365 VEZES

Eu era na minha totalidade intensa um tom de azul-escuro que se misturava com o céu da noite quando você chegou com uma cor alaranjada de pôr do sol. Deixou seus cigarros na janela e espalhou as cinzas pela cozinha enquanto eu repousava meu olhar nos seus ombros cansados e misturava um pouco de mim no jeito teu.

ciclos lunares
Aos poucos tudo foi deixando de ser madrugada e crepúsculo para transfigurar em algum meio termo. Nada nunca mais foi o mesmo, afinal. Nem as músicas do Rubel, nem o jeito de contar casos, nem a ordem de arrumar a casa. Nem os livros de poesia rabiscados com anotações angustiantes das insônias, nem os sonhos que se seguiam dessa rotina.

Tudo moveu-se, lá fora e aqui dentro, de forma tão sutil. Como quando perde-se o fôlego e só há a percepção de que a respiração havia sido interrompida quando ela volta a funcionar normalmente.
O mundo girou 365 voltas e eu vi 365 versões diferentes de mim. Me reinventei. Você fez o mesmo, 365 vezes.

Prestei atenção nos olhos castanhos que já não são castanhos como antes e no tom de voz que já não tem o mesmo timbre. Naquele momento em que eu te olhei distante em qualquer esquina eu percebi: foi a minha antiga existência que havia se apaixonado por alguém que igualmente já não existe.

Dei meia volta na mesma rua com a certeza de que nada podemos fazer senão seguir morrendo e renascendo a cada encontro com outra alma humana. Cíclicos e efêmeros.

2 comentários sobre “365 VEZES

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *