LANÇA O BARCO CONTRA O MAR

Ouvir Rubel é sempre doloroso demais porque desperta algum sentimento rudimentar aqui dentro. Que arde. E queima. E grita. E a sinapse se completa e tudo volta e tudo vai.

(Sempre foi assim, desde a primeira nota).

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Quero ser capaz de escrever poesia assim, sabe, algum dia. Dessas que fazem doer, que fazem os dentes caírem, que molham travesseiros, que sejam tão poderosas e intensas que as pessoas considerem apelar pra uma fé que elas nem sabiam que tinham mais, assim como eu faço quando a melodia invade o escuro e o silêncio do meu quarto e traz essa paz que dói, mas que não deixa de ser paz.

Eu gosto dessas coisas. Dessas que desvendam a alma da gente antes mesmo de conseguirmos nos desvendar. Que nos deixam perguntando o quê, quando, como, onde… Buscando por motivos, por consequências sem causa, qualquer resposta entre os versos.

Não há, no entanto. Nunca há.

Só há o vazio e a voz, que traz o tudo.

MORE NO SEU AMOR PRÓPRIO

A gente nasce e morre cercados de normas e leis, tantas regras para nos limitar, tantos pontos finais, tantas considerações a serem feitas, tantos limites. Pode ser desse jeito, mas nem tanto, pode ser do outro jeito, mas não tão pouco. Seja mais, seja menos, seja assim: do jeito que está imposto, do jeito que todo o resto também é, seja mais um na multidão.

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Tentamos imitar o que é indicado como perfeito, ideal: os corpos nas revistas, os rostos bonitos, os cabelos lisos, loiros, longos, as roupas do momento, as músicas comerciais, os relacionamentos das revistas de fofoca. Padrões de beleza são engraçados: culturais, variáveis; nasci pra ser linda em 1950, mas nos anos 2000 eu deveria ser mais magra, deveria ser tão menos que sou. E quantas vezes já não olhamos no espelho e odiamos o que vimos? Querendo arrancar tudo, começar de novo dentro de outro corpo, chegando a nos obrigar a fazer dietas e nos dedicar a algo que odiamos apenas para nos encaixar no padrão de outros quando o único padrão que deveríamos nos obrigar a encaixar é o nosso.

Num mundo onde a baixa autoestima e a busca pelo ideal são incentivadas porque rendem lucro, temos que ser revolucionários e cometer o crime de amar a nós mesmos. Cada (falta de) curva, cada falha na pele, cada pedaço torto e desgastado que nos compõe, desde que sempre dentro do que é saudável. Estamos numa constante luta para agradar os outros, em busca de alguém que nos ame por algo que não somos genuinamente. O ser humano tem uma mania destrutiva de ter medo de estar sozinho. A solidão não é nenhum monstro, não quando vemos paz em nossa própria companhia. Temos que aprender a viver bem com o que somos para, enfim, conseguir viver bem com outra pessoa.

A coisa mais difícil desta vida é reconhecer e admitir os próprios sentimentos, perceber o que cultivamos em nosso interior inconscientemente, aceitar, finalmente, o que não vemos (ou não queremos ver, simplesmente) e conseguir gritar nossas fragilidades, mesmo que para ninguém escutar. Por que é tão difícil falar em voz alta algumas coisas que sabemos que sentimos, que somos, que vivemos, mas negamos por medo? Não há vergonha nenhuma em ser nós mesmos, em expor cicatrizes, em orgulhar-se do próprio corpo, seja ele do jeito que for.

Corajosos são os que admitem o que são na frente de tudo e todos; até pouco tempo, eu não conseguia admitir o que sou nem para mim mesma. Temos que aprender que temos que nos amar primeiro, confiar em nós mesmos primeiro, nos exibir para nós mesmos primeiro, nos orgulhar de quem somos primeiro, nos aceitar primeiro, nos colocar em primeiro lugar para depois aprender a amar, confiar, exibir, orgulhar, sermos aceitos por outros. Precisamos morar em nosso amor próprio, depositar nossa felicidade em quem somos, o narcisismo às vezes é saudável e necessário. E mande ao inferno os padrões alheios, as exigências alheias, as críticas de quem não tem nada a acrescentar: agrade a si mesmo, busque a satisfação própria; os outros só nos devem respeito. E ponto.

Ame-se, mas ame-se com vontade, com prazer, com dedicação. Ouse amar a si mesmo quando tudo ao redor diz que você não deveria. Confiança é algo sexy, atraente, use e abuse. Seja livre para ser quem você quiser, o direito é seu, é meu, ninguém tem nada a ver. Busque entender a si mesmo, revirar seus medos e segredos, mudar as velhas manias de esconder o que te torna o que é, admita suas falhas, ignore qualquer frase que tenha verbos no imperativo e um tom meio mandão, se achar que deve. Assuma a responsabilidade do que você é, sem amarras: a pior coisa que podemos fazer é impedirmos a nós mesmos de ser o que verdadeiramente somos pelo motivo que for.

CARTA SOBRE, POR, PARA

Meu bem, você me fez questionar muito, mas nem tudo. Não se iluda: todos os meus últimos amores me fazem questionar se os anteriores se tratavam realmente de amor. Você não foi minha primeira pessoa nem vai ser minha última, mas, na sua condição de uma delas, permanece sendo parte. Uma grande parte, talvez, maior do que eu gostaria de admitir.

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Eu tô vivendo no presente, mas só fico no passado, minha mente lá em você e todas as minhas suposições para um futuro próximo me perturbando nas noites de insônia. E se tudo que eu falo é sobre você, pra você ou por você, nada mais justo que você ter consciência disso. Acorda: eu tenho autoestima o suficiente pra dizer que eu valho a pena, que eu me entrego, que eu me dedico, que eu me rendo. E que eu posso te proporcionar um milhão de experiências, de inspiração e de histórias pra contar. E por agora eu me permito, eu me disponho, mas se eu já sou corajosa a ponto de admitir cada sentimento, você deveria ter coragem o suficiente para fazer algo sobre.

Eu tô cansada de ser refém: sua e de mim mesma. Daqui a pouco libero as algemas, a chance passa (a vida também) e tudo isso vai se concretizar, finalmente, apenas na forma de “e se”. Inacabado. E eu morro de agonia de coisas que nunca terminei, você sabe. É uma angústia que se instala no fundo da garganta e demora um tempo pra passar, mas eventualmente passa. Ô se passa. O mundo gira e tudo sempre passa (tento focar nisso pra não desabar).

Aproveita, meu amor, enquanto eu tô aqui por sua conta, pronta pra tentar, pra ter um pouco de diversão no meio dessa rotina pesada. O mundo é imenso e eu tô só te esperando pra vir comigo porque eu sei que a companhia não poderia ser melhor. Eu sei, cê sabe que eu sempre volto, mas talvez da próxima vez talvez eu não volte sendo a mesma pessoa. Tô te esperando.

NO PRECIPÍCIO DO SENTIR

Você já se apaixonou? Mas se apaixonou mesmo, de verdade, sem dúvida alguma? Foi recíproco? Seu coração já foi partido por alguém? Você já despedaçou corações alheios sem querer? E intencionalmente? Você já se apaixonou por um melhor amigo, por alguém inevitavelmente muito próximo? E por alguém inacessível, algum professor ou aluno, alguém mais velho, alguém proibido…?

Estar apaixonado é um sentimento cruel. É algo que chega sem aviso, um visitante mal educado, silencioso. Nunca lembramos o exato momento em que nos apaixonamos por alguém. Apenas começamos a gostar cada vez menos de despedidas, a sentir o estômago revirar a cada toque, cada olhar, a odiar de uma maneira inexplicável os momentos de ausência e distância.

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Você já esteve tão apaixonado a ponto de o sentimento causar dor física?  A ponto de tornar o ato de respirar algo extremamente complicado uma vez que apenas a lembrança é capaz de fazer o ar escapar de seus pulmões, fazer com que você se sinta rasgado de dentro pra fora, estômago, veias, carne e sangue, deitado a céu aberto com o mundo virado de cabeça para baixo, caótico e sujo, dentro de sua mente?

É curioso como as pessoas são capazes de se interessar e se envolver tão profundamente entre si. Como, aos poucos, apenas um pequeno sorriso, uma mania, um movimento que, dentre tantos outros, acaba transformando-se em um detalhe tão particular, lembrado a cada minuto por algum amante, uma marca registrada. Você já se apaixonou pelas pequenas coisas de alguém? Aquele jeito específico de afastar o cabelo do rosto, ou de fechar os olhos enquanto dá risada, desviar o olhar quando fala baixinho… Você já se apaixonou pelo som da voz de alguém? Ou por um jeito de suspirar?

Relações humanas são interessantes de apreciar e analisar. Como podemos desenvolver algo tão intenso por alguém que há meses era apenas mais um estranho andando pela rua? Como um sentimento que antes era tão puro, inocente, unicamente visto como amizade pode desenrolar-se e transformar-se em algo diferente?  Por que isso acontece? Em qual momento nós, inconscientemente, passamos a ser tão dependentes da presença e do cheiro de outra pessoa?

Como somos capazes de amar alguém que não chega nem perto de sentir a mesma coisa por nós? A que ponto podemos chegar, quais limites podemos forçar, até onde podemos ir em nome do amor? É impossível explicar porque algumas pessoas continuam apaixonadas e outras não. O sentimento esgota-se? Evapora? Desgasta-se? Por que é que algumas pessoas conseguem perdoar erros gigantescos e outras são radicais até mesmo com os pequenos deslizes? Se acabou, não foi amor? Ou era amor até deixar de ser?

Eu tenho tantas dúvidas sobre sentir e pensar, amar e perdoar, o próprio ato de estabelecer relações. É tão complicado; somos dependentes daqueles que amamos de uma forma que chega a ser doentia. Algumas pessoas passam a ser sinônimo de oxigênio: são essenciais para a existência de vida. A ausência dói tanto quanto 80 facadas nos pulmões, as brigas tiram nossa paz, a falta de abraços incomoda mais que a fome. Chegamos a nos rebaixar, a mudar quem somos, a fazer coisas que jamais imaginamos que faríamos movidos apenas por um sentimento que chega e se instala, transformando nossos conceitos e bagunçando teorias que defendíamos de qualquer maneira. E se não existir reciprocidade, fazemos o que? Temos que nos acostumar? Aprender a lidar? Como podemos fazer com que nós mesmos paremos de sentir algo que foge do nosso controle?  Ter a oportunidade de protagonizar qualquer tipo de relacionamento onde o sentimento é recíproco é uma sorte inacreditável num mundo com tantas pessoas, tantos pensamentos, tantos obstáculos.

Sentir é um abismo. Estamos em queda livre, sem ter muito o que fazer a respeito. Caímos sem rumo, sem noção de tempo ou espaço, sem saber se estamos próximos do impacto. Tantas perguntas sem resposta, tantas opiniões que se dizem verdades absolutas, tantas maneiras, categorias, vertentes. Entre tantas complicações e interrogações inexplicáveis, continuamos caindo, caindo, caindo. Não temos muita escolha; apenas aceitamos a condição.