GERAÇÃO “SALVEM-OS-HUMANOS”

Antes de nós reinava a geração Coca-Cola. E somos o quê? Devemos ser a geração Red Bull. Ou a geração McDonalds. A opção mais provável seria a geração Whatsapp. É meio deprimente; poderíamos ser a geração politicamente-participativa, a geração salvem-as-baleias, a geração mais-amor. Poderíamos tentar orgulhar o mundo. Poderíamos nos diferenciar das gerações passadas, fazendo mais. (Ainda podemos, aliás).

Fonte: http://lavidaesdelocos.tumblr.com/

Fonte: http://lavidaesdelocos.tumblr.com/

A minha geração é caracterizada por jovens que passam horas pensando em uma legenda para alguma foto. É composta por pessoas que não revelam fotografias há anos por falta de tempo, vontade ou necessidade. É vista como a geração das hashtags, das fofocas inventadas, dos jovens que gastam dinheiro em camisas de bandas que nem mesmo escutam. É a geração das declarações de amor pelo Facebook por medo de falarem em voz alta.

Os garotos dessa geração gastam centenas em camisas e sapatos de marca para tirarem fotos supostamente espontâneas como se o objetivo não fosse mostrar os bens materiais. Os bonés (idênticos) amassam sempre o cabelo bem cortado. Escolhem a dedo a cueca antes de sair e deixam a bermuda propositalmente larga para se mostrarem metodicamente desleixados e exibirem, novamente, o valor material até mesmo de suas roupas íntimas. Em uma festa de 200 convidados existe apenas um corte de cabelo nos homens e as mulheres observam, selecionando um entre tantos iguais. Os olhares são os mesmos de sempre, o modo de puxar conversa também. Ninguém parece se cansar disso tudo.

Somos a geração do “olhe para mim! Estou me divertindo!”. Passamos menos tempo de fato aproveitando cada ocasião e mais tempo tirando fotos; não para registrar momentos, mas sim com a intenção de mostrar ao resto do mundo que estamos muito felizes, obrigado, estou tendo uma noite sensacional. A regra mundial é que a qualidade do momento é inversamente proporcional ao número de fotos tiradas durante ele.

É insano. Talvez isso seja uma coisa geral que existe desde o início dos tempos, talvez não: estamos sempre querendo nos auto-afirmar. “Eu sou isso”, “eu sou aquilo”, “olhe como sou assim!”. Queremos provar que temos um estilo definido, uma opinião bem formada, uma personalidade decidida. Não somos; somos jovens, inconsequentes, mudamos de opinião com quase a mesma frequência em que mudamos nossa roupa. Nunca reconhecemos as nossas próprias divergências por puro orgulho.

Sei que me aplico, particularmente, em diversos itens que eu mesma critico nesse texto. Não me excluo e duvido muito da minha capacidade de mudar tais defeitos em um período curto de tempo. Às vezes os cometo de forma inconsciente simplesmente porque fazem parte de mim. Um dia, talvez, eu consiga corrigi-los – talvez sejam apenas elementos da própria juventude. Mas de uma coisa eu sei: eu particularmente me preocupo com a salvação das baleias. Espero que minha perspectiva de querer mudar o mundo compense os efeitos de alguns dos meus erros frequentes.

6 comentários sobre “GERAÇÃO “SALVEM-OS-HUMANOS”

  1. Tendo em mãos por vontade própria e por movimento da massa um parasita não orgânico comumente chamado de “Smartphone”, se torna cada vez mais complicado não se encaixar em padrões estereotipados que talvez não existissem em gerações anteriores. A conectividade se torna uma faca de dois gumes quando de um lado se tem a oportunidade de fazer amigos do Japão as Arábias, mas do outro, construir dentro do seu próprio meio social é cada vez mais complicado já que estranhamente, há uma enorme “futilização” de muitos de nós que insistem em investir cada vez mais na desinformação. Ainda não consigo aceitar que a falta de conhecimento se tornou a “sensação” de uma geração que tem exatamente esse conhecimento na ponta dos dedos. Gostaria de concordar com a letra de Pete Townshend em “My Generation” e dizer de boca cheia que essa é uma das musicas que sobreviveu ao tempo, mas infelizmente, em algum momento passado, a essência descrita na música se perdeu.

  2. Em um simples texto conseguiu resumir tudo.
    Falsas alegrias, vida falsa, tudo com intuito de dizer:
    “Sou mais feliz que você”
    Enquanto o mundo explode com corrupção, violência banalizada, preconcietos e radicalismos (religiosos, racista e homofóbico).
    Apegamos apenas e “mostrar” que tudo está bem.
    Adorei!!!!!

  3. Uma vez li alguns trechos de um livro do Bauman: “Amor Líquido” que os tempos atuais são “líquidos”. Nada é feito pra durar. Se a análise dele parece bem pessimista, entendo na verdade de uma forma de se ver as relações, em todas esferas de envolvimentos, bem realista. Enxergo o mundo como vontade e representação. Vontade muitas vezes ou quase sempre, é a propulsora de nossas vidas. O mundo acaba sendo uma ilusão que sobressai a uma realidade. Mas como entender e saber o que é o real? Bauman diz que as pessoas estão lentamente perdendo os contatos diretos, a proximidade, em detrimento de contatos descartáveis, incentivado pela era da individualidade e do consumismo. Bauman tem a manha de fazer uma análise das relações amorosas no mundo contemporâneo, relações que são altamente influenciadas pela forma como consumimos. E é uma pena que essa análise retrate tanto nossa realidade flutuante. Pra mim o lado bom é conhecer, pois a partir do momento que me vejo e me reconheço em uma determinada realidade, posso criar, buscar, construir e transformar essa mesma realidade….

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