COM SABOR DE FRUTA MORDIDA

Desde o primeiro dia que percebi que eu estava apaixonada por você, sorri comigo mesma pensando que aquilo era fácil. Ter um amor assim não tem nada de incerto, não dói, não traz dúvida. Tem jeito de MPB, cantado com a voz grave da Cássia Eller que inevitavelmente transforma o tédio em melodia.
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Seu amor sempre foi completo e denso, sempre foi certeza e segurança. Sempre foi e é algo que eu penso que posso fazer pelo resto da vida, não cansa, não faz com que eu me sinta como se estivesse rasgando minha própria pele de dentro pra fora.

Isso me surpreende porque é diferente de todos os outros amores que passaram por mim. O seu é calmaria e saúde, me traz paz, me faz passar bem. Seu amor é cuidado, sabe? É o que me faz querer me alimentar melhor e ter uma boa rotina de sono. Não é a insônia torturante, a incerteza e o receio, a urgência, a correria. Seu amor é mais como atravessar um rio em uma canoa no amanhecer de uma quarta-feira enquanto todos os outros eram correr pela Paulista com o medo constante de morrer com o impacto de um ônibus acima do limite de velocidade.

Deve ser por isso que eu chorei quando saí da sua casa e percebi que eu já tinha me doado. Chorei porque achei algo lindo. Porque o começo daquilo tudo era tão suave e gentil que eu tinha medo de deixar cair e quebrar. Porque você é a pessoa mais adorável desse universo e eu não conseguia acreditar que numa infinidade de mundos e tempos a gente conseguiu se esbarrar nessa vida.

O que mais me faz sorrir é saber que você sabe quando ser tempestade e quando deve ser garoa. Sabe quando carregar nossos silêncios num abraço e quando deve falar. Sabe ser a calmaria do meu drama, a solução quando eu só consigo ver o problema, sabe a hora de um olhar.

Você é companhia de todos os momentos, seja carnaval ou qualquer domingo ruim.

 

AQUELE SAMBA

pandeiro
Carnaval passou e com ele todo o barulho, euforia e calor. O silêncio que me dava paz ultimamente apenas me agride, o escuro onde eu me confortava agora é refúgio pro choro que não consigo engolir. Sinto falta da festa, da música, de poder dançar livre pelas avenidas.

A bagunça de lá nem se compara com a bagunça daqui de dentro. De hoje. O samba de lá não dá nota por aqui. Por aqui é ausência e só. De muito, mas não de tudo, puro caos. Sei que sinto, são sei o quê ou por quê. Não sei das causas e consequências. A coragem não bateu, te vejo de longe.

Talvez eu sinta falta mesmo é do barulho de distração que me afastava do fato de eu já estar meio longe de tudo. Talvez eu sinta falta de quando a poesia não vinha fácil: a arte só vem quando a vida pesa em desequilíbrio.

Ando meio exausta de tentar falar o que nunca parece ser devidamente transmitido por palavras. Quietude. Nem gosto de admitir que na verdade carnaval é só mais uma metáfora pro que foi, mas nesse caso, não volta ano que vem.