365 VEZES

Eu era na minha totalidade intensa um tom de azul-escuro que se misturava com o céu da noite quando você chegou com uma cor alaranjada de pôr do sol. Deixou seus cigarros na janela e espalhou as cinzas pela cozinha enquanto eu repousava meu olhar nos seus ombros cansados e misturava um pouco de mim no jeito teu.

ciclos lunares
Aos poucos tudo foi deixando de ser madrugada e crepúsculo para transfigurar em algum meio termo. Nada nunca mais foi o mesmo, afinal. Nem as músicas do Rubel, nem o jeito de contar casos, nem a ordem de arrumar a casa. Nem os livros de poesia rabiscados com anotações angustiantes das insônias, nem os sonhos que se seguiam dessa rotina.

Tudo moveu-se, lá fora e aqui dentro, de forma tão sutil. Como quando perde-se o fôlego e só há a percepção de que a respiração havia sido interrompida quando ela volta a funcionar normalmente.
O mundo girou 365 voltas e eu vi 365 versões diferentes de mim. Me reinventei. Você fez o mesmo, 365 vezes.

Prestei atenção nos olhos castanhos que já não são castanhos como antes e no tom de voz que já não tem o mesmo timbre. Naquele momento em que eu te olhei distante em qualquer esquina eu percebi: foi a minha antiga existência que havia se apaixonado por alguém que igualmente já não existe.

Dei meia volta na mesma rua com a certeza de que nada podemos fazer senão seguir morrendo e renascendo a cada encontro com outra alma humana. Cíclicos e efêmeros.

CONVERSA DE VÓ

-Ah, engole esse medo. Senta um pouco no escuro, menino. Vai pensar na vida, entendeu? Pensar mesmo. No que você quer viver. Nas pessoas que conheceu e no que elas te ensinaram. Teve uma vez no ônibus que a menina do meu lado tava me dizendo como é que se lê poesia. Eu te contei que sempre gostei de ouvir poesia? Acho que é dom, ou você nasce sabendo ou não sabe. Eu nunca soube, não. Mas ela até que tentou me ensinar. Leu uma pra mim, falava sobre flores mortas. Era uma coisa bonita e você me conhece, pra falar que é bonito eu tenho que achar bonito mesmo. Mas é isso, menino. Presta atenção, entendeu? Nas coisas ao redor. Nos caminhos, nas árvores, nas pessoas que te esbarram na rua. Elas carregam muita história. Tenta compartilhar a bagagem, isso enriquece a gente e até faz bem pra memória. Minha memória já tá ficando um pouco ruim, não consigo me lembrar muito bem da aparência das coisas. Isso é triste, não lembrar de como era o lugar de onde a gente veio ou o rosto das pessoas que já fizeram parte da nossa vida. Ah, tira foto. Muita foto, menino, depois revela e guarda numa gaveta. Eu queria saber pintar só pra pintar todas as coisas que eu já vi. Foi muita coisa boa e muita coisa ruim. Dá pra ter muito dos dois lados, acho que um dia você vai saber do que eu tô falando. Mas não agora, tá cedo demais. Mas tá tarde também. Não sei, não, o tempo é tão cruel quanto o mundo, menino.

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-Se eu queria que fosse diferente? Eu não queria nada. Eu acho assim, ó: eu fui do jeito que fui. Você é que tem que ser melhor porque é pra isso que a gente faz filho, faz neto, né? Não concorda com tudo que eu falo e nem escuta muito conselho. Eu falo é muita bobagem. Mas é que é tão pouco tempo e tanta coisa, tanta coisa! Queria eu poder te ensinar todas. Mas a gente é teimoso, só descobre sozinho, não adianta… Você vai descobrir que a tristeza é importante, menino. A solidão também. A gente aprende a se entender, se suportar. Passei a vida fugindo não sei do quê e hoje eu tô aqui sentada dentro de mim mesma. A perna não funciona. Aqui de dentro eu ainda penso em voar, mas imagina…

-Eu amei tanto. Se a gente pudesse voar eu acho que seria a mesma sensação de amar. Já amou, menino? Já sei que vai demorar pra você parar com essa mania besta de fingir que não sente. É a coisa mais linda. Mas já aviso: ama com desapego. As pessoas vão embora, morrem, a gente fica sozinho, aquilo que eu tava falando antes. Eu só aprendi agora, vê se aprende mais cedo que eu, viu? Vai sofrer menos. E larga esse cigarro que não é bonito, que você nem precisa. Vai ser artista sem isso. Um artista daqueles que tiram o fôlego da gente. Lê uma poesia pra mim, vai. Daquelas bonitas.