NATUREZA SELVAGEM

Aqui em mim nasce uma coragem que rasga. Uma coragem que morde, rosna e quer matar. Que grita: estou pronta. Eu a deixo crescer, mas não a alimento. Ela que se alimenta de mim. Arranca meus órgãos e queima como quem diz que vive e vai chegar onde quer. Nem meus pensamentos atordoados ou meus medos irracionais conseguem impedir uma ação tão espontânea.

Desconfio: estou em combustão.

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As minhas certezas se transfiguram em outras que contrariam as de origem, os meus sonhos tomam forma e honestidade, peço que me abram uma avenida antes de conseguir impedir minha língua de desenhar a frase no céu da boca. Já não estou no comando de mim mesma. O meu coração é insubordinado e minh’alma não sabe de obedecer.

Hoje, a guerra é minha. Porque há dentro de mim um animal selvagem que ronda meu subconsciente tornando-o igualmente indominável.

Passiva, observo de dentro enquanto o externo de mim grita pro mundo: estou aqui e vou lutar.

CARTA SOBRE, POR, PARA

Meu bem, você me fez questionar muito, mas nem tudo. Não se iluda: todos os meus últimos amores me fazem questionar se os anteriores se tratavam realmente de amor. Você não foi minha primeira pessoa nem vai ser minha última, mas, na sua condição de uma delas, permanece sendo parte. Uma grande parte, talvez, maior do que eu gostaria de admitir.

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Eu tô vivendo no presente, mas só fico no passado, minha mente lá em você e todas as minhas suposições para um futuro próximo me perturbando nas noites de insônia. E se tudo que eu falo é sobre você, pra você ou por você, nada mais justo que você ter consciência disso. Acorda: eu tenho autoestima o suficiente pra dizer que eu valho a pena, que eu me entrego, que eu me dedico, que eu me rendo. E que eu posso te proporcionar um milhão de experiências, de inspiração e de histórias pra contar. E por agora eu me permito, eu me disponho, mas se eu já sou corajosa a ponto de admitir cada sentimento, você deveria ter coragem o suficiente para fazer algo sobre.

Eu tô cansada de ser refém: sua e de mim mesma. Daqui a pouco libero as algemas, a chance passa (a vida também) e tudo isso vai se concretizar, finalmente, apenas na forma de “e se”. Inacabado. E eu morro de agonia de coisas que nunca terminei, você sabe. É uma angústia que se instala no fundo da garganta e demora um tempo pra passar, mas eventualmente passa. Ô se passa. O mundo gira e tudo sempre passa (tento focar nisso pra não desabar).

Aproveita, meu amor, enquanto eu tô aqui por sua conta, pronta pra tentar, pra ter um pouco de diversão no meio dessa rotina pesada. O mundo é imenso e eu tô só te esperando pra vir comigo porque eu sei que a companhia não poderia ser melhor. Eu sei, cê sabe que eu sempre volto, mas talvez da próxima vez talvez eu não volte sendo a mesma pessoa. Tô te esperando.

SE VOCÊ QUISER

As pessoas falam demais, nunca dizem o suficiente, choram de menos e engolem suas mágoas. As pessoas se fecham e partem e somem e não agem como o esperado, as pessoas são corrompidas pela atração ao superficial porque o superficial é fácil e alcançável; as pessoas aproveitam confortavelmente suas respectivas zonas de conforto culpando tudo que não vivem pelo platonismo idealizado e ah, tão distante; é tão mais possível sobreviver ao amor não correspondido do que aquele em que há reciprocidade.

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A coragem de amar o real é sincera demais pra ser frequente, é transparente demais pra ser sentida, exige esforço demais para deixarmos de lado o cotidiano de fingir que não nos importamos. O ato de se lançar no sentir sem saber se quem está ao lado e mal te enxerga vai pular também, a espera e a angústia de não saber, o gosto da dúvida que é bem melhor que a verdade porque a verdade é concreta e a dúvida abre espaço para o “e se” todo cheio de ilusão.

Às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente para nos fazer sofrer, às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente pra causar qualquer coisa, o que seja, aqui dentro, caos ou paz, dor ou cura. Faz falta, no meio de tanta covardia em amar o irreal platônico, algo que seja palpável. Que faça arder e descongele a rotina.

Ah, eu gosto é do estrago, de boba que sou. Gosto é do que rasga, do que grita e faz gritar. Gosto do que faz bagunçar a gaveta, a cama, o quarto, que vira tudo do avesso numa madrugada e faz questão de mudar de lugar minhas certezas. O que me cativa não é só a paz que traz, mas toda antecipação de tudo, todo o descaso feito em cima de qualquer proposta, eu gosto do que é desnudo e sincero na minha frente sem se importar em apagar a luz pra disfarçar as cicatrizes.

Entra pela porta da frente, aceita um café? Sinta-se em casa, tira o sapato, espalha o seu corpo, seu cheiro, sua bagagem por aí. Vem e se perde em mim, tira meu rumo, molha minhas roupas com suas lágrimas que dizem mais que qualquer verbo. Não vem com pressa, não. Mas vem com intensidade, mergulha em vez de molhar os pés, olha pra trás algumas vezes, ninguém tem certeza de primeira.

Quando o real se mostra e não tem mais dessa de inventar hipóteses e interpretar reações, quando deixa de ser platônico e passa a ser cru, tenho vontade de fugir. Correr e me esconder. Eu sempre fico, eu sempre me deixo pra morrer afogada. Eu sempre me rendo e quebro as paredes sabendo que não vou sair sendo a mesma.

É só questão de rendição pro que se mostra como opção, mas na verdade já invadiu e decretou-se como fato.