N’OUTRO DIA VI UM BARCO

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Pela janela lateral
n’outro dia vi um barco
domando as ondas
não
não domando
era como se o barco soubesse
do poder que as ondas têm
e as ondas soubessem
da coragem que o barco tem
só por se jogar ali,
naquele imenso azul
e parecer gostar muito.
Me lembrou você
que um dia trouxe até mim
todo esse amor atlântico
que leva consigo por todas as partes.
Essa força oceânica
vulcânica
terrena
de saber da tempestade que se forma
e olhar pro céu,
sorrindo.
É nos seus olhos, mulher
esses mesmos que
desafiam as nuvens
que entendo
percebo
me transbordo inteira
me permito ser mar
ser mais
pacífica
índica
quase mediterrânea
consciente de toda água
que carrego em mim:
a mesma que carrega o barco
que n’outro dia vi
pela janela lateral.

O BARCO

-Eu acho que sou um barco.

Já eram duas da madrugada e minha cabeça estava enevoada quando ela soltou a sentença. Me pareceu quase um veredito, uma conclusão bruta e fatal. Não respondi, até porque eu não tinha nada a acrescentar, ela tinha dito em voz alta e agora nada poderia desfazer o que havia sido verbalizado.

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Pensei em coisas mundanas. Pensei em como eu me sentia em longas viagens de carro com o vento batendo no meu rosto, frio. Pensei no jeito que ela organizava o raciocínio quando contava alguma história e em como eu organizaria de uma forma completamente diferente. Pensei no formigamento que ficava nos pés depois que a onda voltava ao mar, sem fugir do próprio ciclo. E pensei em como tudo aquilo é passageiro e irrelevante, dado o tempo que passamos nesse mundo e as tantas coisas sobre as quais não temos o menor controle.

Algumas coisas são mais efêmeras que outras, é fato. E é fato também que é um clichê cansativo falar sobre a mortalidade de tudo e toda aquela história de carpe diem. O que, na minha opinião, é uma ilusão bem grande, porque eu não conheci uma só pessoa que conseguiu atingir o cobiçado nível de desapego material e emocional sobre todas as coisas ao redor. Somos humanos, afinal. Não entendemos muito bem o conceito de liberdade, que ninguém nunca conseguiu realmente conceituar, e talvez sejamos tão apegados a tudo justamente por causa da nossa curiosidade incansável e dessa mania de dar nome ao que existe. Não é esse o motivo de tanto incômodo? O desconhecido que, na realidade, já conhecemos e sentimos mas não sabemos exatamente como denominar? A gente não saberia ser livre nem se pudéssemos.

“A permanência é evitável”. Li numa exposição. Demorei umas semanas pra entender porque no exato momento em que vi a frase, não me preocupei em interpretá-la. Ficou no fundo do meu cérebro, inútil e sem importância, até que passou a fazer sentido, e aí não tem como mais voltar. A permanência é evitável enquanto a partida é certeza e estamos todos fadados a isso. Há quem seja porto, há quem seja barco; presenciamos a despedida de qualquer maneira. Não é necessariamente ruim, mas também não é apenas questão de costume porque não tem como se acostumar com esse tipo de coisa. É uma dessas coisas na vida que sempre vão nos pegar de surpresa, mesmo que passemos meses tentando nos preparar, dessas que causam um vazio e uma falta de ar, quase o mesmo efeito que um chute no estômago.

Olhei pra ela pela primeira vez em horas. Os olhos fechados e o ar pacífico, a calmaria no meio da tempestade, uma feição que eu jamais conseguiria reproduzir ou descrever em qualquer arte. Então ela era um barco. Eu sorri ao contemplar a verdade e pensei de novo em todas as órbitas dos planetas e o rumo que as coisas tomavam sem pedir a opinião de ninguém. Senti lá no fundo alguma coisa paradoxal que ainda não consegui decifrar, alguma coisa sobre o incômodo de perceber que eu não tenho mesmo o controle de nada. Tentei sentir paz e venho tentando porque é isso que todos buscam. Talvez a busca seja o erro, mas ainda não descobri.

É isso que faz tudo funcionar, no fim das contas. A vontade de chegar a algum lugar.