DIAS NUBLADOS

Já é o quarto dia seguido que o tempo está nublado. Eu amo dias nublados: fico nostálgica, leve, feliz, me sinto melhor. Sempre foi o meu tipo de dia preferido e duvido que algum dia deixe de ser.

Ontem, pra variar, eu estava escutando algumas músicas que eu costumava escutar há uns três anos. Coloquei uma playlist antiga pra tocar sem medo, deitei olhando para o teto e deixei que a música me invadisse junto com a nostalgia e com todos os sentimentos que aquelas notas musicais específicas traziam. Pensei em como tanta coisa mudou desde o tempo que deixar de escutar aquelas músicas por um dia era quase um pecado. Nas coisas pequenas e nas grandiosas: comecei a gostar de comida japonesa e de açaí, conheci outro país, viajei com amigos, conheci novas bandas, novas pessoas, novos lugares, aprendi conceitos que eu nunca tinha ouvido falar antes, entendi um pouco mais de política, comecei a ler sobre assuntos que antes não me interessavam, me aproximei de pessoas que me fazem bem, me afastei de outras sem querer, observei meus amigos entrarem e saírem de relacionamentos, me apaixonei umas oito vezes (nenhuma delas deu muito certo, mas isso também depende do que é considerado “dar certo”), passei a ter outro ponto de vista sobre certos assuntos, comecei a escrever dois textos por semana, superei alguns medos e criei outros.

Ri sozinha lembrando de algumas coisas, mas essas mesmas lembranças apertaram meu coração e terminei chorando e querendo reviver tudo aquilo. Lembrei dele e de tudo que sentíamos, de como era bonito, de como era tão suave, puro, de como ele me fez crescer. Lembrei de todas as festas, as noites em claro, de todas as novidades, de todos os choros, de todos os casos, as vergonhas, os orgulhos. Não sinto falta, exatamente, das pessoas, mas sim das memórias. Lembrei de como eu me preocupava por tão pouco e pensei se daqui uns anos eu também olharei para trás e lembrarei de como tudo era mais fácil.

A tendência é essa, ficar mais difícil? Até agora, não consegui definir nenhum padrão para a vida. Altos e baixos inconstantes que não seguem regra alguma, mas acho que é assim mesmo, sem lei. A vida não é definida por uma equação matemática. Tenho que aprender a gostar dessa inconsistência que é viver, essa ideia de não ter certeza de nada.

Nos últimos meses me peguei sentindo algumas coisas que eu nunca imaginei que sentiria. Me peguei aprendendo algumas coisas que, se eu tivesse aprendido antes, evitaria muito problema. Às vezes, eu olho pro céu e penso em tudo isso que guardo dentro de mim. Tudo que nunca foi falado, nunca foi escrito… E deveria ser? Estou saindo da minha zona de conforto lentamente e tudo parece tão novo. Esquisito. Em todos os sentidos, em todas as esferas. Queria ter menos medo. De publicar, de me lançar, de falar (gritar, berrar!), de sentir.

Hoje em dia é tudo um mistério, uma névoa, a dúvida que chega a cada manhã, a euforia de cada madrugada, o estômago revirando, toda a carga, o silêncio, o sigilo, a impossibilidade. Quero gritar, mas só grito por dentro; tenho sede por mais, mas o que tenho é o que me alimenta todos os dias. Aceito.

Disso tudo, concluí algumas coisas. Dentre elas: eu adoro estar apaixonada. Apesar de tudo ou por causa de tudo. É a coisa mais bonita do mundo: amar sem esperar nada em troca, só sentir, sentir, sentir, transbordar dentro de si. Sobre Deus eu tenho minhas dúvidas, mas no amor eu acredito. Acima de qualquer coisa.

CONFISSÃO

Sempre li textos e ouvi pessoas que falavam que o amor não é uma escolha e que a gente não decide por quem a gente se atrai ou por quem vamos nos apaixonar. Cada um nasce de um jeito e é daquele jeito que somos e ponto final, sem discussão: a gente aprende a viver com aquilo, aceitamos nossa própria identidade e caso necessário lutamos por nossos direitos e pelo que somos.

Há alguns anos, comecei a perceber. Eu era diferente, de alguma forma, só não sabia como. Não sabia nem mesmo o que tinha de errado, impossível saber então como solucionar o suposto problema. Deixei pra lá, ignorei por um tempo, mas mais tarde descobri que é impossível fugir do que a gente é.

O que eu sentia retornou como um velho amigo que resolveu deixar claro que ainda existia e que queria manter contato. Dessa vez não teve jeito, eu era vítima de mim mesma e não tive como inventar desculpas para adiar ainda mais. Minha consciência bateu na porta avisando que o que eu achava que era visita e novidade era apenas uma coisa velha, muito minha, que estava aqui dentro desde o momento que me materializei como ser vivo. Sem escolha, percebi que eu finalmente havia vindo à tona como realmente sou.

Aceitei calada, o que mais eu poderia fazer? Se nasci assim, não posso mudar. E não vou. Não pretendo. Me assumi, me rendi e me acostumei com a ideia; fiquei satisfeita e feliz depois de algum tempo digerindo a informação. E foi a partir desse ponto que comecei a me apaixonar.

O sentimento não veio de uma vez só, sem avisar: foi chegando aos poucos, cuidadosamente, quase carinhoso. Era como se aquilo dialogasse comigo e avisasse toda noite que estava chegando perto, que logo ia me preencher por inteiro e aí a guerra estava perdida. Nem hesitei, a sensação era tão boa que deixei entrar, me invadir, me possuir. Me entreguei completamente, sem medo de ser quem sou, assumindo toda a responsabilidade pelo que viria a seguir.

Não quero ser esnobe, mas era uma paixão sensacional. Tão forte que nem demorou muito pra se estabelecer e passar a chamar amor. Amor mesmo, de verdade, com A maiúsculo e tudo: intenso. Confiante. Profundo e insano. Inexplicável, sem tradução. Uma coisa de outro mundo. Minha família demorou um pouco para aceitar por completo, mas hoje em dia incentiva de todas as maneiras. Aceitam que ela já faz parte de mim. Que somos uma pessoa só. Que não há como lutar contra isso, não há mais volta.

Não posso ser clichê e falar que sou a mulher mais feliz do mundo e que temos um relacionamento perfeito. É algo conturbado e barulhento, mas incrivelmente grandioso. Eu a amo por inteiro. Sem exceções. Ela, a mulher da minha vida, a dona da minha alma e do meu coração: a poesia.

ANTES DE QUALQUER COISA,

Isto não é uma declaração de amor.

Fonte: Tumblr

Não é. Eu não escrevo declarações de amor. São superestimadas, melosas e cheias de clichês. Não sei escrever sobre clichês. Vamos direto ao ponto:

Você é um daqueles tipos de pessoa. Um daqueles tipos que ri da chuva, que dá bom dia pra qualquer um, que luta por causas perdidas. Você é natural, gosta de ser e ponto: você e nada mais, nada menos. Nada de rotinas ou métodos, perfeccionismos, controle, preparação: você é puro improviso, puro amor por tudo que há e por tudo que foi. Seus olhos ilustram a revolução, a insatisfação, a sede por mais. Nada planejado, nada forjado, forçado, implantado: quem pergunta recebe a resposta pensada no momento, rápida no gatilho, olhar feroz e voz pacífica.

Nunca gostei de pessoas assim: primeiro, o metodismo é parte de mim. As listas enumeradas (que você odeia), os horários perfeitos, a necessidade por algo linear, por algo que tenha sentido. “As coisas nem sempre fazem sentido”, você dizia, “às vezes, o sentido é desnecessário”. Nunca te entendi. Não te entendo. Como devo aceitar que as coisas não são como são? Elas são! São sim! E você não discutia, dizia que são mesmo, mas que não deveriam ser. E que eu deveria perceber isso, ver o mundo do jeito que eu queria que ele fosse, e não do jeito que ele realmente é. “Mas o mundo é este e ponto”, eu insistia, e você ria da minha mania de exatidão.

Nunca fiz nada fora do comum, enquanto, para você, o comum era ausente, chato, sinônimo de tédio. Seus ideais e suas ideias, tão amplos, tão novos; afinal, você é daqui mesmo? De onde você veio? Onde esteve por todo esse tempo?

Ressaltando o fato de que isto não é nem passa perto de ser uma declaração de amor, prossigo: nunca mais fui a mesma pessoa desde que você acidentalmente estabeleceu-se em mim. Fez com que eu me sentisse um cego que, de repente, começa a enxergar. Você me fez ver o mundo de um jeito diferente, inesperado, bonito. O preto e branco encheu-se de cor, o cotidiano encheu-se de som, eu me enchi de vida. Percebi que, quando as coisas insistem em desmoronar, elas estão desmoronando para se encaixar no lugar onde deveriam estar desde o início. Passei a andar sem sapatos na trajetória da minha existência, a dançar mesmo sem música, a admirar os pequenos detalhes.

Isto não é uma declaração de amor. É uma carta de agradecimento. Você me livrou dos meus antigos hábitos, meus antigos conceitos, minha antiga forma quadrada que tinha função apenas de ocupar espaço. Você expandiu minha perspectiva de vida, me fez ver possibilidades onde antes só existiam portas fechadas, me fez crescer em poucos anos o que eu nunca havia crescido em todos os anos anteriores. Você me fez ser, finalmente, protagonista.

A cicatriz que você deixou serve para me lembrar de quem fui e de quem sou e tudo que me trouxe até aqui. Não incomoda, não assusta, não é feia. Acho bonita, até.

De qualquer forma, agradeço.

Por tudo.

TUDO QUE SOU, TUDO QUE TENHO

Os anos passam sem fazer barulho, sem perturbação, numa quietude absurda que nos impede de perceber a corrida infinita do tempo. Os segundos são impacientes e não nos perguntam se precisamos de uma pausa, um momento para processar tudo que está acontecendo e recuperar o fôlego.

Fonte: https://jesleen92.wordpress.com/2012/04/20/she-went-quietly/

Estamos sentados no terraço olhando o nascer do sol num silêncio que está longe de ser desconfortável. O momento é extraordinário por si só, a energia que alimenta o ambiente me faz sorrir de uma maneira quase infantil: fico feliz de estar vivendo minha juventude de uma maneira selvagem e sincera, como deveria ser. Não demoramos a voltar a falar e a confusão que se faz quando uma voz sobrepõe a outra é natural e faz com que eu me sinta em casa.

Na minha memória, os momentos são incontáveis. Os quilômetros corridos regados pelo vento frio no rosto e as músicas mais altas que o barulho do motor, a dança entre as luzes e as multidões, os abraços sinceros em qualquer hora do dia, as conversas alongadas até as oito da manhã do dia seguinte, os jogos, as risadas, os choros, os cafunés e as verdades cruas. Já são anos com as mesmas pessoas que fazem a rotina esgotante valer a pena, que fazem cada dia ficar mais leve e suportável, que fazem cada minuto ser mais agradável. A liberdade, a honestidade, a abertura para falar o que quer que seja com a garantia do respeito mútuo e da compreensão: tudo é tão simples e nu, tão extraordinariamente livre.

Lado a lado, compartilhando o êxtase e a dor, o sofrimento de cada um arde como se fosse o de nós mesmos. Empatia, compaixão: se isso não é exatamente o que caracteriza uma família, estamos perdidos num mundo onde os conceitos devem ser revistos. Escolhemos uns aos outros porque nos completamos, porque temos algo a ensinar e tudo a aprender, porque somos humanos e precisamos nos apoiar naqueles que escolheram ficar.

A família que escolhi me aceita, me conforta, me acolhe e enxuga meu sentimento que transborda. Construo-me através deles e ajudo a construí-los, somos partes de um todo verdadeiro, cada pedaço essencial, coexistimos em alma e corpo. Temos a plena consciência da importância do sentimento que estruturamos durante esses anos, da grandiosidade que atingimos: sou grata por todo o aprendizado.

Sei que todos esses momentos serão memórias um dia, histórias para contar para os filhos e netos. Sei que os dias e as noites passarão, que a vida levará cada um para um caminho próprio e diferente, destinos distantes e diversos. Estar perto, no entanto, não é apenas físico; o sentimento continuará vivo dentro de mim independente da distância em quilômetros que me separa daqueles que me fizeram crescer e ser quem sou. Família, tanto de sangue quanto de alma, é um pedaço de mim que nunca será arrancado: todo o apoio, a ajuda e a presença sentimental são eternos, imutáveis. Foi essa família que me mostrou tudo que é e me ensinou sobre tudo que há: juntos, vimos e vivemos esse mundo como irmãos que brigam e amam simplesmente porque é algo intuitivo, marcado em nós.

Para deixar claro: Em qualquer momento da vida, onde quer que seja, em qualquer estrada; ainda estaremos juntos em espírito e todas as memórias serão meu combustível para prosseguir na caminhada.