ANTES DE QUALQUER COISA,

Isto não é uma declaração de amor.

Fonte: Tumblr

Não é. Eu não escrevo declarações de amor. São superestimadas, melosas e cheias de clichês. Não sei escrever sobre clichês. Vamos direto ao ponto:

Você é um daqueles tipos de pessoa. Um daqueles tipos que ri da chuva, que dá bom dia pra qualquer um, que luta por causas perdidas. Você é natural, gosta de ser e ponto: você e nada mais, nada menos. Nada de rotinas ou métodos, perfeccionismos, controle, preparação: você é puro improviso, puro amor por tudo que há e por tudo que foi. Seus olhos ilustram a revolução, a insatisfação, a sede por mais. Nada planejado, nada forjado, forçado, implantado: quem pergunta recebe a resposta pensada no momento, rápida no gatilho, olhar feroz e voz pacífica.

Nunca gostei de pessoas assim: primeiro, o metodismo é parte de mim. As listas enumeradas (que você odeia), os horários perfeitos, a necessidade por algo linear, por algo que tenha sentido. “As coisas nem sempre fazem sentido”, você dizia, “às vezes, o sentido é desnecessário”. Nunca te entendi. Não te entendo. Como devo aceitar que as coisas não são como são? Elas são! São sim! E você não discutia, dizia que são mesmo, mas que não deveriam ser. E que eu deveria perceber isso, ver o mundo do jeito que eu queria que ele fosse, e não do jeito que ele realmente é. “Mas o mundo é este e ponto”, eu insistia, e você ria da minha mania de exatidão.

Nunca fiz nada fora do comum, enquanto, para você, o comum era ausente, chato, sinônimo de tédio. Seus ideais e suas ideias, tão amplos, tão novos; afinal, você é daqui mesmo? De onde você veio? Onde esteve por todo esse tempo?

Ressaltando o fato de que isto não é nem passa perto de ser uma declaração de amor, prossigo: nunca mais fui a mesma pessoa desde que você acidentalmente estabeleceu-se em mim. Fez com que eu me sentisse um cego que, de repente, começa a enxergar. Você me fez ver o mundo de um jeito diferente, inesperado, bonito. O preto e branco encheu-se de cor, o cotidiano encheu-se de som, eu me enchi de vida. Percebi que, quando as coisas insistem em desmoronar, elas estão desmoronando para se encaixar no lugar onde deveriam estar desde o início. Passei a andar sem sapatos na trajetória da minha existência, a dançar mesmo sem música, a admirar os pequenos detalhes.

Isto não é uma declaração de amor. É uma carta de agradecimento. Você me livrou dos meus antigos hábitos, meus antigos conceitos, minha antiga forma quadrada que tinha função apenas de ocupar espaço. Você expandiu minha perspectiva de vida, me fez ver possibilidades onde antes só existiam portas fechadas, me fez crescer em poucos anos o que eu nunca havia crescido em todos os anos anteriores. Você me fez ser, finalmente, protagonista.

A cicatriz que você deixou serve para me lembrar de quem fui e de quem sou e tudo que me trouxe até aqui. Não incomoda, não assusta, não é feia. Acho bonita, até.

De qualquer forma, agradeço.

Por tudo.

2 comentários sobre “ANTES DE QUALQUER COISA,

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