmo que parecem não significar nada demais, mas eu e você sabemos que transborda significado, igual aquela manhã em que andamos o bairro inteiro e falamos sobre nada de importante mas todos aqueles minutos importaram tanto.

Acho que nunca conseguirei te falar tudo que quero, tudo que eu acho que você deva saber, todas as confissões e os segredos de tudo que você me causou e de como sou grata por essas causas e consequências. E por mais que eu sinta urgência em sentir, ando tentando controlar essa ansiedade e pressa tanta, deixar vir o tempo e me preocupar apenas com o agora, com todos esses momentos exatos. O momento exato em que você me conta sobre algum prato preferido e eu, imediatamente, decido que vou aprender a cozinhar, ou o momento exato em que você cai no sono vendo algum filme e segurando a minha mão, ou o momento exato em que você me olha nos olhos logo depois de me dar um beijo e eu sinto todo esse amor imenso e te observo transformar-se em poesia bem na minha frente.

É durante esses momentos exatos que eu desejo em segredo que o agora ainda dure tanto, que seja como o oceano e se estenda até onde a vista não alcança, e talvez nessas esperanças de tentar te eternizar em natureza é quando eu decido te confessar em prosa que te amo sem te dizer isso explicitamente, como se ainda fosse possível disfarçar.