HOMICÍDIO

Se vejo defeito no ato
enfeito o feito e o fato
pra me impedir de morrer, me mato
e vivo quieta
secreta
pequena
me deito,
perfeito
o quero
e espero
surtir o efeito
o crime mal feito
e o quadro vermelho
na sala de estar
indica um suspeito
implícito e seco
mas deixa a desejar
o corpo
só e morto
se recusa a esfriar
recuo aqui dentro
parágrafo lento
paro,
grafo,
tento
curto sufoco
faísca e fogo
volto a respirar

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AQUELE SAMBA

pandeiro
Carnaval passou e com ele todo o barulho, euforia e calor. O silêncio que me dava paz ultimamente apenas me agride, o escuro onde eu me confortava agora é refúgio pro choro que não consigo engolir. Sinto falta da festa, da música, de poder dançar livre pelas avenidas.

A bagunça de lá nem se compara com a bagunça daqui de dentro. De hoje. O samba de lá não dá nota por aqui. Por aqui é ausência e só. De muito, mas não de tudo, puro caos. Sei que sinto, são sei o quê ou por quê. Não sei das causas e consequências. A coragem não bateu, te vejo de longe.

Talvez eu sinta falta mesmo é do barulho de distração que me afastava do fato de eu já estar meio longe de tudo. Talvez eu sinta falta de quando a poesia não vinha fácil: a arte só vem quando a vida pesa em desequilíbrio.

Ando meio exausta de tentar falar o que nunca parece ser devidamente transmitido por palavras. Quietude. Nem gosto de admitir que na verdade carnaval é só mais uma metáfora pro que foi, mas nesse caso, não volta ano que vem.

SE VOCÊ QUISER

As pessoas falam demais, nunca dizem o suficiente, choram de menos e engolem suas mágoas. As pessoas se fecham e partem e somem e não agem como o esperado, as pessoas são corrompidas pela atração ao superficial porque o superficial é fácil e alcançável; as pessoas aproveitam confortavelmente suas respectivas zonas de conforto culpando tudo que não vivem pelo platonismo idealizado e ah, tão distante; é tão mais possível sobreviver ao amor não correspondido do que aquele em que há reciprocidade.

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A coragem de amar o real é sincera demais pra ser frequente, é transparente demais pra ser sentida, exige esforço demais para deixarmos de lado o cotidiano de fingir que não nos importamos. O ato de se lançar no sentir sem saber se quem está ao lado e mal te enxerga vai pular também, a espera e a angústia de não saber, o gosto da dúvida que é bem melhor que a verdade porque a verdade é concreta e a dúvida abre espaço para o “e se” todo cheio de ilusão.

Às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente para nos fazer sofrer, às vezes precisamos de alguém que se importe o suficiente pra causar qualquer coisa, o que seja, aqui dentro, caos ou paz, dor ou cura. Faz falta, no meio de tanta covardia em amar o irreal platônico, algo que seja palpável. Que faça arder e descongele a rotina.

Ah, eu gosto é do estrago, de boba que sou. Gosto é do que rasga, do que grita e faz gritar. Gosto do que faz bagunçar a gaveta, a cama, o quarto, que vira tudo do avesso numa madrugada e faz questão de mudar de lugar minhas certezas. O que me cativa não é só a paz que traz, mas toda antecipação de tudo, todo o descaso feito em cima de qualquer proposta, eu gosto do que é desnudo e sincero na minha frente sem se importar em apagar a luz pra disfarçar as cicatrizes.

Entra pela porta da frente, aceita um café? Sinta-se em casa, tira o sapato, espalha o seu corpo, seu cheiro, sua bagagem por aí. Vem e se perde em mim, tira meu rumo, molha minhas roupas com suas lágrimas que dizem mais que qualquer verbo. Não vem com pressa, não. Mas vem com intensidade, mergulha em vez de molhar os pés, olha pra trás algumas vezes, ninguém tem certeza de primeira.

Quando o real se mostra e não tem mais dessa de inventar hipóteses e interpretar reações, quando deixa de ser platônico e passa a ser cru, tenho vontade de fugir. Correr e me esconder. Eu sempre fico, eu sempre me deixo pra morrer afogada. Eu sempre me rendo e quebro as paredes sabendo que não vou sair sendo a mesma.

É só questão de rendição pro que se mostra como opção, mas na verdade já invadiu e decretou-se como fato.

(EU NEM SEI SE ISSO É VERSO OU SE É PROSA)

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Parece que você foi embora antes de chegar,
parece que eu tô vivendo atrasada,
correndo atrás de um tempo que não me espera e que nunca vou acompanhar
parece que perdemos a passagem, o embarque encerrou,
o terminal vazio e em silêncio
a partida já aconteceu
sem despedida nem cumprimento
só beijos soltos do que poderia ter sido
mas nunca chegou a ser
não sei qual tempo verbal usar quando me refiro à você
(acho que vou ter que reinventar a gramática)
meu pretérito
presente
futuro, talvez
tudo simultaneamente
a confusão representa bem o que somos
(?)
essa primeira pessoa do plural
é um erro gramatical
(e do destino, também)
grave

REFÉM

Tenho o hábito inconsciente de procurar seu rosto entre todos os que vejo na multidão, sentindo aquela esperança quente que mantém as borboletas em meu estômago bem alimentadas. Em cada ônibus que sento, em cada curva que faço, em cada esquina suburbana e suja eu te procuro quase instintivamente. Até hoje não te matei dentro de mim.

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Não posso evitar, prolongo sua estadia por aqui sem preocupar em cobrar juros. Ainda consigo sentir resquícios do verão que você trouxe consigo quando chegou, exibido e apaixonado pelos pequenos detalhes rotineiros que inspiravam sua prosa cotidiana. O céu escureceu por aqui desde que você entrou naquele trem das sete. O das onze não te trouxe de volta. Tudo igualmente cinza.

Aos domingos, costumo encarar o que ainda há de você aqui dentro. Te olho nos olhos, aproveito o impulso que dura três ou quatro segundos e encosto o cano da arma bem entre suas sobrancelhas, sem desviar o olhar das suas pupilas, sentindo o gatilho implorar para que eu o pressione.

Por mais um segundo, penso a respeito.

Seu olhar escuro é sempre o que me faz desistir.

Te deixo vivo aqui. Vivo e refém.