PRIMÁRIO

Dia desses decidi passar na praia, em plena terça-feira, seis da tarde, o mundo gritando e eu só querendo silêncio. Sentei na areia e afundei meus dedos entre aquelas pedras minúsculas, sentindo as ondas indo e vindo, molhando meus pés e logo os deixando em paz. Daí pensei em você. Não como penso cotidianamente, nas pequenas coisas, de um jeito que já se tornou rotina. Pensei em você.

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Ficar ao seu lado é como observar o oceano. Essa calma toda de ouvir e enxergar o vem e vai. Ficar te olhando dá o mesmo sentimento de maresia e eu me distraio, me perco nas suas linhas. O gosto da sua pele salgada também me lembra praia. E esse teu cheiro litoral… Dá vontade de me afogar no espaço em branco entre seu ombro e seu pescoço. 

Estar com você é uma viagem em alto-mar. O silêncio misturado ao nosso som, o azul ao redor. Monocromático e ondulatório. Pacífico. No entanto, é paradoxal. Enquanto eu te observo, tudo é paz, calma e cuidado, mas no minuto que seu olhar encontra o meu, soma-se a isso o redemoinho que se instala no meu estômago e os arrepios que me percorrem por inteiro. É aí que entra o vermelho, que o fogo encontra a água sem ser anulado, coexistindo em alguma realidade que você cria quando está por perto, onde o impossível ocorre com certa frequência e normalidade.

Toda essa intensidade cuidadosa é como eu estava dizendo antes, sobre viajar em alto-mar. É como olhar para toda aquela imensidão azul e saber do que é capaz de fazer. Está ali, em quietude, mas carrega tanta fúria e força, tanto poder em repouso. E é isso que me faz querer fugir, e é isso que me faz querer ficar…

Aqui, sentada, olhando a imensidão que se estende diante de mim, lembrei de outra vez que pensei em você com tamanha intensidade que consegui sentir sua presença ao meu lado. Ao contrário de agora, naquele dia, eu não poderia estar mais continental. Numa estrada que parecia um desenho infantil, tudo plano ao redor, o céu muito azul e campos e campos de girassóis que tocavam a linha do horizonte. Tudo que eu via era amarelo. Minha mente foi tomada por você de imediato. E, agora, acaba de me ocorrer que você marcou a ferro ardente todas as cores primárias com um pedaço teu.

Esse amor todo que eu sinto, toda a explosão multicor que se faz presente em meu peito, é só resultado de cada pequena pincelada que aos poucos você foi deixando por aqui…

EM ALGUMA OUTRA GALÁXIA DISTANTE

Se estivéssemos em alguma outra galáxia distante, eu te convidaria, entre um jantar e outro, para ser protagonista dos meus contos de romance que eu traço e rabisco nas noites de terça. Você certamente riria e eu ficaria sem graça, mas, estando em uma galáxia distante, você me diria que poderia pensar no caso.
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Em um tom místico, eu contaria alguma história sobre os meus ex-amores e você desviaria o olhar, lentamente. Diria para irmos para casa mesmo sabendo que lar não é um conceito concreto e eu, em silêncio, ponderaria suas intenções. A ideia de te ver dançando pelo quarto pareceria inalcançável, em contrapartida, lá estaria você, sorrindo em perversão. Nesse mundo, quando falo sobre mulheres, tudo começa em um dia nublado na grama de uma praça e tudo termina em cheiros e memórias impregnados em meus lençóis. Penso que, em qualquer outra galáxia, as coisas talvez comecem em restaurantes.

Eu sentiria seus olhos queimando os meus, um ardor capaz de transformar o subjuntivo em indicativo. Nessa minha galáxia distante, a gramática seria uma certeza ainda menos estática, insuficiente. Eu deixaria com que ardêssemos por algum tempo e numa fração de segundo todas as frases e toques e beijos e efeitos sonoros e frios no estômago e silêncios aconteceriam ao mesmo tempo.

No final, eu nos apagaria num sopro de realidade. Por aqui, as coisas não podem e nem devem começar em restaurantes e nenhum dos diálogos idealizados tem permissão para se concretizar. Nossa reciprocidade é insuficiente quando tenta contra-argumentar o fato de termos cromossomos iguais. Tudo permanece no não dito, no pensado, porque apenas em alguma outra galáxia distante nos é permitido amar.

Tudo acaba escrito nas folhas em branco de qualquer diário.

COM SABOR DE FRUTA MORDIDA

Desde o primeiro dia que percebi que eu estava apaixonada por você, sorri comigo mesma pensando que aquilo era fácil. Ter um amor assim não tem nada de incerto, não dói, não traz dúvida. Tem jeito de MPB, cantado com a voz grave da Cássia Eller que inevitavelmente transforma o tédio em melodia.
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Seu amor sempre foi completo e denso, sempre foi certeza e segurança. Sempre foi e é algo que eu penso que posso fazer pelo resto da vida, não cansa, não faz com que eu me sinta como se estivesse rasgando minha própria pele de dentro pra fora.

Isso me surpreende porque é diferente de todos os outros amores que passaram por mim. O seu é calmaria e saúde, me traz paz, me faz passar bem. Seu amor é cuidado, sabe? É o que me faz querer me alimentar melhor e ter uma boa rotina de sono. Não é a insônia torturante, a incerteza e o receio, a urgência, a correria. Seu amor é mais como atravessar um rio em uma canoa no amanhecer de uma quarta-feira enquanto todos os outros eram correr pela Paulista com o medo constante de morrer com o impacto de um ônibus acima do limite de velocidade.

Deve ser por isso que eu chorei quando saí da sua casa e percebi que eu já tinha me doado. Chorei porque achei algo lindo. Porque o começo daquilo tudo era tão suave e gentil que eu tinha medo de deixar cair e quebrar. Porque você é a pessoa mais adorável desse universo e eu não conseguia acreditar que numa infinidade de mundos e tempos a gente conseguiu se esbarrar nessa vida.

O que mais me faz sorrir é saber que você sabe quando ser tempestade e quando deve ser garoa. Sabe quando carregar nossos silêncios num abraço e quando deve falar. Sabe ser a calmaria do meu drama, a solução quando eu só consigo ver o problema, sabe a hora de um olhar.

Você é companhia de todos os momentos, seja carnaval ou qualquer domingo ruim.

 

DAS TANTAS COISAS QUE TENHO PRA TE DIZER

Eu tô te gostando muito.

Tô gostando muito de todos os segredos contados em tom casual e de todas as tardes de segunda que a gente passa olhando o céu azul e ignorando a rotina. Desses domingos de fim de mundo quando um abraço seu coloca tudo de volta no lugar; não o meu lugar, nem o seu, apenas algum outro lugar diferente de onde tudo estava antes. Engraçado esse teu senso de direção tão certo no meio dos meus hábitos tão sem norte, você ri das minhas frases perdidas e das bobagens com as quais me preocupo e de repente eu tô rindo de mim mesma também.

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Em noites como esta, fico pensando em como tudo se fazia antes de você chegar e gosto da sequência de acontecimentos que fez com que nossas vidas se encontrassem naquela praça e em todos os outros lugares que nos deixamos estar. No verão eu era chuva, eu era a falta, eu era o medo. É inverno e eu continuo sendo dúvida, mas veio o outono e com ele veio você e com você veio a calmaria, a perspectiva leve, a vontade de fazer planos a longo prazo, a gentileza. Veio isso tudo e você sabe bem que demorei uns meses pra perceber e a percepção foi bruta e imediata, marcou minhas roupas junto com tuas lágrimas naquela sexta, foi nesse dia que o mundo caiu. Ou se ergueu.

Você me ensinou de novo tanta coisa e eu sinto que poderia te escrever um livro; pena você não gostar de ler. Deixo um pouco de mim em cada bilhete que te entrego, desses mesmo que parecem não significar nada demais, mas eu e você sabemos que transborda significado, igual aquela manhã em que andamos o bairro inteiro e falamos sobre nada de importante mas todos aqueles minutos importaram tanto.

Acho que nunca conseguirei te falar tudo que quero, tudo que eu acho que você deva saber, todas as confissões e os segredos de tudo que você me causou e de como sou grata por essas causas e consequências. E por mais que eu sinta urgência em sentir, ando tentando controlar essa ansiedade e pressa tanta, deixar vir o tempo e me preocupar apenas com o agora, com todos esses momentos exatos. O momento exato em que você me conta sobre algum prato preferido e eu, imediatamente, decido que vou aprender a cozinhar, ou o momento exato em que você cai no sono vendo algum filme e segurando a minha mão, ou o momento exato em que você me olha nos olhos logo depois de me dar um beijo e eu sinto todo esse amor imenso e te observo transformar-se em poesia bem na minha frente.

É durante esses momentos exatos que eu desejo em segredo que o agora ainda dure tanto, que seja como o oceano e se estenda até onde a vista não alcança, e talvez nessas esperanças de tentar te eternizar em natureza é quando eu decido te confessar em prosa que te amo sem te dizer isso explicitamente, como se ainda fosse possível disfarçar.

CARTA SOBRE, POR, PARA

Meu bem, você me fez questionar muito, mas nem tudo. Não se iluda: todos os meus últimos amores me fazem questionar se os anteriores se tratavam realmente de amor. Você não foi minha primeira pessoa nem vai ser minha última, mas, na sua condição de uma delas, permanece sendo parte. Uma grande parte, talvez, maior do que eu gostaria de admitir.

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Eu tô vivendo no presente, mas só fico no passado, minha mente lá em você e todas as minhas suposições para um futuro próximo me perturbando nas noites de insônia. E se tudo que eu falo é sobre você, pra você ou por você, nada mais justo que você ter consciência disso. Acorda: eu tenho autoestima o suficiente pra dizer que eu valho a pena, que eu me entrego, que eu me dedico, que eu me rendo. E que eu posso te proporcionar um milhão de experiências, de inspiração e de histórias pra contar. E por agora eu me permito, eu me disponho, mas se eu já sou corajosa a ponto de admitir cada sentimento, você deveria ter coragem o suficiente para fazer algo sobre.

Eu tô cansada de ser refém: sua e de mim mesma. Daqui a pouco libero as algemas, a chance passa (a vida também) e tudo isso vai se concretizar, finalmente, apenas na forma de “e se”. Inacabado. E eu morro de agonia de coisas que nunca terminei, você sabe. É uma angústia que se instala no fundo da garganta e demora um tempo pra passar, mas eventualmente passa. Ô se passa. O mundo gira e tudo sempre passa (tento focar nisso pra não desabar).

Aproveita, meu amor, enquanto eu tô aqui por sua conta, pronta pra tentar, pra ter um pouco de diversão no meio dessa rotina pesada. O mundo é imenso e eu tô só te esperando pra vir comigo porque eu sei que a companhia não poderia ser melhor. Eu sei, cê sabe que eu sempre volto, mas talvez da próxima vez talvez eu não volte sendo a mesma pessoa. Tô te esperando.

POR MAIS ARMÁRIOS VAZIOS

Hoje, não trago um texto muito literário. Venho com algumas considerações:

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Sempre escrevi para mim mesma. Nenhuma das minhas palavras é para agradar ninguém além do meu próprio ser, que precisa transbordar em prosa e verso para que eu não me afogue em minha existência. A não ser, é claro, quando me abstenho dessa necessidade egoísta e resolvo dedicar qualquer rabisco a alguém que eu sinta vontade (nem assim, no entanto, deixo de ser sincera. Não sei mentir pro papel e nem quero aprender).

Sempre gostei de escrever utilizando pronomes femininos. Sou louca pelo “ela”, “dela”, enfim. Gosto dos meus textos escritos dessa forma. Para elas. Por elas. Sobre elas. É um gosto antigo, não sei explicar: é assim desde que abracei meu amor pela escrita.

Por último, sempre gostei de escrever sobre sentimentos, no geral. Adoro inventar qualquer romance, seja de forma totalmente fictícia e inventada ou baseada em qualquer experiência pessoal.

Ter o comprometimento de publicar toda semana exige certa produtividade constante. Mantenho-me escrevendo em todo tempo livre, sobre tudo que me interessa, tudo que me faz sentir. Expor meus textos sempre foi um ato de coragem: como eu disse, eu não minto pro papel. Expor meus textos é sinônimo de expor minhas verdades – ou pelo menos deveria ser.

Há meses, antes de publicar, modifico alguns textos para retirar os pronomes femininos que foram colocados (ou para trocá-los por pronomes masculinos) e faço de tudo para manter qualquer texto romântico dentro de um padrão de relação heterossexual. Faço isso por medo do que terei que escutar por ser uma mulher escrevendo sobre outra, faço isso por medo do que terei que escutar por retratar cotidianamente indivíduos do mesmo sexo que se amam.

Ando sendo incoerente comigo mesma. Se nunca escrevi dentro das exigências de ninguém, se o papel em branco sempre foi meu confessionário, por que devo, então, me autocensurar quanto a algo que tanto defendo?

Hoje, eu trouxe um aviso. Não mudarei pronomes, não me impedirei de escrever sobre o amor em geral porque ele existe, sim, em outras formas além do modelo tradicional. A censura, o silenciamento e o medo são formas de diminuir não apenas as coisas em que acredito, mas também quem sou. Representatividade literária é importante e, mesmo que em pequenas doses, posso contribuir com isso – e o farei.

Dia 17 de maio foi o dia internacional da luta contra a LGBTfobia e me fez pensar um pouco sobre tudo isso. Voltemos à sinceridade habitual: eles com elas, eles com eles, elas com elas. Com quem houver sentimento e reciprocidade.