CONVERSA DE VÓ

-Ah, engole esse medo. Senta um pouco no escuro, menino. Vai pensar na vida, entendeu? Pensar mesmo. No que você quer viver. Nas pessoas que conheceu e no que elas te ensinaram. Teve uma vez no ônibus que a menina do meu lado tava me dizendo como é que se lê poesia. Eu te contei que sempre gostei de ouvir poesia? Acho que é dom, ou você nasce sabendo ou não sabe. Eu nunca soube, não. Mas ela até que tentou me ensinar. Leu uma pra mim, falava sobre flores mortas. Era uma coisa bonita e você me conhece, pra falar que é bonito eu tenho que achar bonito mesmo. Mas é isso, menino. Presta atenção, entendeu? Nas coisas ao redor. Nos caminhos, nas árvores, nas pessoas que te esbarram na rua. Elas carregam muita história. Tenta compartilhar a bagagem, isso enriquece a gente e até faz bem pra memória. Minha memória já tá ficando um pouco ruim, não consigo me lembrar muito bem da aparência das coisas. Isso é triste, não lembrar de como era o lugar de onde a gente veio ou o rosto das pessoas que já fizeram parte da nossa vida. Ah, tira foto. Muita foto, menino, depois revela e guarda numa gaveta. Eu queria saber pintar só pra pintar todas as coisas que eu já vi. Foi muita coisa boa e muita coisa ruim. Dá pra ter muito dos dois lados, acho que um dia você vai saber do que eu tô falando. Mas não agora, tá cedo demais. Mas tá tarde também. Não sei, não, o tempo é tão cruel quanto o mundo, menino.

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-Se eu queria que fosse diferente? Eu não queria nada. Eu acho assim, ó: eu fui do jeito que fui. Você é que tem que ser melhor porque é pra isso que a gente faz filho, faz neto, né? Não concorda com tudo que eu falo e nem escuta muito conselho. Eu falo é muita bobagem. Mas é que é tão pouco tempo e tanta coisa, tanta coisa! Queria eu poder te ensinar todas. Mas a gente é teimoso, só descobre sozinho, não adianta… Você vai descobrir que a tristeza é importante, menino. A solidão também. A gente aprende a se entender, se suportar. Passei a vida fugindo não sei do quê e hoje eu tô aqui sentada dentro de mim mesma. A perna não funciona. Aqui de dentro eu ainda penso em voar, mas imagina…

-Eu amei tanto. Se a gente pudesse voar eu acho que seria a mesma sensação de amar. Já amou, menino? Já sei que vai demorar pra você parar com essa mania besta de fingir que não sente. É a coisa mais linda. Mas já aviso: ama com desapego. As pessoas vão embora, morrem, a gente fica sozinho, aquilo que eu tava falando antes. Eu só aprendi agora, vê se aprende mais cedo que eu, viu? Vai sofrer menos. E larga esse cigarro que não é bonito, que você nem precisa. Vai ser artista sem isso. Um artista daqueles que tiram o fôlego da gente. Lê uma poesia pra mim, vai. Daquelas bonitas.

SE VOCÊ QUISER

As pessoas falam demais, nunca dizem o suficiente, choram de menos e engolem suas mágoas. As pessoas se fecham e partem e somem e não agem como o esperado, as pessoas são corrompidas pela atração ao superficial porque o superficial é fácil e alcançável; as pessoas aproveitam confortavelmente suas respectivas zonas de conforto culpando tudo que não vivem pelo platonismo idealizado e ah, tão distante; é tão mais possível sobreviver ao amor não correspondido do que aquele em que há reciprocidade.

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A coragem de amar o real é sincera demais pra ser frequente, é transparente demais pra ser sentida, exige esforço demais para deixarmos de lado o cotidiano de fingir que não nos importamos. O ato de se lançar no sentir sem saber se quem está ao lado e mal te enxerga vai pular também, a espera e a angústia de não saber, o gosto da dúvida que é bem melhor que a verdade porque a verdade é concreta e a dúvida abre espaço para o “e se” todo cheio de ilusão.

Às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente para nos fazer sofrer, às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente pra causar qualquer coisa, o que seja, aqui dentro, caos ou paz, dor ou cura. Faz falta, no meio de tanta covardia em amar o irreal platônico, algo que seja palpável. Que faça arder e descongele a rotina.

Ah, eu gosto é do estrago, de boba que sou. Gosto é do que rasga, do que grita e faz gritar. Gosto do que faz bagunçar a gaveta, a cama, o quarto, que vira tudo do avesso numa madrugada e faz questão de mudar de lugar minhas certezas. O que me cativa não é só a paz que traz, mas toda antecipação de tudo, todo o descaso feito em cima de qualquer proposta, eu gosto do que é desnudo e sincero na minha frente sem se importar em apagar a luz pra disfarçar as cicatrizes.

Entra pela porta da frente, aceita um café? Sinta-se em casa, tira o sapato, espalha o seu corpo, seu cheiro, sua bagagem por aí. Vem e se perde em mim, tira meu rumo, molha minhas roupas com suas lágrimas que dizem mais que qualquer verbo. Não vem com pressa, não. Mas vem com intensidade, mergulha em vez de molhar os pés, olha pra trás algumas vezes, ninguém tem certeza de primeira.

Quando o real se mostra e não tem mais dessa de inventar hipóteses e interpretar reações, quando deixa de ser platônico e passa a ser cru, tenho vontade de fugir. Correr e me esconder. Eu sempre fico, eu sempre me deixo pra morrer afogada. Eu sempre me rendo e quebro as paredes sabendo que não vou sair sendo a mesma.

É só questão de rendição pro que se mostra como opção, mas na verdade já invadiu e decretou-se como fato.