BLOQUEIO CRIATIVO

Eu olho para o espelho e tudo que vejo é o vazio. A falta não só do meu rosto e do meu corpo, que deveriam estar ali me encarando de volta, mas de tudo ao redor. Só vejo o cinza, monocromático, sólido, a mistura entre a ausência total e a presença completa, um meio termo agoniante.

cinza

Embora eu não consiga compreender, talvez tenha a ver com o fato de que eu sinto como se, em algum momento dos últimos meses, eu tenha entrado em uma rua sem saída sem conseguir dar meia volta e ir embora. Estou encarando a mesma parede há semanas, em inércia, paralisada pela quantidade de verdade que simplesmente não consigo carregar.

(Não há nada mais doloroso que o autoconhecimento).

A sobriedade parece difícil, quase tão difícil quando encarar o papel vazio e perceber que não há nada para ser colocado ali. Que me falta vida, que me falta gente. O cotidiano me faz falta; as voltas de ônibus pela cidade, o barulho alto do centro, a falta de paz. A falta de paz é o que motiva a arte e o meu problema é que ao meu redor tudo é pacífico demais enquanto um caos incontrolado se instala aqui dentro porque eu percebo que perdi a capacidade de me traduzir. Estou presa em mim mesma, vivendo de novo todas as sensações, os sentimentos, pensando nas mesmas frases e nas mesmas lembranças.

Se a poesia se recusa a vir conscientemente, o que me resta é a esperança de que num futuro próximo o irracional traga alguma cor pra superfície. O cinza já não basta, já não renova, não surpreende. O cinza não tira o fôlego da maneira com que encontrar aquele bilhete o faz, mas eu cansei também de velhas caligrafias. O sangue que corre nas minhas veias é cinza feito cimento e eu só quero me avermelhar.

REFÉM

Tenho o hábito inconsciente de procurar seu rosto entre todos os que vejo na multidão, sentindo aquela esperança quente que mantém as borboletas em meu estômago bem alimentadas. Em cada ônibus que sento, em cada curva que faço, em cada esquina suburbana e suja eu te procuro quase instintivamente. Até hoje não te matei dentro de mim.

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Não posso evitar, prolongo sua estadia por aqui sem preocupar em cobrar juros. Ainda consigo sentir resquícios do verão que você trouxe consigo quando chegou, exibido e apaixonado pelos pequenos detalhes rotineiros que inspiravam sua prosa cotidiana. O céu escureceu por aqui desde que você entrou naquele trem das sete. O das onze não te trouxe de volta. Tudo igualmente cinza.

Aos domingos, costumo encarar o que ainda há de você aqui dentro. Te olho nos olhos, aproveito o impulso que dura três ou quatro segundos e encosto o cano da arma bem entre suas sobrancelhas, sem desviar o olhar das suas pupilas, sentindo o gatilho implorar para que eu o pressione.

Por mais um segundo, penso a respeito.

Seu olhar escuro é sempre o que me faz desistir.

Te deixo vivo aqui. Vivo e refém.