EU, ALMA E LÁPIS

Sempre escrevo de madrugada, e, no dia seguinte, ao acordar, nunca me lembro que escrevi na noite anterior. Demoro um bom tempo para recordar que sentei, escrevi, e sobre o quê escrevi. Quando leio meus próprios textos, não me lembro de ter pensado naquelas palavras, naquelas frases: sempre tenho a sensação de que estou lendo textos de outra pessoa.

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Não consigo explicar tal fenômeno; não escrevo sob efeito de drogas ou álcool, sempre estou bem acordada e bem motivada. Tenho a impressão de que algum tipo de força sobrenatural da inspiração desce sobre mim e guia meus dedos sobre o papel ou o teclado, escrevendo as palavras por mim, ditando a pontuação correta, fazendo com que eu repense uma frase ou outra. Rio sozinha quando sinto essa sensação bizarra de que aquele texto nunca sairia de mim, que não poderia ter sido eu, que eu não sou capaz de organizar minhas ideias daquela forma.

Desde quando escrevi meu primeiro livro, aos nove anos de idade, as pessoas ao meu redor (família, amigos próximos) começaram a dizer que eu era “escritora”. Sempre entendi num tom de brincadeira, ou como se estivessem aumentando demais os fatos (e ainda entendo assim). Nunca me considerei, de fato, uma escritora, mas nunca parei de escrever textos, poesias, comentários, qualquer coisa: nunca parei de escrever e ponto. Há algumas semanas, parei para pensar que eu simplesmente fui seguindo o caminho da literatura, sem pensar demais, como se fosse um processo natural. Nunca me questionei “e se eu desenhasse?”, “e se eu decidisse aprender a cantar?” ou “e se eu me dedicasse ao teatro?”, talvez eu possa ter considerado uma dessas coisas como hobby, mas nenhuma delas pareceu tão certa e espontânea a ponto de ser algo que eu sonhasse em fazer profissionalmente. As letras, as palavras, os textos rasurados sempre foram a opção certa pra mim, de uma forma tão genuína que simplesmente aconteceu, não houve nenhum tipo de planejamento ou segundos pensamentos sobre.

Não é algo que faço por escolha ou porque forço todo o processo: escrevo por necessidade. Se vivencio alguma situação e penso demais sobre aquilo, toda a experiência fica dentro de mim, um acúmulo de sentimentos e opiniões que preciso colocar pra fora de alguma forma. Sendo assim, chego a minha casa e vomito tudo no papel, seguindo um instinto que é tão vivo dentro de mim quanto o instinto de caçar dentro de um animal selvagem. É tudo muito violento, muito esgotante, intenso; as horas passam sem que eu perceba, passo madrugadas espancando meus cadernos com sentimentos que transbordam de mim.

Clarice Lispector uma vez disse que, quando não estava escrevendo, sentia-se morta. Nunca me identifiquei tanto com alguma coisa: quando fico um tempo maior sem escrever nada, fico com um constante sentimento de que tem algo faltando, que esqueci algo em casa, que alguma coisa não está certa. Não me sinto completa, me sinto cheia demais, louca demais, sem ar.

Escrever é a paixão da minha vida. Vivo por isso e vivo para isso: meu amor pelo ato de escrever é incondicional. Às vezes, me pego chorando enquanto escrevo um texto qualquer apenas porque me sinto realizada quando coloco tudo aquilo no papel. Sinto-me bem quando consigo organizar meus parágrafos exatamente do jeito que eu queria. O momento em que sento e encaro a folha, sua superfície branca, pronta, desafiante, é um momento extremamente íntimo. É inexplicável: a criatura e seu objetivo, frente a frente, encarando-se numa relação de mutualismo. A folha precisa de mim, eu preciso dela. E assim vivemos. No instante em que começo a escrever o que quer que seja, sinto-me exposta. Ao avesso. Completamente nua e deitada numa superfície fria. Chorando. Rindo. Tremendo. Os cabelos bagunçados e a alma em êxtase, sentindo-me mais viva do que nunca, a energia percorrendo minhas veias como se não houvesse mais nada no mundo. E, naquele momento, não há mesmo.

Aqueles que sonham sabem como é a intensa a vontade de que aquele sonho se torne realidade. Não consigo descrever como me sinto quando algum texto, alguma frase, qualquer coisa de minha autoria é reconhecida, comentada ou provoca qualquer tipo de reação positiva em algum leitor. É tudo que eu quero, e quando acontece com uma pessoa que seja, é incrível. É genial.

A cada dia que passa eu tenho mais certeza de que estou no caminho certo e nasci para isso. Independente de qualquer coisa, eu nunca irei parar de escrever. Como já mencionei, não escrevo por fama, dinheiro, idolatria: escrevo porque preciso. Porque é parte de mim. Qualquer atividade deve ser realizada com paixão, ou não deve ser realizada de nenhuma maneira. Tenho esperança de que um dia meu trabalho será reconhecido e eu conseguirei fazer com que meus leitores sintam-se tocados pelo que escrevo.

E, de qualquer forma, se isto acontecer com apenas uma ou duas pessoas, já me sentirei satisfeita. A jornada terá valido a pena.

4 comentários sobre “EU, ALMA E LÁPIS

  1. E nós precisamos que você continue! Vc precisa escrever e nós temos que usufruir de tudo o que vc passa quando escreve! Você não faz ideia do quanto isso tem me feito bem!

  2. É isso mesmo Sofia, escrever é um ato solitário do eu, pra mim, depois pro outro. Vejo textos meus desde 2005 no meu blog: http://www.jbcfnews.blogspot.com, (comente) que tenho a impressão que não foi eu que os criei. É meio que paranormal isso, mas é real. Vc escreve bem e torço para que seja feliz e cresça no ofício. SUCESSO! bj. – Se acessar meu blog, deixe uma crítica, será um prazer trocar impressões com vc.

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