GOTA D’ÁGUA

O corpo é vela. Vela de barco, que guia e sente o sopro, deixa-se curvar. E curva, puxa pra cima, desafia a gravidade enquanto sussurra meu nome e eu sorrio de boca cheia. Num fogo que ecoa, vela de cera, derretendo-se em mim com as luzes apagadas enquanto o mundo se acende lá fora da janela. Perco a noção do tempo quando as ondas batem e voltam, batem e voltam, não sei se a imitam ou se são imitadas por ela, comportamento previsível em sua instabilidade total.

O corpo é bússola e eu me deixo nortear indo em direção ao sul, feito marinheira de primeira viagem que gosta até da tempestade. E eu gostei. Gostei tanto que virei minha cabeça para o céu e abri a boca sentindo o gosto de cada gota que eu consegui captar, deixando-me sentir os calafrios que transpassavam meus ombros e iam em direção aos dedos do meu pé. Ah, a sensação viciante de perder o controle por alguns segundos apenas para retomá-lo depois; eu tenho mania de dominação. Quero tudo que está ao alcance do meu pensamento.

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E o pensamento é o que me doma e me escraviza. O corpo é escravo de vontades e eu as induzia como quem brinca com o que é fatal (e foi, eventualmente). Quem liga para os limites mortais da pele quando o paraíso está logo ali, sem roupas ou rótulos, pedindo pra ser provado? Quanta ganância a minha. Querer ser amada. Querer ser humana sem os sacrifícios todos. Querer toda a fantasia de ter tudo o mais real e palpável possível. A inocência cega o rumo e eu fechei os olhos por conta própria, fingindo uma coisa que eu jamais acreditaria de coração.

A gente se engana mesmo, pra tentar deixar tudo menos dolorido. É claro que não funciona. Mas eu me lembro toda madrugada que o corpo é vendaval, rodopiando entre os sentidos, menos visão e mais tato, mais olfato, mais audição. Engraçado o paradoxo de tentar esquecer enquanto relembro os detalhes da calmaria seguida de caos. Ou o contrário? O mundo não é preto e branco, binário. Nem o corpo, que grita em silêncio, especialista em demonstrar sinceridade da mais pura.

A gente não se engana, não. Só fingimos. Forçamos o esquecimento e mudamos móveis de lugar para a fraude parecer mais convincente. É o seguinte: o choro é pra ser derramado. A vida deve ser experienciada banhada por lágrimas, dessas que caem dentro do ônibus enquanto os olhos correm por palavras de um livro de poesia suja. E todo o mundo para aqui dentro e lá fora continua girando, e sendo, e passando. Mas a gente para. E só descongela quando chora.

É difícil duvidar do universo quando a poesia se mostra atemporal e nos mostra que a solidão não é absoluta. Eu me lembro do corpo e me lembro também das cicatrizes e da forma com que ele deixou de ser paradoxal para ser apenas silêncio. Descongelei naquele dia, no meio da praça, lendo versos de um desconhecido que pareciam descrever toda a minha odisseia em cinco estrofes. Arte alheia que parece nos decifrar até os ossos. Senti a grama molhada e pensei do gosto da chuva, que afinal, está ali pra ser provado.

O mundo precipitou de novo e eu me deixei girar junto a ele.

MORE NO SEU AMOR PRÓPRIO

A gente nasce e morre cercados de normas e leis, tantas regras para nos limitar, tantos pontos finais, tantas considerações a serem feitas, tantos limites. Pode ser desse jeito, mas nem tanto, pode ser do outro jeito, mas não tão pouco. Seja mais, seja menos, seja assim: do jeito que está imposto, do jeito que todo o resto também é, seja mais um na multidão.

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Tentamos imitar o que é indicado como perfeito, ideal: os corpos nas revistas, os rostos bonitos, os cabelos lisos, loiros, longos, as roupas do momento, as músicas comerciais, os relacionamentos das revistas de fofoca. Padrões de beleza são engraçados: culturais, variáveis; nasci pra ser linda em 1950, mas nos anos 2000 eu deveria ser mais magra, deveria ser tão menos que sou. E quantas vezes já não olhamos no espelho e odiamos o que vimos? Querendo arrancar tudo, começar de novo dentro de outro corpo, chegando a nos obrigar a fazer dietas e nos dedicar a algo que odiamos apenas para nos encaixar no padrão de outros quando o único padrão que deveríamos nos obrigar a encaixar é o nosso.

Num mundo onde a baixa autoestima e a busca pelo ideal são incentivadas porque rendem lucro, temos que ser revolucionários e cometer o crime de amar a nós mesmos. Cada (falta de) curva, cada falha na pele, cada pedaço torto e desgastado que nos compõe, desde que sempre dentro do que é saudável. Estamos numa constante luta para agradar os outros, em busca de alguém que nos ame por algo que não somos genuinamente. O ser humano tem uma mania destrutiva de ter medo de estar sozinho. A solidão não é nenhum monstro, não quando vemos paz em nossa própria companhia. Temos que aprender a viver bem com o que somos para, enfim, conseguir viver bem com outra pessoa.

A coisa mais difícil desta vida é reconhecer e admitir os próprios sentimentos, perceber o que cultivamos em nosso interior inconscientemente, aceitar, finalmente, o que não vemos (ou não queremos ver, simplesmente) e conseguir gritar nossas fragilidades, mesmo que para ninguém escutar. Por que é tão difícil falar em voz alta algumas coisas que sabemos que sentimos, que somos, que vivemos, mas negamos por medo? Não há vergonha nenhuma em ser nós mesmos, em expor cicatrizes, em orgulhar-se do próprio corpo, seja ele do jeito que for.

Corajosos são os que admitem o que são na frente de tudo e todos; até pouco tempo, eu não conseguia admitir o que sou nem para mim mesma. Temos que aprender que temos que nos amar primeiro, confiar em nós mesmos primeiro, nos exibir para nós mesmos primeiro, nos orgulhar de quem somos primeiro, nos aceitar primeiro, nos colocar em primeiro lugar para depois aprender a amar, confiar, exibir, orgulhar, sermos aceitos por outros. Precisamos morar em nosso amor próprio, depositar nossa felicidade em quem somos, o narcisismo às vezes é saudável e necessário. E mande ao inferno os padrões alheios, as exigências alheias, as críticas de quem não tem nada a acrescentar: agrade a si mesmo, busque a satisfação própria; os outros só nos devem respeito. E ponto.

Ame-se, mas ame-se com vontade, com prazer, com dedicação. Ouse amar a si mesmo quando tudo ao redor diz que você não deveria. Confiança é algo sexy, atraente, use e abuse. Seja livre para ser quem você quiser, o direito é seu, é meu, ninguém tem nada a ver. Busque entender a si mesmo, revirar seus medos e segredos, mudar as velhas manias de esconder o que te torna o que é, admita suas falhas, ignore qualquer frase que tenha verbos no imperativo e um tom meio mandão, se achar que deve. Assuma a responsabilidade do que você é, sem amarras: a pior coisa que podemos fazer é impedirmos a nós mesmos de ser o que verdadeiramente somos pelo motivo que for.

SE VOCÊ QUISER

As pessoas falam demais, nunca dizem o suficiente, choram de menos e engolem suas mágoas. As pessoas se fecham e partem e somem e não agem como o esperado, as pessoas são corrompidas pela atração ao superficial porque o superficial é fácil e alcançável; as pessoas aproveitam confortavelmente suas respectivas zonas de conforto culpando tudo que não vivem pelo platonismo idealizado e ah, tão distante; é tão mais possível sobreviver ao amor não correspondido do que aquele em que há reciprocidade.

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A coragem de amar o real é sincera demais pra ser frequente, é transparente demais pra ser sentida, exige esforço demais para deixarmos de lado o cotidiano de fingir que não nos importamos. O ato de se lançar no sentir sem saber se quem está ao lado e mal te enxerga vai pular também, a espera e a angústia de não saber, o gosto da dúvida que é bem melhor que a verdade porque a verdade é concreta e a dúvida abre espaço para o “e se” todo cheio de ilusão.

Às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente para nos fazer sofrer, às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente pra causar qualquer coisa, o que seja, aqui dentro, caos ou paz, dor ou cura. Faz falta, no meio de tanta covardia em amar o irreal platônico, algo que seja palpável. Que faça arder e descongele a rotina.

Ah, eu gosto é do estrago, de boba que sou. Gosto é do que rasga, do que grita e faz gritar. Gosto do que faz bagunçar a gaveta, a cama, o quarto, que vira tudo do avesso numa madrugada e faz questão de mudar de lugar minhas certezas. O que me cativa não é só a paz que traz, mas toda antecipação de tudo, todo o descaso feito em cima de qualquer proposta, eu gosto do que é desnudo e sincero na minha frente sem se importar em apagar a luz pra disfarçar as cicatrizes.

Entra pela porta da frente, aceita um café? Sinta-se em casa, tira o sapato, espalha o seu corpo, seu cheiro, sua bagagem por aí. Vem e se perde em mim, tira meu rumo, molha minhas roupas com suas lágrimas que dizem mais que qualquer verbo. Não vem com pressa, não. Mas vem com intensidade, mergulha em vez de molhar os pés, olha pra trás algumas vezes, ninguém tem certeza de primeira.

Quando o real se mostra e não tem mais dessa de inventar hipóteses e interpretar reações, quando deixa de ser platônico e passa a ser cru, tenho vontade de fugir. Correr e me esconder. Eu sempre fico, eu sempre me deixo pra morrer afogada. Eu sempre me rendo e quebro as paredes sabendo que não vou sair sendo a mesma.

É só questão de rendição pro que se mostra como opção, mas na verdade já invadiu e decretou-se como fato.

DESCONHEÇA-ME

Me incomoda o fato de que você ainda invada meus pensamentos nas horas mais inesperadas e inconvenientes, como quando sento na mesa de jantar ou tomo um banho no fim de tarde. Quando olho a rua pela varanda. Quando vejo seus cigarros na janela.

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Me incomoda o fato de que meu corpo ainda carrega partículas do seu, de que sua voz ainda é bem clara na minha memória, de que ainda lembro do seu jeito de falar. Me incomoda o fato de que você saiba tanto sobre mim, queria que soubesse menos, queria ter me aberto menos, falado menos, confiado menos.

Não quero que você me tenha nem nas mínimas lembranças, não quero estar no seu subconsciente, na sua culpa, no seu penar; quero que você me desconheça, te quero longe, ausente, te quero inexistente e quero inexistir pra você também.

Até nunca mais.

CONTRADIÇÃO

Ele é uma explosão contida dentro de seus jeans rasgados e suas camisetas com frases irônicas. Ele é uma folha de papel limpa, linda, rabiscada com certezas e ideias ilimitadas e criativas. Ele tem seu próprio universo dentro de si, cada galáxia bem montada entre seus órgãos, suas estrelas e buracos negros correndo em suas veias em uma guerra eterna entre o bem e o mal presentes em cada átomo de seu ser.

Ele é voz, ele é grito, ele mantém uma revolução preparada em sua mente e espera pela hora certa de libertá-la por aí. Ele está dez anos adiante de sua geração; pensa grande e atua por meio de pequenas ações. Ele não tem regras (nem limites), apesar de sempre parecer estar jogando uma complicada partida de xadrez contra ele mesmo.

Ele é o James Dean dessa geração, vivendo rápido e de modo intenso. Ele não tem medo de morrer, mas fica assustado com o que pode vir depois: tem medo da incerteza, do improvável, do desconhecido, porque tudo nele contraria a imprecisão.

Seu corpo e mente são pura álgebra, matematicamente intercalados, cúmplices de uma trama bem elaborada. Seus cálculos são equações complicadas e tudo em si exala um certo tipo de simetria surrealista. Ele parece ter sido cuidadosamente projetado por algum arquiteto de alto nível, cada um de seus ângulos parecem se comunicar numa harmonia suave.

Sua alma, no entanto, é a contradição de todo o resto. É a poesia esparramada entre todos seus números, a literatura em confronto com sua matemática, a arte se infiltrando dentro de sua natureza exata. Sua alma é um texto bem escrito com uma pontuação elegante, um poema articulado com versos realistas, a melodia presente entre o ré e o mi.

Eu sou um inverno complicado e jovial, sou tempestades de relâmpagos e raios luminosos, sou o indecifrável céu roxo de outono, uma aurora boreal irreal e bela. Ele, pelo contrário, é verão; confortável e quente. Ele é uma garoa fina, leve, daquelas que trazem uma nostalgia boa.

Entre as idas e vindas de nossas estações tentamos nos intercalar de forma constante, mas nada parece se encaixar do modo desejado. Eu sou lua e ele é o sol, a contradição desenhada em linhas tortas: somos opostos que não se atraem.