O SER E O NADA

A vida é uma espera. Pela morte, por amores inacabados, por palavras que não virão. Uma pausa entre duas eternidades de inexistência, a concretização de um corpo num período breve que logo transformará o mesmo corpo em partículas que voltarão ao imenso universo ao qual pertence realmente.

ser e nada

E vagamos fingindo rumos que não passam de uma forma de ocupar o tempo enquanto aguardamos o final inevitável do capítulo (a história inteira é mais ampla que esse breve intervalo terreno). Porque a morte é um porto e nós somos barcos obedientes, atando e desatando nós por nossas várias cordas no percurso longo, trombando uns com os outros, calculando encontros e desencontros. Nós somos Colombo indo em direção ao precipício do desconhecido.

A passagem desse pensamento dá uma agonia invencível e fazemos papel de ignorantes, como se não soubéssemos de nada disso, nos preenchendo com objetivos curtos, médios, longos. Idealizando tudo. A arte de planejar nos é natural porque sem ela morreríamos por vivenciar demais a verdade; o tédio é a pior parte do ócio porque nos permite entender o que nos espera.

Sou dessas pessoas que passa as horas antes de dormir pensando no que vou deixar no mundo quando meu corpo já estiver se desfazendo e minha mente deixar de funcionar. De todos os inventores e pensadores, de todos os inventos e pensamentos, de todas as revoluções e literaturas, que há de novo para se pensar, criar ou escrever? Que há de ser marcante o suficiente para ser conhecido e estudado por dois, três, quatro séculos?

No fundo, há uma voz que me diz: nada. Porque se somos barcos e a morte é um porto, a vida é o mar. Nunca o mesmo. E, embora as ondas mais grandiosas consigam, por vezes, cobrir a costa e nos deixar incrédulos com tamanho poder, elas desabam e desaparecem numa imensidão homogênea e azul.

Até mesmo os vestígios de quadros feitos um dia desbotam.

NATUREZA SELVAGEM

Aqui em mim nasce uma coragem que rasga. Uma coragem que morde, rosna e quer matar. Que grita: estou pronta. Eu a deixo crescer, mas não a alimento. Ela que se alimenta de mim. Arranca meus órgãos e queima como quem diz que vive e vai chegar onde quer. Nem meus pensamentos atordoados ou meus medos irracionais conseguem impedir uma ação tão espontânea.

Desconfio: estou em combustão.

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As minhas certezas se transfiguram em outras que contrariam as de origem, os meus sonhos tomam forma e honestidade, peço que me abram uma avenida antes de conseguir impedir minha língua de desenhar a frase no céu da boca. Já não estou no comando de mim mesma. O meu coração é insubordinado e minh’alma não sabe de obedecer.

Hoje, a guerra é minha. Porque há dentro de mim um animal selvagem que ronda meu subconsciente tornando-o igualmente indominável.

Passiva, observo de dentro enquanto o externo de mim grita pro mundo: estou aqui e vou lutar.

ATÉ DESAPARECER

Que mulher bonita. Aquela ali que desfila sem querer na beira do mar, nua e toda dela mesma, numa paz que só a lua minguante ilustra. Desaparecendo sob o olhar de quem fica querendo mais.

desaparecer

Cícero ecoa nos meus ouvidos confirmando esse pensamento: tudo desbota até desaparecer, inclusive meus desejos salpicados de areia. Ela sabe dançar bem e eu observo de longe, devagar. O olhar que acompanha a cintura marcada de sol. Aquela cintura que parece saber que o mundo gira junto a si, despreocupada, como se a ideia de descontrole não a perturbasse. Pois me descontrola pensar que a gente só tem essa vida, mas nenhuma certeza dentro dela. Não estamos certos nem da morte.

Eu não tenho medo de morrer. Só tenho medo do tempo, que não tem dó de me engolir. Finjo que não o sinto se aproximando devagarinho, como quem canta um samba que me pede pra deixar estar. Por enquanto está tudo certo; a moça ali na frente ainda dança, mal me importo com qualquer destino que já esteja escrito para a minha pobre alma. Pareço viver numa sexta feira eterna, a manhã de sábado que nunca chega e um domingo que parece distante demais, tão longe que mal ameaça a preocupação.

Ela para, eu paro junto e o resto do mundo também. Fico ali, com medo de ter sido descoberta, quando ela se vira e me olha dentro dos olhos. Ah, que poder tem, isso de buscar verdade no fundo das pupilas de alguém. Seguro o olhar em desafio, ela me pede por um toque sem dizer nada, minhas pernas me levam em sua direção.

Seu beijo é um gole de vida que me engana. Morno, mas cru. Como quem diz: sente o gosto dessa tua esperança medíocre, me diz se é real. Não é. Um tom de pouca fé que me faz sentir o peso da realidade, ela é uma manhã de segunda que chegou sem avisar.

Abro os olhos e me pergunto pela centésima vez: por que é tão difícil digerir emocionalmente a veracidade de que as coisas são efêmeras? No mesmo momento uma onda alcança minhas canelas e logo depois volta para o oceano ao qual pertence. É, o mundo consegue se explicar bem sozinho.

VOCÊ NÃO PRECISA SER ESSA FORTALEZA TODA

Eu sei que você não é essa fortaleza toda porque eu te conheço e eu ando achando terrível isso de conhecer alguém a ponto de saber o que a pessoa esconde apenas sustentando um olhar. É assustador saber até onde vão os seus muros e onde são seus esconderijos e quais são seus medos. É assustador saber que você também sabe do que me faz estremecer.

fortaleza
É por te conhecer demais que eu choro no escuro da sala de estar. É por te conhecer demais que eu tenho vontade de sacudir seus ombros e te pedir para parar de fingir porque você fica dez vezes mais bonita quando demonstra a primavera que carrega no peito. E te dizer logo depois o quanto eu sinto falta dessa sua luz tão naturalmente cultivada.

Você não é essa fortaleza toda e eu também não sou e tentar fortalecer todas as paredes e destruir as pontes é um estupidez sem tamanho, mas eu não vou te dizer isso assim como você não vai colocar minha cabeça no teu colo e me explicar que não vale a pena todo esse desgaste. Ninguém vai dizer isso pra ninguém e vamos descobrir tudo que precisamos com o tempo, que é cruel e lento, mas eficiente em ensinar.

Quem sabe quando as suas e as minhas cicatrizes estiverem igualmente limpas, poderemos sustentar algum olhar livre de lágrimas que diz, com toda certeza: eu sei e entendo, e tudo nesse processo foi, de certa forma, necessário.