TUDO QUE SOU, TUDO QUE TENHO

Os anos passam sem fazer barulho, sem perturbação, numa quietude absurda que nos impede de perceber a corrida infinita do tempo. Os segundos são impacientes e não nos perguntam se precisamos de uma pausa, um momento para processar tudo que está acontecendo e recuperar o fôlego.

Fonte: https://jesleen92.wordpress.com/2012/04/20/she-went-quietly/

Estamos sentados no terraço olhando o nascer do sol num silêncio que está longe de ser desconfortável. O momento é extraordinário por si só, a energia que alimenta o ambiente me faz sorrir de uma maneira quase infantil: fico feliz de estar vivendo minha juventude de uma maneira selvagem e sincera, como deveria ser. Não demoramos a voltar a falar e a confusão que se faz quando uma voz sobrepõe a outra é natural e faz com que eu me sinta em casa.

Na minha memória, os momentos são incontáveis. Os quilômetros corridos regados pelo vento frio no rosto e as músicas mais altas que o barulho do motor, a dança entre as luzes e as multidões, os abraços sinceros em qualquer hora do dia, as conversas alongadas até as oito da manhã do dia seguinte, os jogos, as risadas, os choros, os cafunés e as verdades cruas. Já são anos com as mesmas pessoas que fazem a rotina esgotante valer a pena, que fazem cada dia ficar mais leve e suportável, que fazem cada minuto ser mais agradável. A liberdade, a honestidade, a abertura para falar o que quer que seja com a garantia do respeito mútuo e da compreensão: tudo é tão simples e nu, tão extraordinariamente livre.

Lado a lado, compartilhando o êxtase e a dor, o sofrimento de cada um arde como se fosse o de nós mesmos. Empatia, compaixão: se isso não é exatamente o que caracteriza uma família, estamos perdidos num mundo onde os conceitos devem ser revistos. Escolhemos uns aos outros porque nos completamos, porque temos algo a ensinar e tudo a aprender, porque somos humanos e precisamos nos apoiar naqueles que escolheram ficar.

A família que escolhi me aceita, me conforta, me acolhe e enxuga meu sentimento que transborda. Construo-me através deles e ajudo a construí-los, somos partes de um todo verdadeiro, cada pedaço essencial, coexistimos em alma e corpo. Temos a plena consciência da importância do sentimento que estruturamos durante esses anos, da grandiosidade que atingimos: sou grata por todo o aprendizado.

Sei que todos esses momentos serão memórias um dia, histórias para contar para os filhos e netos. Sei que os dias e as noites passarão, que a vida levará cada um para um caminho próprio e diferente, destinos distantes e diversos. Estar perto, no entanto, não é apenas físico; o sentimento continuará vivo dentro de mim independente da distância em quilômetros que me separa daqueles que me fizeram crescer e ser quem sou. Família, tanto de sangue quanto de alma, é um pedaço de mim que nunca será arrancado: todo o apoio, a ajuda e a presença sentimental são eternos, imutáveis. Foi essa família que me mostrou tudo que é e me ensinou sobre tudo que há: juntos, vimos e vivemos esse mundo como irmãos que brigam e amam simplesmente porque é algo intuitivo, marcado em nós.

Para deixar claro: Em qualquer momento da vida, onde quer que seja, em qualquer estrada; ainda estaremos juntos em espírito e todas as memórias serão meu combustível para prosseguir na caminhada.

5 comentários sobre “TUDO QUE SOU, TUDO QUE TENHO

  1. Sofia, tenho adorado ler os seus textos! Esse me deixou emocionada porque me identifiquei com os sentimentos que você descreveu, principalmente pelo fato de eu ter vivido tanto tempo fora. Gostei desse trecho em especial: “Estar perto, no entanto, não é apenas físico; o sentimento continuará vivo dentro de mim independente da distância em quilômetros que me separa daqueles que me fizeram crescer e ser quem sou”. Você é um sucesso! Bjos!

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