AQUELE SÁBADO A TARDE

Você me causa uma ansiedade e antecipação absurda, louca pro dia passar e eu te ver, pros minutos deslizarem sem esforço entre meus dedos, pro sol baixar e eu sair a pé pela cidade sabendo que vou te encontrar no destino final.

Você me causa um frenesi estomacal com essa sua presença concreta, tão aqui, tão assim. Com toda sua imposição de atitude, todo seu toque sem disfarce, explícito, sem vergonha: gosto disso, gosto da maneira com que você fala tudo sem ignorar qualquer gesto que tente parecer casual, mas que você faz questão de notar e transparecer todo o significado. Eu gosto da tua clareza e da tua sinceridade.

Você me causa uma saudade quente que sobe pela minha garganta e transborda num sorriso frouxo toda vez que te vejo ir embora, já com uma vontade meio sem graça de te ligar perguntando quando a gente vai se ver de novo. Revivendo os últimos minutos em câmera lenta pra poder fixar todos os detalhes.

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Hoje eu te vi e você tava tão linda. Enquanto você falava, tudo que eu conseguia pensar era que você é bonita demais e no quanto eu queria te beijar. Não beijei; pelo menos, não naquele exato momento, adoro te ouvir falar e não queria interromper seu raciocínio. Estar com você é uma coisa muito louca e maravilhosa, seu jeito de terminar frases sempre me surpreende e me arranca qualquer risada.

Eu amo seus beijos. Amo mesmo. Poderia passar o resto da vida te beijando, mas gosto das pausas que te dão tempo para falar (eu também poderia passar o resto da vida te escutando. Um equilíbrio entre beijar e te ouvir falar pro resto da eternidade seria sensacional). Seus dedos bagunçando meu cabelo, seu jeito de interromper qualquer frase minha colando os lábios nos meus, teu cheiro, teu aperto, teu sufoco.

Só de me lembrar da tarde de hoje e disso tudo acontecendo eu já sinto as borboletas aqui dentro se movimentarem em euforia. Me avisa se chegou em casa bem e me diz logo quando posso passar por aí pra te ver de novo. Da próxima vez, vou deixar essa cortesia boba de lado e te cumprimentar logo com um beijo na boca.

VERMELHO

Esse vermelho teu é o que me mata. É o que sobe nas minhas veias e me faz sofrer como se minha carne estivesse sendo rasgada de dentro pra fora. Esse teu vermelho é o tom do meu prazer e o que colore a data marcada do meu sacrifício.

Fundo-Vermelho
Leio seu nome e meu estômago revira, falo em voz alta e minha garganta queima; você é um anjo caído que ri ao lembrar-se da queda do paraíso. As vontades que você desperta em mim são impensáveis, viscerais e primitivas. Vê se pode, chega assim de repente e já se apropria, sendo motivo das minhas insônias e dos meus textos do meio da madrugada. Pouco meus e tão seus, te pertencem, são resultado do que você trouxe consigo quando se instalou por aqui sem pedir permissão, seus lábios vermelhos assim como seu sangue, assim como seu beijo, seu toque e sua alma.

Esse teu sabor é o que me enlouquece só de estar presente na lembrança. Seu jeito tão terreno e territorial, essa poesia suja e urbana que sai da sua boca toda vez que você resolve compartilhar com o resto do mundo teus pensamentos caóticos. Você é arte, ausência de luz, de cor, mas arte por si só, só por ser.

Quando você me olha assim, rindo enquanto Esteban grita meu nome, meio distante, a música baixa comparada ao seu tom absurdamente dominante em todo o ambiente, eu perco o controle, perco todos os motivos que eu tinha para me afastar e que agora não me parecem coerentes. Nada me parece coerente quando você me olha e de fato me enxerga, o mundo se contorce ao redor, a vida fica desfocada.

Já tentei de tudo e você sempre se mostra inevitável, quase programada para se acidentar em mim de novo. Tão passado e novamente, presente. Me confundo em seus tempos verbais.

Ah, o teu vermelho é o que me dói. É o que me dói por me lembrar que a efemeridade é parte do que você é, do que somos. Somos? Não; nem poderemos ser.

Quando deito na cama de solteiro que ainda guarda teu cheiro vermelho da última vez que você foi presente e encaro as paredes ao meu redor que possuem a mesma cor, a primeira coisa de que lembro são teus olhos. Não vermelhos; castanhos, quase negros de tão escuros. Eles me matam também, mas só porque transmitem a vermelhidão do teu calor e do teu jeito de me olhar, intensa.