DESSES ESCRITOS POR NECESSIDADE

Cansei de escrever sobre amor. Sabe, a vida também é todos os amores românticos e estrofes apaixonadas emboladas perto de xícaras vazias de café. Mas não é só isso. Ah, se fosse.

Não é. A vida e o amor são muito mais que a romantização disso tudo. Tá em tudo, sabe? Nas pessoas ao redor de nós. Em quem a gente quer bem e nos quer bem de volta. Não depende de nenhuma ligação de sangue – se isso é presente, coincidência – depende é de preocupação, cumplicidade. Depende daquelas ligações ou mensagens inesperadas que não são pra dizer nada e dizem tudo: tá tudo bem? E sua semana, como foi? Fez algo novo? Resolveu aquilo que tava te deixando pra baixo? Melhorou um pouquinho?

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É estar por aí em todos os momentos. Não da boca pra fora, realmente estar, nem precisa ser fisicamente. É falar “qualquer coisa me liga” e realmente atender qualquer drama bobo. É falar com significado sincero cada sílaba. Deixar claro mesmo, transparecer no tom que pode confiar e construir isso com o passar do tempo. Anos, décadas, sei lá. Gosto de pensar a longo prazo; amor é o que fica.

E olha eu aqui escrevendo poeticamente isso tudo como se eu fosse perfeita e exemplar a ponto de seguir meus próprios conselhos. Ih, passo longe disso. E me sinto a pior pessoa desse planeta por passar tão longe. Me atrapalho toda em demonstrações adequadas, sou esquecida, distraída. Desastrada. Difícil não desistir de mim. A verdade é que eu só tento mudar e ser mais assim. Não quero querer nada em troca, quero querer fazer o bem só por fazer.

Queria conseguir aprender as coisas antes de errar. Essa coisa de aprender errando é muito desconfortável, a gente chora angustiado toda madrugada por não ter conseguido fazer certo. Por ter perdido tanto. Nos torturando com as possibilidades. Não sei falar a fórmula secreta pra fugir da culpa, do medo ou da perda. Não sei mesmo, me conta caso já conheça porque tô precisando. Eu, que acho Cícero tão sábio com toda aquela poesia, o observo perguntar num refrão o que fazer daquela angústia. Pois é, parece que ninguém sabe bem.

Peço muitas desculpas porque acho mesmo que tenho muito pelo que me desculpar. Às vezes não tenho tanto, mas sinto que sim. É importante falar que a gente se importa. Por mim eu falaria sempre que lembrasse, mas geralmente deixo essas convenções sociais me impedirem. Ninguém gosta de quem fala demais que se importa porque aí fica parecendo que a pessoa não se importa nada, mas é que eu só não sei fazer de outro jeito. Não sei fazer melhor, pelo menos.

A vida é difícil demais. Como é que a gente quer ficar bem com amigos, família, namorada/o, com a gente mesmo, com escola, trabalho, tudo ao mesmo tempo, sem ninguém se machucar? Num tem como, não. É muito machucado no processo, muito joelho ralado e coração apertado. É pra isso que serve pedir desculpas e pra isso que serve perdoar. É pra isso que serve brigar sem motivo aparente e no final falar que não aguenta mais o clima ruim porque a pessoa significa demais pra ficar perdendo tempo com besteira. Ficar de bem é bom demais.

Gente pra manter por perto é gente que dá pra abrir a alma. Conversar sem vergonha, chorar sem medo, roncar no meio da risada, expor todas as rachaduras. Falar que tá mal, que não sabe se consegue mais, deixar de lado a armadura. As máscaras. Ouvir o apoio e receber os abraços. Medo de perder gente assim. De nunca mais conhecer gente assim. De ficar sozinha.

É isso. Só abri o papel e vomitei uns sentimentos confusos. Não muito diferente de todas as outras vezes, mas esse veio com tanta pessoalidade e sinceridade, tanto coração. Por ter escutado o que eu precisava escutar e ter me dado conta de tanto. É curioso como a gente continua aprendendo com as pessoas que significam muito pra gente mesmo depois de tanta turbulência, mágoa e erro; curioso como são essas as pessoas que mais nos fazem crescer.

Bom é quando alguém chega e escolhe ficar. Quero ser dessas que chega e escolhe ficar. Dessas cuja ausência faz diferença. Reciprocidade é algo que vale a pena.

TEMPESTADE

Nosso amor se espreme numa cama pequena enquanto o céu empurra o sol para baixo, entre as montanhas, e a lua ocupa seu espaço por direito. Perco-me na imensidão da noite depois da despedida em tons de vermelho e você me encontra num mar de cores e cheiros, dores e cortes, toques e olhares.

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A saudade que sinto e minha curiosidade seca se escondem sob seus braços quentes e justos. A sua respiração choca-se contra minha testa e se dispersa no espaço junto com os pensamentos que não sou capaz de controlar: não me arrependo de nada que não fiz e convivo bem com os demônios que eu mesma criei dentro de mim. A paz que você me proporciona entra em conflito com o caos que carrego dentro da minha mente e eu não suporto a guerra que surge no tempo-espaço.

Meu amor, a gente está sozinho no meio dessa grandeza sem fim. Não pedi para estar aqui e não há saída de emergência, sou obrigada a assistir o espetáculo até o final. Você me responde com um sorriso de melancolia e não procura me consolar. O silêncio é piedoso, mas a tempestade dentro de mim é alta e a insônia é inevitável apesar do ar quente e aconchegante que nos rodeia.

Tenho vontade de me desculpar por sentir demais, mas sentir demais não é exatamente o que me torna quem sou? E quem eu seria se eu me desculpasse por tudo que me faz ser eu? Sei que eu não devo satisfações pra ninguém, mas sou incapaz de lidar com as cobranças que eu mesma faço num ciclo tortura sem fim. As lágrimas forçam meus olhos e transbordo em minha própria existência dentro do seu abraço, querendo descansar de tudo que carrego no meu peito.

Sou o caos, sou a confusão personificada, falo demais e falo menos do que deveria, nunca sei o momento certo. O céu de outono me deixa mais sentimental do que já sou, digo, justificando o que não consigo verbalizar. Seu olhar me deixa confortável para me jogar na liberdade do choro e do soluço, sem amarras. Permito-me sofrer um pouco, sem a dor não sou ninguém, é ela que me move e alimenta minhas páginas em branco nos dias de inspiração. Meu inferno particular se acumula sem que eu perceba e eu me afogo na minha própria bagunça.

Seu contato com minha pele é o que me mantém na superfície, apesar de tudo, sua voz e sua risada são o complemento para o que falta de mim. Somos três no quarto e por um momento sinto paz: eu, você e toda a energia de tudo aquilo que não consigo falar em voz alta.