EU, SATURNO

A imensidão desse universo me fascina e me assusta. Pensar na grandeza de tudo e na minha insignificância dá certa agonia ao mesmo tempo em que me conforta: é bom manter a perspectiva e perceber que meus problemas juvenis são tão pouco quando comparados a tudo que há. O espaço que ocupo é tão mínimo. Tão nada. Quase inexisto.

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Tempo e espaço são conceitos duvidosos, limitados e limitantes. Não confio em nenhum dos dois, me parecem um pouco forçados. Tudo é tão mais e maior, chega a ser injusto amassar toda essa relatividade dentro de termos e definições que pouco abrangem.

Pensar nisso me faz pensar em passado, presente e futuro. Me faz questionar minha própria existência e minha própria noção. Me perco no escuro que precede o nascer do sol pensando em como seria viajar entre as dimensões do tempo-espaço, se eu conseguiria sentir minhas partículas se desprendendo aos poucos do meu corpo, se eu seria capaz de perceber o exato momento que deixei de ser um pouco eu para ser parte do mundo e ter o mundo contido em meu interior.

Nos meus sonhos, me lanço entre galáxias e conheço os quatro cantos inexistentes de toda a existência. Dou cambalhotas em buracos negros brincando com as passagens entre dimensões, sem me importar muito com anos terrestres ou a quantidade de horas que um dia possui, teoricamente. Me imagino sendo estrela, sendo asteroide, sendo mais parte de tudo do que sou hoje. Eu queria mesmo era ser um sistema solar inteiro. Distante, cheio das minhas particularidades, com outros conceitos, com outras questões.

Se eu fosse um desses planetas que mais conhecemos, eu seria Saturno. Acho os anéis poéticos. Mas eu queria ser mais. Transcender o que se conhece até então.

ENTRE LENÇÓIS E COISAS NÃO DITAS

Eu sinto e vivo e fujo de forma meio implícita e minhas vontades são todas indiretas e calculadas, de uma forma meio preto e branca, toda mistério. Tenho gosto pela penumbra, o implícito, o rosto mostrado pela metade e o corpo desfocado violentamente numa poesia meio distorcida, quase palpável, que atinge meu paladar e minha vontade por tato.

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Eu gosto mesmo é da antecipação que causa aquela ansiedade boa, dos arrepios entre o que foi falado e o que foi traduzido em olhar, dos toques minimalistas do início da noite ou madrugada afora, meio secretos e íntimos por completo. Eu gosto quando o beijo é devagar e a euforia acelera, gosto do sorriso de provocação, do sabor de querer mais, mais, mais. Nunca o suficiente.

Eu gosto é do erótico, não do pornográfico; gosto do sensual no lugar do sexual, gosto das propostas indecentes que me conquistam após a terceira vírgula e da respiração pesada que acompanha a pausa. Eu gosto é do espaço entre as palavras. Eu gosto do silêncio convidativo. Gosto do escuro, do breu, sem possibilidade de qualquer realidade escancarada.

Eu quero mesmo é a verdade toda nua, espalhada entre lençóis, esperando para ser descoberta. Eu gosto quando o sol se esconde atrás do véu e a alma se torna mais ousada e corre riscos: fazer mais, falar mais. Buscar o toque e as sensações num frio noturno atrativo.

Eu gosto do mal contado. Da possibilidade de interpretação livre. Do inacabado que fica ali, disponível para ser finalizado quando, como e onde quisermos.

A sós.